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É de uva

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(Reprodução/YouTube)

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Quando o reconhecimento vem em forma de picolé, o colaborador responde com pedido de demissão.

O capitalismo até pode ter muitos defeitos (para alguns), mas possui uma virtude inegociável: ele não mascara a verdade. Quando algo está errado, o mercado fala. E fala rápido.

Nos últimos dias, a aviação brasileira ouviu esse recado com clareza. Pilotos e copilotos da Azul atravessaram o portão para vestir o uniforme da Latam. Não foi um movimento isolado. Foram dezenas de profissionais. Em um único dia, a Latam contratou 60 pilotos e 90 copilotos. O reflexo veio na hora: cancelamentos de voos, sobretudo a partir de Viracopos, por um motivo básico. Faltou tripulação: faltou piloto, faltou copiloto e comissários.
Isso não é apenas um problema operacional. É livre concorrência em estado puro.

Em mercados competitivos, profissionais qualificados não pedem permissão para sair. Eles escolhem. Escolhem previsibilidade, reconhecimento e horizonte de carreira. Pilotos não decidem no impulso. Eles calculam. Projetam o futuro e agem de acordo com ele. A Latam entendeu isso antes.

Em 2026, a companhia está ampliando a sua frota em pelo menos 30 aeronaves e, como consequência direta, deverá contratar centenas de pilotos ao longo deste ano. Não é reposição emergencial. É crescimento planejado. Para quem voa profissionalmente, isso significa escala previsível, estabilidade e perspectiva concreta de carreira.
No início do mês de janeiro, os funcionários da Latam receberam uma mensagem de agradecimento do vice-presidente. Junto dela, um Pix equivalente a um terço da remuneração mensal. A mensagem foi simples e inequívoca: a empresa valoriza quem está ali.

A Azul também agradeceu. Mas de outro jeito. Enquanto uma companhia transferiu dinheiro, a outra distribuiu picolé de uva. O gesto virou meme. E memes são cruéis porque resumem uma percepção coletiva em uma imagem impossível de ignorar.

O problema não é somente o picolé. É o tempo. É a forma.

Só depois da debandada vieram as reações: garantia mínima de horas pagas, gratificação de equipamento, ajustes no plano de carreira. Medidas corretas. Necessárias. Tardias. E esse atraso não atinge apenas quem trabalhava na empresa. Atinge diretamente o consumidor.

Para o passageiro, a consequência aparece em voos cancelados, conexões perdidas, reacomodações improvisadas e insegurança no planejamento. Quando falta piloto, não falta só avião no céu. Falta confiança no serviço. O cliente não quer saber de crise interna ou de promessa futura. Ele quer chegar no destino no horário combinado.

Por isso, valorizar o profissional não é discurso de recursos humanos. É estratégia de qualidade, de confiabilidade e de respeito ao consumidor.

O capitalismo funciona de forma simples. Quem valoriza antes, retém. Quem reage depois, corre atrás.
Valorizar enquanto o colaborador ainda está na empresa é visão estratégica. Valorizar quando ele já decidiu sair é contenção de danos. E contenção de danos raramente reconstrói confiança, nem dentro da empresa, nem fora dela.

A concorrência é boa porque pune a complacência, protege quem trabalha e beneficia quem consome. Quando há alternativa real, o mercado faz seu trabalho sem piedade.

Talvez a Azul ainda consiga ajustar a rota. Talvez não. O céu não espera. Pilotos não permanecem onde o futuro é incerto. E passageiros não permanecem fiéis a quem não entrega previsibilidade. Torço para que consiga reajustar a rota e entre de fato na concorrência, à altura do que está acontecendo na Latam. Porque o “não reajustar de rotas” pode deixar os concorrentes confortáveis e pode ser que se esqueçam sobre a importância de continuar valorizando seus colaboradores.

No fim, fica a lição: reconhecimento não pode ser simbólico quando o mercado é concreto. E, na economia real, entre o Pix e o picolé, a escolha de quem trabalha e de quem consome costuma ser a mesma.

E essa história do picolé como agradecimento me fez lembrar dos servidores públicos… quantas e quantas vezes eles chegam em casa com seus “certificados coloridos”, de agradecimentos, honrarias, medalhas, troféus e até quadros para colocar na parede. Mas pix que é bom? Deixo para vocês responderem. Pelo menos, na Azul, ainda teve o picolé de uva. Chupa que é de uva.

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Camila Dias

Advogada especialista em Direito de Família - mediadora, conciliadora. Jornalista, especialista em Criminologia.

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