Preencha os campos abaixo para iniciar a conversa no WhatsApp

Peça um Rock
Anuncie Aqui
  • Ao vivo
  • BH e região
  • Atlético
  • Cruzeiro
  • Economia
  • Política
  • Custo Brasil
  • Colunistas
  • Dia Livre de Impostos BH
  • Plateia 98
  • Assine a Update
  • Ao vivo
  • BH e região
  • Atlético
  • Cruzeiro
  • Economia
  • Política
  • Custo Brasil
  • Colunistas
  • Dia Livre de Impostos BH
  • Plateia 98
  • Assine a Update
  • Ao vivo
  • Ao vivo
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Entre a sacristia e o comitê revolucionário: por que o Brasil precisa redescobrir o liberalismo inteligente

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 09/05/2026
  • 17:25

Siga no

Leia a coluna de Paulo Leite deste sábado (9/5)

Leia a coluna de Paulo Leite deste sábado (9/5)

Compartilhar matéria

A política brasileira parece ter desenvolvido uma vocação curiosa para o atraso. Não o atraso econômico apenas, aquele que aparece no PIB baixo, na produtividade rastejante, na escola ruim, na infraestrutura capenga e no Estado caro. Falo de um atraso mais profundo, o atraso mental, cultural, simbólico. A dificuldade de sair dos velhos catecismos, das velhas trincheiras, dos velhos dogmas embrulhados em linguagem nova.

A direita brasileira e a esquerda brasileira, embora se odeiem em público com entusiasmo teatral, têm algo em comum. Ambas são profundamente conservadoras. Cada uma à sua maneira, cada uma com sua liturgia, seus santos, seus hereges e seus tribunais morais. A direita se conserva presa a um puritanismo religioso, a uma ideia de ordem que muitas vezes confunde valores privados com projeto de Estado. A esquerda se conserva agarrada a um imaginário revolucionário antigo, com cheiro de panfleto mimeografado, como se ainda viesse a pé da Albânia, com uma mala de slogans do século XX e uma desconfiança incurável da liberdade individual.

Do ponto de vista da ciência social, isso revela uma característica típica de sociedades com modernização incompleta. As instituições avançam, a economia se transforma, a tecnologia altera a vida cotidiana, mas a cultura política continua girando em torno de identidades tribais. O Brasil tem smartphone, Pix, inteligência artificial, agronegócio de ponta, mercado financeiro sofisticado, startups, medicina avançada, indústria criativa e uma sociedade civil viva. Mas, na política, ainda discutimos como se estivéssemos entre o púlpito e o diretório estudantil de 1974.

A direita

A direita brasileira, especialmente nos últimos anos, cresceu como reação legítima a excessos da esquerda, ao estatismo, à complacência com regimes autoritários, ao patrimonialismo e ao desprezo pela responsabilidade fiscal. Mas uma parte importante dela se deixou capturar por uma agenda moral estreita. Em vez de defender a liberdade, passou a escolher quais liberdades merecem proteção. Em vez de proteger o indivíduo contra o poder do Estado, passou a desejar que o Estado proteja determinada visão religiosa da vida.

É aí que mora a contradição. Uma direita que diz defender liberdade econômica, mas flerta com tutela moral, não é plenamente liberal. É apenas seletivamente antiestatista. Quer menos Estado no bolso, mas aceita mais Estado no comportamento. Quer mercado livre, mas sociedade vigiada. Quer empreendedorismo, mas também quer transformar convicções religiosas particulares em política pública universal.

John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade, formulou talvez a síntese mais poderosa do liberalismo moderno: “sobre si mesmo, sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano”. A frase é mais do que bonita. É uma muralha contra todos os projetos de tutela, sejam eles religiosos, partidários, burocráticos ou revolucionários. Mill defendia que o poder só deve ser exercido contra a vontade de alguém para impedir dano a terceiros, não para impor uma moral oficial, uma fé dominante ou uma pedagogia ideológica de Estado.

A religião, para quem crê, tem papel fundamental na vida social. Ela organiza sentidos, forma comunidades, produz solidariedade, consola dores, cria códigos de conduta e ajuda milhões de pessoas a atravessarem o deserto da existência. O problema começa quando a religião captura a política. Quando o debate público deixa de ser disputa racional sobre leis, direitos, deveres, orçamento e instituições, e passa a ser guerra santa em versão parlamentar.

A política, numa democracia liberal, não pode ser extensão da sacristia. O Estado deve respeitar a fé, proteger a liberdade religiosa e garantir que ninguém seja perseguido por suas crenças. Mas deve também impedir que uma crença se transforme em algema pública. O cidadão pode orientar sua vida pela fé. O Estado, não. O Estado precisa se orientar pela Constituição, pelas evidências, pela liberdade e pela igualdade perante a lei.

A esquerda

Do outro lado, a esquerda brasileira também vive aprisionada num museu. Fala de futuro com gramática antiga. Usa palavras modernas, veste causas contemporâneas, mas frequentemente conserva um espírito autoritário. Há uma esquerda que não tolera o dissenso, que confunde divergência com crime moral, que acredita ter monopólio da virtude e que trata a sociedade como um material bruto a ser reeducado por iluminados.

Essa esquerda não entendeu, ou finge não entender, que o mundo real ainda preserva características conservadoras. As famílias existem. As religiões existem. As tradições existem. As comunidades locais existem. As pessoas não vivem apenas de abstrações ideológicas, vivem de pertencimento, memória, afeto, medo, esperança e costumes. O ser humano não é uma planilha progressista aguardando atualização. É uma criatura contraditória, enraizada, simbólica, muitas vezes cautelosa diante de mudanças bruscas.

Alexis de Tocqueville já advertia, em A Democracia na América, sobre os riscos da tirania da maioria e da pressão social esmagando a liberdade de pensamento. Sua preocupação não era apenas com ditaduras clássicas, mas com sociedades democráticas capazes de sufocar o indivíduo em nome da vontade coletiva, do consenso moral ou da opinião dominante. Esse alerta serve tanto para a direita moralista quanto para a esquerda patrulheira.

A ciência política ensina que a democracia depende da capacidade de mediar conflitos, não de abolir diferenças. E a esquerda, quando escorrega para o moralismo revolucionário, perde justamente essa capacidade. Passa a tratar parte da sociedade como atrasada, ignorante ou moralmente inferior. Com isso, empurra milhões de pessoas para os braços de uma direita ressentida, que se apresenta como defensora da normalidade contra uma elite cultural arrogante.

Nós contra eles

A ironia é deliciosa, se não fosse trágica: a direita acusa a esquerda de querer controlar a sociedade; a esquerda acusa a direita de querer controlar os costumes. E ambas, quando podem, demonstram certa paixão pelo controle. Uma quer vigiar a alma. A outra quer vigiar a linguagem. Uma ergue o púlpito. A outra monta o tribunal revolucionário. No fundo, as duas desconfiam da liberdade quando ela não serve aos seus próprios valores.

É por isso que o Brasil precisa falar de liberalismo com mais seriedade. Não esse liberalismo de fantasia, misturado a conservadorismo religioso, usado apenas como verniz econômico para agendas moralistas. Também não o liberalismo caricaturado pela esquerda como egoísmo social, adoração ao mercado ou desprezo pelos pobres. Falo de um liberalismo inteligente, maduro, moderno, profundamente democrático.

O liberalismo

O liberalismo verdadeiro começa por uma ideia simples e revolucionária. O indivíduo não pertence ao Estado, à igreja, ao partido, à classe, à militância, à maioria nem ao líder carismático. O indivíduo pertence a si mesmo. Tem dignidade própria. Tem direito de escolher sua vida, sua fé, sua profissão, sua forma de amar, sua maneira de pensar, seu projeto de felicidade, desde que não viole o direito do outro.

Milton Friedman, em Capitalismo e Liberdade, lembrava que a liberdade econômica é condição necessária, embora não suficiente, para a liberdade política. A advertência é precisa, mercado não resolve tudo, mas sem liberdade econômica a política tende a virar dependência, tutela e submissão ao Estado. Quem controla o emprego, o crédito, o subsídio, a licença, o imposto, a regulação e o favor controla também boa parte da cidadania.

Esse liberalismo não é ausência de valores. Ao contrário, é um sistema exigente de valores. Valoriza a liberdade, mas também a responsabilidade. Defende o mercado, mas não idolatra monopólios. Limita o Estado, mas não nega a necessidade de instituições fortes. Protege a propriedade, mas compreende que pobreza extrema destrói a autonomia real das pessoas. Defende a diversidade, mas sem transformar identidades em novas prisões coletivas.

Friedrich Hayek, em O Caminho da Servidão, alertava que o planejamento centralizado em larga escala abre caminho para coerção, porque concentrar decisões econômicas e sociais em poucos centros de poder exige impor escolhas a milhões de indivíduos diferentes. A lição não é que todo Estado seja tirânico, mas que todo projeto que pretende organizar a sociedade de cima para baixo flerta com o autoritarismo.

O liberalismo inteligente sabe que o mercado é uma ferramenta poderosa de inovação, prosperidade e mobilidade social. Mas sabe também que mercado sem concorrência vira cartel, capitalismo sem regra vira privilégio, e Estado capturado por grupos econômicos vira balcão de negócios. Liberalismo não é licença para esperteza. É a defesa de regras gerais, impessoais, transparentes, aplicadas a todos.

Também sabe que liberdade de expressão não existe apenas para proteger frases simpáticas. Existe para proteger o incômodo, o erro, o exagero, a crítica dura, a divergência. Uma democracia em que só se pode dizer o que agrada ao consenso dominante não é democracia madura; é condomínio ideológico com síndico autoritário.

Ao mesmo tempo, o liberalismo puro não precisa ser grosseiro, insensível ou socialmente cego. Ele pode e deve defender educação pública de qualidade, combate à pobreza, segurança jurídica, igualdade perante a lei, políticas sociais bem desenhadas, abertura econômica, proteção institucional, liberdade de imprensa e limites claros ao poder. O liberalismo não é contra o social. É contra o uso do social como desculpa para eternizar dependência, aparelhamento e clientelismo.

Os caminhos para o Brasil

O Brasil precisa de uma força política que diga à direita: liberdade econômica sem liberdade civil é meia liberdade. E meia liberdade é só uma coleira mais comprida.

E precisa dizer à esquerda: justiça social sem liberdade individual vira tutela. E tutela, mesmo quando sorri, continua sendo tutela.

A direita precisa sair do confessionário. A esquerda precisa sair da assembleia revolucionária. O país precisa entrar no século XXI.

Isso não significa negar a importância da tradição, da fé, da família, da solidariedade, da cultura popular ou das lutas sociais. Significa apenas colocar cada coisa em seu devido lugar. Religião é essencial para quem crê, mas não pode mandar no Estado. Justiça social é essencial para uma sociedade decente, mas não pode justificar o autoritarismo. Mercado é essencial para gerar riqueza, mas não pode capturar a República. Estado é necessário, mas não pode sufocar a sociedade.

O liberalismo inteligente é, talvez, a única alternativa capaz de romper essa falsa escolha entre a direita puritana e a esquerda bolchevique. Ele oferece uma visão de país menos histérica, menos tribal, menos presa a fantasmas. Uma visão em que a política não seja cruzada religiosa nem marcha revolucionária, mas construção institucional paciente, racional e aberta.

O Brasil não precisa escolher entre o sermão e o panfleto. Precisa escolher a liberdade.

Não a liberdade de ocasião, usada como palavra bonita em discurso de campanha. Mas a liberdade completa: econômica, política, moral, intelectual, religiosa, cultural e individual. A liberdade como método, como valor e como horizonte.

Porque, no fim das contas, sociedades livres erram, discutem, corrigem rumos, incomodam, desafiam e avançam. Sociedades tuteladas apenas obedecem. E o Brasil já obedeceu demais, a coronéis, burocratas, salvadores da pátria, partidos messiânicos, moralistas de plantão e iluminados de gabinete.

Chegou a hora de desconfiar de todos eles.

O futuro brasileiro não nascerá da direita ajoelhada diante do puritanismo, nem da esquerda marchando com nostalgia de revolução perdida. Nascerá quando a liberdade deixar de ser slogan e virar projeto. Quando o indivíduo voltar ao centro. Quando o Estado garantir direitos, mas não esmagá-los. Quando a política entender que não existe transformação verdadeira sem liberdade.

Esse é o liberalismo que o Brasil ainda não teve coragem de levar a sério. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão necessário.

Compartilhar matéria

Gostou desta notícia?

→ Comece seus dias sempre atualizado com o que rola de relevante nos negócios, economia e tecnologia em Minas Gerais, no Brasil e no Mundo.

98 News

Siga no

Paulo Leite

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

A história do jogo de Campeonato Mineiro que Ronaldo Fenômeno nunca esqueceu

Cinco ‘podrões’ imperdíveis na Grande BH

Mais de Entretenimento

Mais de 98 News

Flávio Roscoe entra no jogo e muda o tamanho da disputa em Minas

Recuperação extrajudicial e o aumento de sua utilização no atual cenário econômico

Missão à China pode gerar US$ 110 milhões ao café

Uso do FGTS para dívidas gera críticas de economistas

Bicicletas antigas mantêm viva a história de BH

Bob Dylan completa 85 anos e ganha série no YouTube

Últimas notícias

Flávio Bolsonaro reage à decisão de Moraes sobre Lei da Dosimetria: ‘Democracia fica abalada’

Acidente entre ônibus e caminhão deixa feridos e causa congestionamento na BR-040, em Sete Lagoas

Sada Cruzeiro e Vôlei Renata decidem a Superliga neste domingo

Moraes suspende aplicação da Lei da Dosimetria até decisão final do STF

O que é o hantavírus? Entenda doença que provocou alerta internacional em cruzeiro

Greve na Educação: entenda o que servidores de BH cobram da Prefeitura

Ativista brasileiro Thiago Ávila será libertado por Israel neste sábado

OMS confirma seis casos de hantavírus ligados a navio de cruzeiro na Espanha

Metrô BH terá alteração na operação entre os dias 11 e 15 de maio

  • Notícias
  • Auto
  • BH e Região
  • Brasil
  • Carreira
  • Meio Ambiente
  • Mercado
  • Minas Gerais
  • Mundo
  • Política
  • Tecnologia
  • Esportes
  • América
  • Atlético
  • Cruzeiro
  • Futebol em Minas
  • Futebol no Brasil
  • Futebol no Mundo
  • Mais Esportes
  • Seleção Brasileira
  • Entretenimento
  • Agenda
  • Cinema, TV e Séries
  • Famosos
  • Nas Redes
  • Humor
  • Música
  • Programas 98
  • Rock Insônia
  • No Fundo do Baú
  • Central 98
  • 98 Esportes
  • Buenos Días
  • 98 Futebol Clube
  • Ricardo Amado
  • Catimba 98
  • Graffite
  • Barba, Cabelo e Bigode
  • Preleção
  • Jornada Esportiva
  • Giro na Gringa
  • Os Players
  • Matula
  • Buteco
  • Cadeira Cativa
  • Tudo Menos Futebol
  • Redes Sociais 98
  • @rede98oficial
  • @rede98oficial
  • /rede98oficial
  • @98live
  • @98liveesportes
  • @98liveshow
  • @rede98oficial
  • Redes Sociais 98 News
  • @98newsoficial
  • @98newsoficial
  • /98newsoficial
  • @98newsoficial
  • /98-news-oficial

Baixe Nosso Aplicativo

Siga a Rede 98 no

  • Ao Vivo na 98
  • Contato
  • Anuncie na 98
  • Termos de Uso e Política de Privacidade

Rede 98 © 2021-2025 • Todos os direitos reservados

Avenida Nossa Senhora do Carmo, 99, Sion - 30.330-000 - Belo Horizonte/MG

  • Ao vivo
  • Plateia 98
  • Assine a Update
  • Notícias
  • BH e região
  • Brasil
  • Economia
  • Imersão Indústria
  • Custo Brasil
  • Meio Ambiente
  • Mercado Automotivo
  • Mundo
  • Política
  • Saúde
  • Tecnologia
  • Esportes
  • América
  • Atlético
  • Cruzeiro
  • Futebol no Mundo
  • Mais Esportes
  • Olimpíadas
  • Seleção Brasileira
  • Entretenimento
  • Agenda
  • Famosos
  • Gastronomia
  • Humor
  • Música
  • Redes