O que faz uma referência se tornar conhecida? Para o diretor de arte e designer Leonardo Almeida, o Leozim, a resposta passa por quem conta as histórias e por quais trajetórias costumam ser deixadas de fora. Foi dessa inquietação que nasceu o Ref de Cria, podcast independente produzido em Belo Horizonte que reúne conversas com artistas e profissionais criativos da periferia, registrando suas vivências, processos e referências.
Mais do que entrevistar convidados sobre o trabalho que desenvolvem, o projeto busca documentar as histórias que moldaram cada trajetória. As conversas passam pela infância, pela família, pelo território onde cresceram, pelas dificuldades enfrentadas e pelos caminhos percorridos até a atuação profissional. O resultado é um acervo que transforma memórias periféricas em arquivo vivo, preservando narrativas que, muitas vezes, ficam à margem dos registros tradicionais.
“Por eu ser o primeiro da minha família a fazer e me formar em uma faculdade, eu tive um processo muito solitário. Eu senti que naveguei por um mar que eu não tinha a quem recorrer na minha família, então, eu buscava muito nos outros que estavam nos mesmos lugares essa âncora. Sempre que eu achei essas pessoas, eu gostei muito de conversar com elas. Foi tudo muito rico para a minha vida. Com a gravação dos episódios, eu mudei. Não sou o mesmo que iniciou o projeto. Aprendi muito e passei a valorizar mais o meu saber periférico e das outras pessoas que estão comigo na periferia também”, explicou Leo.
Inspirado na ideia de escrevivência, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo, o podcast parte do princípio de que experiências individuais também carregam histórias coletivas. Em vez de separar a estética periférica de sua origem, o Ref de Cria procura manter o vínculo entre criação, território e autoria, valorizando a periferia não como cenário, mas como ponto de vista.
A primeira temporada reuniu 11 episódios, gravados de forma independente em Belo Horizonte, totalizando mais de 14 horas de conteúdo. Entre os entrevistados estão Dona Gilma, Max Bertuani, Mari Galvão, Vinicios Bragança, Del Nunes, Túlio Cipó, DMS, Renata Assis (Derevolta), Mannda Lym, Emilly Karoline e Bernardo SEK, pessoas que são de periferias em BH, cidades do interior de MG e até de outros estados.
Em menos de três meses no ar e sem investimento em mídia paga, o Ref de Cria acumulou 349.274 visualizações e reproduções nas plataformas digitais. O conteúdo alcançou mais de 120 mil contas no Instagram e somou 244 horas de exibição e reprodução entre YouTube, Spotify e redes sociais.
Além da audiência, o projeto também mediu o impacto junto ao público. Segundo levantamento realizado pelo próprio podcast, 90% dos participantes afirmaram ter conhecido uma nova referência por meio do Ref de Cria. A pesquisa também mostrou que todos os entrevistados disseram ter revisitado histórias, memórias ou referências durante a participação e avaliaram com nota máxima a forma como foram representados.
Com a primeira temporada disponível no YouTube e no Spotify, o podcast já prepara uma nova rodada de entrevistas. A segunda temporada tem estreia prevista para setembro de 2026 e deverá contar com 14 episódios inéditos.
“Penso em fazer um mestrado com todo esse material do podcast, com todas as perspectivas. Também penso em levar o projeto para fora do digital, por exemplo, na rua, em escolas e em faculdades. Quero continuar trocando ideia com essas pessoas de forma simples, valorizando os saberes e as vivências delas”, contou o mineiro, queum dia sonha em receber a própria Conceição Evaristo para um episódio.
Criado e apresentado por Leonardo Almeida, morador do bairro Jardim Felicidade, na região Norte de Belo Horizonte, o Ref de Cria nasceu como um projeto independente para registrar as trajetórias de pessoas que transformam suas experiências, afetos e territórios em criação. A proposta é construir um acervo de histórias capaz de ampliar referências e preservar a memória produzida nas periferias, resumida na frase que orienta o projeto: “Quando um de nós se conta, outro de nós se encontra.”