Durante décadas, quando alguém lia “Made in China” em uma embalagem, a associação era quase automática: produção em massa, baixo custo e pouca inovação. Essa imagem envelheceu. Hoje, quando falamos em carros elétricos, baterias, energia solar, drones, telecomunicações, inteligência artificial, robótica e tecnologias quânticas, a China deixou de ser apenas o lugar onde o mundo fabrica. Em várias dessas áreas, passou também a pesquisar, desenvolver, patentear e, principalmente, produzir em uma escala que poucos países conseguem acompanhar.
Isso não significa que a China tenha simplesmente se tornado “o maior país de tecnologia do mundo”. Os Estados Unidos continuam liderando áreas fundamentais, como inteligência artificial de fronteira, semicondutores avançados, software e grandes plataformas digitais. A transformação chinesa é mais complexa e talvez mais interessante: em poucas décadas, o país conseguiu sair da posição de seguidor para se tornar uma das principais potências tecnológicas do planeta. Para entender como isso aconteceu, precisamos olhar menos para uma empresa específica e mais para a estratégia construída pelo país.
Um dos marcos dessa transformação aconteceu em 2015, quando Pequim lançou o programa Made in China 2025. Naquele momento, a China já possuía uma indústria gigantesca, mas ainda dependia do exterior para muitas das tecnologias sofisticadas utilizadas dentro de suas próprias fábricas. Fabricava computadores, mas importava chips avançados. Produzia automóveis, mas não liderava a tecnologia automotiva. Montava equipamentos sofisticados, mas dependia de componentes estrangeiros de maior valor agregado. O plano definiu setores estratégicos, entre eles tecnologia da informação, robótica, veículos de nova energia, equipamentos de energia, aeroespacial, novos materiais, biomedicina e máquinas industriais avançadas. A intenção era clara: reduzir dependências e fazer a China subir na cadeia de valor.
Dez anos depois, os carros elétricos talvez sejam a demonstração mais evidente do resultado dessa estratégia. Em 2025, o mundo produziu quase 22 milhões de automóveis elétricos e aproximadamente três em cada quatro saíram de fábricas chinesas. Mas olhar apenas para o carro pronto esconde a parte mais importante. A China também responde por mais de 80% da fabricação mundial de células de baterias para veículos elétricos, cerca de 85% dos materiais ativos utilizados nos cátodos e mais de 90% dos materiais utilizados nos ânodos dessas baterias. Em outras palavras, o país não quis apenas criar uma montadora competitiva. Trabalhou para construir grande parte do ecossistema industrial do automóvel elétrico.
Na energia renovável, a escala é igualmente impressionante. Em 2025, o mundo adicionou aproximadamente 800 gigawatts de nova capacidade renovável e quase 500 gigawatts foram instalados somente na China. Isso significa que mais de 60% de toda a nova capacidade renovável adicionada ao planeta naquele ano aconteceu em território chinês. Foram cerca de 370 gigawatts de nova energia solar e 117 gigawatts de energia eólica. Mais importante ainda, a China também se tornou o principal centro industrial de equipamentos essenciais para essa transição. Enquanto boa parte do mundo discutia como seria a economia de baixo carbono, os chineses decidiram fabricar em escala aquilo que seria necessário para construí la.
A inteligência artificial apresenta uma fotografia diferente e mostra por que não podemos falar em uma liderança chinesa absoluta. Segundo o AI Index 2026, da Universidade Stanford, instituições dos Estados Unidos produziram 59 modelos de inteligência artificial considerados notáveis em 2025, contra 35 da China. Os americanos, portanto, continuam na frente quando observamos muitos dos modelos de fronteira. Entretanto, a China lidera em volume de publicações científicas, citações e concessões de patentes relacionadas à inteligência artificial. São modelos diferentes de força tecnológica: os Estados Unidos continuam extraordinariamente eficientes em transformar ciência, capital de risco e talento em empresas capazes de abrir novas fronteiras, enquanto a China trabalha agressivamente para transformar tecnologias em aplicações industriais, produtos e infraestrutura.
Os números de propriedade intelectual ajudam a dimensionar essa mudança. Em 2024, inventores residentes na China apresentaram aproximadamente 1,8 milhão de pedidos de patente, contra cerca de 502 mil dos Estados Unidos e 419 mil do Japão. Quantidade de patentes, evidentemente, não significa automaticamente qualidade ou inovação revolucionária, mas a evolução histórica chama atenção. A participação chinesa nos pedidos mundiais passou de 34,6% em 2014 para 49,1% em 2024. No mesmo ano, a China possuía aproximadamente 5,7 milhões de patentes em vigor, enquanto os Estados Unidos tinham cerca de 3,5 milhões. Já não estamos falando simplesmente de uma indústria especializada em copiar ou adaptar produtos estrangeiros, mas de uma enorme estrutura de pesquisa, desenvolvimento e propriedade intelectual.
Essa transformação exige dinheiro. Em 2025, a China investiu aproximadamente 3,93 trilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento, o equivalente a 2,8% de seu PIB. Mas talvez o diferencial chinês não esteja somente no volume de recursos, e sim na capacidade de coordená los. O Estado define tecnologias consideradas estratégicas, financia infraestrutura e pesquisa, oferece incentivos, mobiliza governos locais e direciona instrumentos financeiros. Ao mesmo tempo, empresas privadas e estatais competem ferozmente nesses mercados. É uma combinação peculiar de planejamento estatal com mecanismos de mercado, algo que pode ser entendido como um capitalismo dirigido pelo Estado.
Esse modelo permitiu criar uma espécie de esteira tecnológica. Universidades formam pesquisadores, laboratórios desenvolvem conhecimento, fundos públicos e privados financiam empresas, uma extensa cadeia de fornecedores permite fabricar rapidamente e o gigantesco mercado doméstico oferece escala para testar produtos, reduzir custos e preparar empresas para competir internacionalmente. Em muitos países, existe excelente ciência que nunca chega à fábrica. Em outros, existem grandes indústrias dependentes de tecnologias desenvolvidas no exterior. A estratégia chinesa tentou conectar pesquisa, financiamento, indústria, mercado e exportação dentro de um mesmo sistema.
Um indicador ajuda a compreender o tamanho dessa transformação. O Critical Technology Tracker, produzido pelo Australian Strategic Policy Institute, acompanha a produção científica de alto impacto em 74 tecnologias consideradas estratégicas. Na atualização de 2026, a China aparece na liderança em 69 delas. É importante interpretar corretamente esse dado: ele não significa que os chineses tenham os 69 melhores produtos ou empresas dessas áreas. O indicador mede principalmente pesquisa científica de alto impacto. Ainda assim, demonstra como a China deixou de apenas tentar alcançar a ciência produzida pelas grandes potências e passou, em diversos campos, a ocupar a fronteira da pesquisa.
Computação quântica e cibersegurança mostram justamente por que essa disputa precisa ser analisada com cuidado. Não existe hoje um vencedor absoluto da corrida quântica. Estados Unidos e China possuem posições muito fortes, porém em segmentos diferentes. Empresas americanas têm protagonismo importante no desenvolvimento de computadores quânticos e de seus ecossistemas comerciais, enquanto instituições chinesas possuem enorme produção científica e avanços relevantes em comunicação e outras tecnologias quânticas. Na cibersegurança também não existe um indicador confiável capaz de definir simplesmente qual país é “o melhor do mundo”. O que podemos afirmar é que Pequim passou a tratar segurança digital, criptografia, telecomunicações, infraestrutura crítica e soberania tecnológica como questões estratégicas de Estado.
Diante desses resultados, podemos dizer que o Made in China 2025 funcionou? A resposta mais correta é sim, mas de forma incompleta. A China conquistou posições extraordinárias em veículos elétricos, baterias, energia solar, telecomunicações, drones e diversas tecnologias industriais. Em algumas dessas áreas, conseguiu inclusive inverter a antiga relação de dependência: em vez de depender exclusivamente da tecnologia estrangeira, tornou outros países dependentes de partes importantes das cadeias produtivas chinesas. Entretanto, ainda existem vulnerabilidades relevantes, principalmente nos semicondutores mais avançados e nos equipamentos necessários para produzi los, além de máquinas de altíssima precisão, determinados componentes aeronáuticos e outras tecnologias sofisticadas.
Essa limitação ensina algo importante. Dinheiro, planejamento e escala conseguem acelerar enormemente o desenvolvimento tecnológico, mas não compram instantaneamente décadas de conhecimento acumulado. A China pode direcionar bilhões para semicondutores, por exemplo, mas ainda precisa enfrentar ecossistemas tecnológicos construídos durante décadas nos Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Europa. O sucesso do modelo chinês, portanto, não está em ter eliminado todas as suas dependências, mas em ter reduzido muitas delas e conquistado posições dominantes justamente em algumas das indústrias que mais devem crescer nas próximas décadas.
Também seria um erro romantizar esse modelo. O enorme volume de crédito, incentivos e capacidade industrial criou desperdícios, investimentos malsucedidos e excesso de produção em alguns setores. A indústria chinesa de veículos elétricos, por exemplo, vive uma intensa guerra de preços, com muitas empresas disputando espaço e margens cada vez menores. A mesma máquina que cria gigantes também produz fracassos. A diferença é que o sistema chinês parece disposto a aceitar perdas significativas em algumas apostas para conquistar posições estratégicas em outras.
Talvez essa disposição seja uma das grandes diferenças entre a China e boa parte do Ocidente. Democracias e economias de mercado normalmente possuem ciclos políticos, empresariais e financeiros mais curtos. A estratégia chinesa consegue estabelecer objetivos para dez, quinze ou vinte anos e mobilizar enormes recursos em torno deles. Isso não torna o modelo necessariamente melhor, nem elimina seus problemas econômicos e políticos, mas cria uma vantagem quando a competição exige investimentos gigantescos antes que o retorno financeiro apareça.
E Pequim não parece considerar essa estratégia encerrada. Em 2026, o novo plano quinquenal chinês voltou a colocar tecnologias de fronteira no centro da política industrial, incluindo inteligência artificial incorporada, biomanufatura e sistemas inteligentes. O Made in China 2025 pode ter chegado ao fim no calendário, mas a filosofia por trás dele continua: identificar antecipadamente tecnologias consideradas estratégicas, mobilizar capital, criar capacidade industrial e buscar escala mundial.
Talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira vantagem chinesa. Quando pensamos em inovação, normalmente imaginamos um inventor, uma startup ou um laboratório. A China mostrou que existe outra dimensão dessa disputa: escala também é tecnologia. Transformar uma descoberta científica em milhões de baterias, painéis solares, robôs ou automóveis exige engenharia, fornecedores, logística, capital, conhecimento e capacidade industrial.
Os Estados Unidos continuam tendo algumas das empresas mais inovadoras, universidades mais importantes e tecnologias mais avançadas do planeta. A Europa mantém excelência científica e industrial em inúmeros setores. A China acrescentou uma variável diferente à equação: uma capacidade extraordinária de conectar planejamento, pesquisa, capital e produção em escala.
Talvez essa seja a principal lição do Made in China 2025. A disputa tecnológica do século XXI não será vencida apenas por quem tiver a melhor ideia. Será vencida também por quem conseguir financiá la, desenvolvê la, transformá la em produto, fabricar milhões de unidades, reduzir seu preço e colocá la nas mãos do mundo.
Durante décadas, o Ocidente ensinou a China a fabricar. Agora, em algumas das indústrias mais importantes do futuro, é o restante do mundo que começa a discutir como competir com aquilo que a China aprendeu a construir.
