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Quando uma criança some, a nação diminui de tamanho

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(Divulgação/CBMMG)

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O caso da menina Alice, de 4 anos, encontrada com vida em Minas Gerais, tem cara de milagre civil: uma comunidade inteira virando radar humano, força-tarefa em campo, tecnologia no ar, drones, câmeras térmicas, e a notícia que chega como abraço: “achamos”. Alice havia desaparecido no dia 29 de janeiro de 2026, numa área de mata no povoado de Bituri, zona rural de Jeceaba, e foi resgatada em 31 de janeiro, localizada por voluntários e atendida no hospital.

Só que esse “final feliz” não pode ser o ponto final. Precisa ser um ponto de exclamação.

Porque, enquanto o país comemora uma criança encontrada, ele engole, em silêncio, um número que deveria escandalizar: três em cada dez desaparecidos no Brasil são crianças e adolescentes. Em 2025, foram 84.760 registros de desaparecimento e 23.919 de menores de 18 anos, 28% do total. Na prática: 66 boletins por dia só de crianças e adolescentes.

O Brasil criou uma espécie de rotina inaceitável. A gente trata desaparecimento como se fosse pane de elevador, “já, já volta”. Não volta. Às vezes volta. Às vezes volta quebrado. Às vezes não volta. O desaparecimento é um drama que dura até terminar. E, quando envolve criança, ele rasga o tecido moral do país com uma facilidade assustadora.

O que o caso de Alice revela, e o que ele esconde

Revela que a mobilização salva. Reforça que tempo importa. Mostra que, quando Estado e sociedade se encaixam como engrenagem — bombeiros, polícias, Defesa Civil, moradores, o desfecho melhora.

Mas esconde (porque a comoção é seletiva) que nem todo desaparecimento ganha a mesma atenção, o mesmo esforço, o mesmo estado de alerta.

A nomenclatura técnica já diz: há desaparecimento voluntário, involuntário, forçado,  e há o que especialistas chamam de desaparecimento estratégico, quando a pessoa some para sobreviver (fuga de violência, maus-tratos, abuso). As causas são complexas e diversas, e isso não é desculpa, é puro diagnóstico.

No caso de Alice, um detalhe aumenta a gravidade e, ao mesmo tempo, ilumina um ângulo que a sociedade precisa aprender a enxergar: ela é autista não verbal, não se comunica, de acordo com as informações da família durante as buscas. Ou seja, vulnerabilidades tornam cada minuto mais caro. Criança pequena, ambiente de mata, dificuldade de comunicação, isso não é fatalidade; é risco mensurável, que exige resposta rápida e coordenada.

Sensibilização não é discurso, é política pública informal.

Quando eu digo sensibilizar a sociedade, não estou pedindo lágrima: estou pedindo atenção organizada. Sensibilização, aqui, é transformar a comunidade numa rede que leva desaparecimento a sério imediatamente; sabe agir sem atrapalhar; cobra estrutura permanente do poder público; não culpa a família automaticamente; e não transforma tragédia em entretenimento.

Existe uma Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas (Lei 13.812/2019) e um Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, pensado para integrar informações e cruzar dados nacionalmente.
Na prática, o CNPD recebe casos a partir dos boletins registrados nas polícias civis, com integração automática, com o cidadão podendo consultar desaparecidos pelo app Sinesp Cidadão.

Porém, se a sociedade não conhece, não usa e não cobra, vira letra morta. Sensibilização é fazer o brasileiro médio saber o básico do básico. Desapareceu, não é para “esperar”, é para registrar, divulgar com responsabilidade e acionar os canais corretos, é para entender que informação útil pode ser repassada à Polícia Civil, inclusive por números como 197 ou 181 (disque-denúncia), conforme orientação oficial do CNPD.

A parte que incomoda: desaparecimento também é espelho de violências

Aqui vai um ponto que exige maturidade social. Nem todo desaparecimento infantil é sequestro cinematográfico. Nem todo caso é estranho rondando a escola. E nem todo caso é uma família desestruturada. Simplificar as causas é sempre confortável, e cruel.

O dado impactante, 66 registros por dia, é um rio com muitos afluentes: conflitos familiares, violência doméstica, abuso, negligência, fuga, exploração, contextos de criminalidade, vulnerabilidade social. E quando crianças fogem de ambientes violentos, o Estado precisa ter sensibilidade para não devolvê-las, mecanicamente, ao lugar de onde elas escaparam.

Ou seja: a sociedade precisa, ao mesmo tempo, de urgência e de delicadeza. Urgência para achar. Delicadeza para proteger quando acha.

Um país que some 66 crianças por dia precisa de um pacto de atenção

É necessária a atenção treinada na escola e na vizinhança.  Escola, transporte, comércio local, porteiros, síndicos, líderes comunitários, todos podem ser o voluntário que faz a diferença Não é vigilância paranoica é cultura de cuidado.

A comunicação deve ser responsável, menos viral e mais útil. Compartilhar alerta não é caçar culpado em rede social. É divulgar foto correta, local, data, contatos oficiais, e evitar boatos que desviem recursos e produzam pistas falsas.

Os que se dedicam a esse assunto dizem sempre que é fundamental o apoio real às famílias. A sociedade deve abolir o tribunal de internet. O desaparecimento costuma vir acompanhado de julgamento. E julgamento precoce afasta gente boa, desestimula registro e alimenta subnotificação, o que piora políticas públicas e apuração.

Quando uma força-tarefa funciona, ela não pode depender do acaso. A política engatinha, o cadastro nacional é recente e a integração ainda não é plena, e isso precisa virar cobrança permanente, com metas, transparência e rotina de capacitação.

O caso de Alice nos dá um alívio legítimo e uma obrigação incômoda. Não romantizar o desfecho como se ele resolvesse o problema. Ele só revela o que é possível quando a sociedade não desvia o olhar.

Se três em cada dez desaparecidos são crianças e adolescentes, o Brasil não está diante de um tema social. Está diante de um indicador de civilização. E indicador não se melhora com postagem emocionada de 24 horas. Melhora com sensibilização persistente: a coragem cotidiana de perceber, agir, informar direito, acolher, cobrar, e não normalizar.

Porque a pior notícia não é uma criança desaparecer. A pior notícia é a gente se acostumar.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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