Em Minas, a oposição ao grupo governista resolveu ensaiar Stanislaw Ponte Preta, em seu samba do Crioulo Doido, quando disse: “foi em Diamantina onde nasceu JK que a princesa Leopoldina arresolveu se casar”. O enredo perdeu a cronologia, embaralhou os personagens e agora tenta vender como estratégia aquilo que, visto de perto, parece mais um arranjo de emergência. O PT mineiro, que já foi força com musculatura própria, chega a 2026 sem candidato ao governo e com uma linha oficialmente mais pragmática: abrir mão do protagonismo local para tentar sobreviver eleitoralmente num estado decisivo para Lula. Nesta segunda-feira, 20 de abril, o próprio diagnóstico público já é esse. O partido prioriza alianças, admite falta de competitividade em parte do país e, em Minas, trabalha em torno de Rodrigo Pacheco.
O PT sem um nome para chamar de seu
O PT, que sempre gostou de se apresentar como autor da própria narrativa, em Minas virou coadjuvante da conveniência. Em vez de erguer um nome, passou a procurar um abrigo. E achou em Pacheco, que formalizou filiação ao PSB em 1º de abril, movimento lido nacionalmente como passo para se tornar o nome de Lula ao governo mineiro. Só que aí começa o problema: Pacheco pode ser o candidato ideal no papel, mas a política não se faz com papel timbrado, e sim com desejo, timing e disposição de entrar no lamaçal. E, até aqui, ele segue mais como hipótese elegante do que como candidatura musculosa.
Pacheco: O indeciso
Há outro detalhe que desmonta parte da fantasia, a vaga do STF, que rondava Pacheco como possibilidade nobre de saída pela porta da frente, já não é mais a grande incógnita do Planalto. Lula formalizou a indicação de Jorge Messias para a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso, e o próprio Pacheco declarou, em março, que esse assunto era uma “página virada”. A política mineira não está esperando um homem dividido entre o Palácio da Liberdade e o Supremo; está esperando um político que já disse ter deixado o sonho do Supremo para trás, mas ainda assim continua tratando a candidatura ao governo como um namoro cheio de reticências. Isso não transmite força. Transmite hesitação.
Aécio entra em cena
E é justamente nessa hesitação que entra Aécio Neves, como quem nunca desiste de apresentar-se viável à política mineira. Pacheco admitiu, publicamente, que conversa com Lula e também com Aécio sobre a formação de chapa em Minas. José Guimarães, hoje na articulação política do governo, também não descartou a convivência de Aécio no mesmo palanque de Pacheco. Só que, do outro lado, interlocutores de Aécio e do próprio Pacheco dizem que a hipótese de o tucano virar vice está descartada; quando muito, haveria conversa para uma composição em torno do Senado. Ninguém assume a fotografia, mas muita gente posa nos bastidores.
É aí que o enredo ganha sua melhor dose de deboche involuntário. Porque Aécio não é um nome qualquer para o PT mineiro. Aécio é memória viva de antagonismo, cicatriz de 2014 e símbolo de tudo o que a militância petista de Minas aprendeu a combater com fervor quase litúrgico, um inimigo público número zero. Não por acaso, a resistência dentro do PT é explícita. A direção petista nacional e quadros do partido têm rechaçado a possibilidade de dividir palanque com ele. E o próprio Aécio, embora faça elogios a Pacheco, também ressalta que o senador avança para o “campo petista”, que sempre foi oposição ao PSDB. Na tradução do politiquês para o português claro, isso quer dizer que cada lado quer aproveitar o outro sem assumir o custo moral da fotografia.
Uma frente aflita e desconjuntada
O que se desenha, portanto, não é uma frente ampla; é uma frente aflita. Lula precisa desesperadamente de um palanque competitivo em Minas, porque Minas continua sendo peça central no tabuleiro presidencial e porque a disputa nacional entrou em zona de aperto. Pacheco interessa por ser moderado, institucional, e vendável ao centro. Aécio interessa por ainda conservar capilaridade, memória de poder e presença em nichos políticos tradicionais. Já o PT entra com a estrutura, com a máquina militante possível e com a benção presidencial. Cada um leva alguma coisa para a mesa. O problema é que ninguém ali parece disposto a levar convicção.
E política sem convicção até pode produzir acordo, mas raramente produz entusiasmo. O eleitor percebe quando há projeto e percebe, mais ainda, quando há apenas medo de perder. Em Minas, o lulismo quer um nome que não seja do PT porque o partido não dá conta, não tem lideranças, não formou quadros partidários. Pacheco quer manter ares de estadista enquanto mede o custo de descer do Senado para a planície áspera de uma eleição com prenúnciuo de muita dificuldade. E Aécio quer provar, mais uma vez, que na política brasileira certos personagens nunca saem de cena; no máximo, trocam de posição no palco. O resultado é uma colcha de retalhos costurada com cálculo e vendida como reconciliação democrática.
Um enredo mal acabado
No fim das contas, o grande retrato desse imbróglio é cruel para todos os envolvidos. Para o PT mineiro, porque expõe a perda de densidade de um partido que já teve ambição de hegemonia e hoje precisa terceirizar seu projeto estadual. Para Pacheco, porque confirma a impressão de que seu capital político é mais admirado em Brasília do que testado nas ruas. E para Aécio, porque sua eventual utilidade numa chapa apoiada por Lula não seria sinal de redenção, seria apenas a prova de que, na política brasileira, o pragmatismo às vezes atropela até a biografia.
Minas virou, outra vez, o estado onde adversários históricos conversam em voz baixa, aliados se estranham em público e convicções entram na sala pela porta dos fundos. Não é exatamente uma construção política; é mais um condomínio de conveniências. E um condomínio assim costuma ter reunião barulhenta, ata confusa e briga na garagem.
