A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas caiu sobre o Brasil como um trovão em céu que já estava carregado havia muito tempo.
O fato é grave. E exige duas leituras ao mesmo tempo.
A primeira é evidente: PCC e Comando Vermelho não são mais apenas quadrilhas domésticas, escondidas em vielas, presídios e bocas de fumo. São estruturas criminosas complexas, empresariais, armadas, transnacionais, com ramificações em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, contrabando, mineração ilegal, corrupção, sistema financeiro paralelo, controle territorial e infiltração em atividades aparentemente legais.
A segunda leitura é igualmente necessária: uma decisão americana desse tamanho não pode ser recebida pelo Brasil nem com aplauso automático, nem com indignação de teatro. Há risco, sim, quando uma potência estrangeira passa a enquadrar organizações brasileiras em seu próprio vocabulário de segurança nacional. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em nota, chamou a medida de decisão soberana dos Estados Unidos, mas alertou para implicações profundas sobre soberania, autonomia, economia, sistema financeiro e mecanismos de cooperação internacional. Também criticou a captura do tema pela disputa eleitoral brasileira.
Não se combate crime organizado com palanque
O Brasil chegou a esse ponto porque falhou. Falhou por omissão, por lentidão, por corporativismo, por vaidade institucional, por disputa política e por uma velha mania nacional de tratar o crime organizado como problema dos outros, dos pobres, das periferias, das polícias, dos presídios, dos estados, dos governos anteriores, dos governos seguintes. Sempre dos outros.
Enquanto isso, as facções cresceram dentro das cadeias, onde o Estado perdeu o comando. Cresceram nas comunidades, onde o Estado aparece pouco e muitas vezes aparece mal. Cresceram nas fronteiras, onde o Brasil é gigante no mapa e pequeno na fiscalização. Cresceram no sistema financeiro, onde dinheiro sujo aprendeu a usar terno, aplicativo, fintech, criptoativo, aposta online e empresa de fachada. Cresceram também na política, porque onde há muito dinheiro ilegal, sempre há alguém disposto a abrir uma porta, assinar um papel ou olhar para o lado.
O crime organizado já está dentro de todas as instituições brasileiras
Não se trata apenas de dizer que há criminosos nas ruas. Isso seria simples demais. O problema é mais profundo, mais sofisticado e mais perigoso. O crime organizado se infiltrou em estruturas públicas e privadas, em setores econômicos, em administrações locais, em agentes do Estado, em contratos, em licitações, em empresas de fachada, em mecanismos financeiros, em redes de proteção e em zonas cinzentas onde a legalidade vira biombo para o dinheiro sujo.
Está onde há fronteira desprotegida. Está onde há porto vulnerável. Está onde há cadeia dominada. Está onde há policial corrompido. Está onde há político financiado por interesses obscuros. Está onde há empresário que lava dinheiro e se apresenta como empreendedor respeitável. Está onde há servidor que fecha os olhos. Está onde há banco paralelo, fintech sem controle suficiente, aposta eletrônica sem fiscalização adequada, criptoativo usado como esconderijo e mercado legal servindo de roupa limpa para fortuna criminosa.
Essa é a dimensão mais assustadora do problema: o crime organizado deixou de ser apenas inimigo do Estado. Em muitos lugares, ele passou a operar por dentro do Estado. Está nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
O dedo na ferida
Se o Brasil tivesse sido eficiente, os Estados Unidos teriam encontrado espaço para transformar PCC e Comando Vermelho em assunto de política externa americana?
Provavelmente não.
O governo brasileiro tem razão quando diz que terrorismo e crime organizado não são conceitos idênticos. Há diferenças jurídicas importantes. Terrorismo, em regra, envolve finalidade política, ideológica ou religiosa. O crime organizado busca poder, território e dinheiro. Mas essa distinção, embora juridicamente relevante, não pode servir de biombo para a paralisia.
Porque, na vida real do cidadão, a diferença entre crime organizado e terror organizado muitas vezes desaparece.
Para quem vive em território dominado por facção, o toque de recolher é terrorismo cotidiano. Para o comerciante obrigado a pagar taxa de proteção, é terrorismo econômico. Para a família que vê o filho ser recrutado pelo tráfico, é terrorismo social. Para a polícia que entra em área conflagrada sem inteligência, sem integração e sem política pública consistente, é guerra urbana sem declaração formal. Para o país que vê facções controlarem rotas, portos, presídios e mercados ilegais, é perda concreta de soberania interna.
Esse é o paradoxo: o Brasil rejeita a palavra “terrorismo”, mas convive com práticas que aterrorizam milhões de brasileiros.
O problema não é apenas semântico. É de capacidade do Estado.
As leis brasileiras são ineficientes
A Lei das Organizações Criminosas, a legislação sobre lavagem de dinheiro, os mecanismos de cooperação internacional, os instrumentos de investigação financeira e as operações policiais produziram avanços importantes. Mas o resultado final é insuficiente diante da escala do problema.
Prendemos líderes, e as facções se reorganizam. Fazemos operações, e os territórios voltam ao controle criminoso. Apreendemos drogas, e as rotas se recompõem. Bloqueamos contas, e o dinheiro escorre por outros canais. Combatemos o braço armado, mas muitas vezes não alcançamos o cérebro financeiro.
É como enxugar gelo com discurso oficial.
E o gelo, convenhamos, está derretendo em cima do colo da sociedade.
O crime organizado brasileiro já não vive apenas do fuzil no morro. Vive também da planilha, do contador, do laranja, do advogado, do operador financeiro, do posto de gasolina, da casa de apostas, da empresa de transporte, do garimpo ilegal, da importadora suspeita, do aplicativo que ninguém fiscaliza direito e do dinheiro que gira limpo depois de nascer podre. Por isso, a reação brasileira à decisão americana precisa fugir dos dois extremos.
É preciso discutir o tema com atenção
De um lado, é irresponsável transformar a medida dos Estados Unidos em solução mágica. Não será um carimbo de Washington que vai desmontar o PCC ou o Comando Vermelho. Crime organizado não se vence por decreto estrangeiro, nem por bravata diplomática. A classificação como organização terrorista pode facilitar sanções, bloqueios e cooperação financeira, mas também pode trazer riscos jurídicos, econômicos e diplomáticos relevantes para o Brasil.
De outro, também é irresponsável tratar a decisão americana apenas como interferência externa, como se o Brasil estivesse fazendo tudo certo e o problema fosse apenas a ousadia dos Estados Unidos. Essa postura é confortável, patriótica na embalagem e vazia no conteúdo. Serve para discurso, não para segurança pública.
A soberania brasileira não se defende apenas com nota oficial. Defende-se com Estado funcionando.
Soberania é controlar fronteiras. É impedir que presídios sejam escritórios do crime. É seguir o dinheiro. É regular setores vulneráveis à lavagem. É integrar Polícia Federal, polícias civis, militares, Receita, Coaf, Banco Central, Ministério Público, Judiciário e inteligência. É ter política nacional de segurança que não dependa do humor eleitoral. É proteger o cidadão antes que a facção o proteja com uma arma apontada para sua cabeça.
E, sobretudo, soberania é limpar as próprias instituições.
Porque não há política de segurança eficiente quando parte da engrenagem pública está contaminada. Não há combate ao crime organizado quando a informação vaza, quando a operação é sabotada, quando a investigação encontra muralhas invisíveis, quando o dinheiro compra silêncio, quando o poder público demora demais e o poder paralelo age rápido demais.
O Brasil precisa reconhecer que a segurança pública virou tema de segurança nacional. Não no sentido de militarizar tudo, mas no sentido de assumir a dimensão real do problema.
A criminalidade organizada não é mais apenas caso de polícia. É caso de Estado. É caso de economia. É caso de fronteira. É caso de diplomacia. É caso de democracia.
Facções que controlam territórios, intimidam populações, corrompem agentes públicos, movimentam bilhões, infiltram-se em instituições e desafiam a autoridade pública não são simples “problemas locais”. São organizações que corroem o Estado por dentro, como cupim em madeira nobre: por fora, a mesa parece firme; por dentro, está virando pó.
Uma decisão que desperta alerta e risco
Alerta porque mostra que o mundo já percebeu a dimensão internacional das facções brasileiras. Risco porque abre espaço para que outros países passem a lidar com problemas brasileiros a partir de seus próprios interesses, seus próprios métodos e sua própria agenda política.
E é exatamente por isso que o Brasil precisa reagir com maturidade.
Não basta dizer “não aceitamos interferência”. É preciso demonstrar capacidade. Não basta defender soberania. É preciso exercê-la. Não basta criticar Washington. É preciso enfrentar o PCC e o Comando Vermelho em São Paulo, no Rio, na Amazônia, nas fronteiras, nos portos, nas cadeias, nos bancos paralelos, nos negócios aparentemente respeitáveis e nos espaços institucionais onde o crime já colocou tentáculos.
O país precisa de uma legislação mais moderna, de inteligência financeira mais agressiva, de cooperação internacional mais bem calibrada, de controle efetivo de fronteiras, de rastreamento de armas, de regulação séria de setores usados para lavagem e de uma política prisional que impeça presídios de continuarem funcionando como diretórios nacionais do crime.
E precisa, sobretudo, parar de fazer da segurança pública discussão ideológica
O cidadão que vive sob domínio do crime não quer saber se o diagnóstico vem da esquerda, da direita, do centro ou do Departamento de Estado americano. Ele quer sair de casa, abrir seu comércio, mandar o filho para a escola, pegar o ônibus e voltar vivo. Simples assim. Ou melhor: tragicamente assim.
O Brasil não precisa importar a lógica americana da guerra ao terror. Mas precisa abandonar a lógica brasileira da guerra de faz de conta.
Porque enquanto Brasília discute o nome do problema, o crime organizado já resolveu o método: manda, ameaça, mata, lava dinheiro, compra proteção, ocupa espaços e infiltra instituições.
A decisão dos Estados Unidos deve ser observada com cautela, sim. Mas também com humildade institucional. Ela é incômoda porque toca no nervo exposto da nossa incompetência histórica.
O Brasil não pode terceirizar o combate ao crime organizado. Mas também não pode continuar fingindo que suas ferramentas atuais bastam.
Porque quando a lei não assusta o criminoso, quando o Estado se deixa infiltrar e quando a instituição pública vira terreno de disputa do crime, quem passa a viver assustado é o cidadão.
