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Quando Ouro Preto vira palanque

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Entrega da medalha da Inconfidência (Cristiano Machado/Imprensa MG)

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O Governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), errou no tom, e o Prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo (PV), errou no roteiro com mais cálculo do que indignação. Essa é a fotografia da solenidade da Medalha da Inconfidência entregue ontem, 21 de Abril, em Ouro Preto, no contexto da transferência simbólica da capital para a cidade histórica. 

A cerimônia é por definição, um rito de memória, de liturgia republicana e de respeito institucional. Foi justamente por isso que o bate-boca entre os dois soou tão inadequado,  porque ali não era lugar de transformar a história em trincheira de ocasião.

A desnecessária reação de Mateus

Comecemos pelo erro de Mateus Simões, porque ele foi visível e desnecessário. O governador reagiu mal ao discurso do prefeito, elevou o tom diante de uma plateia que lhe era amplamente simpática e trocou a autoridade serena pela aspereza. Quando responde em público, em cerimônia oficial, que “cortesia é o mínimo que se espera” e emenda uma defesa inflamável do militarismo e das instituições fardadas, ele deixa de ocupar o lugar de chefe de governo e passa a atuar como polemista de palanque. Quem governa precisa saber a diferença entre firmeza e irritação. E, naquele momento, Mateus não soube.

O oportunismo de Ângelo Oswaldo

Parar por aí seria uma análise preguiçosa, e até injusta com os fatos. Angelo Oswaldo não foi vítima de uma intempestividade caída do céu. O prefeito escolheu, deliberadamente, introduzir num evento com outro propósito um tema explosivo e inteiramente vinculado à agenda política do momento: o projeto das escolas cívico-militares, enviado por Mateus Simões à Assembleia na semana anterior. 

Não era uma fala protocolar sobre o sentido histórico do 21 de Abril. Não era uma reflexão institucional sobre liberdade, República ou mineiridade. Era uma intervenção política calculada, com alvo definido, tema quente e forte potencial de repercussão. Angelo puxou a brasa para a fogueira que lhe interessava.

E o mais revelador é que isso não parece acidente; parece método. No ano passado, na mesma cerimônia, Angelo Oswaldo já havia aproveitado o palco para alfinetar Romeu Zema, falando no declínio do “mineirismo” e criticando o acordo de Mariana. Zema, naquela ocasião, preferiu não responder. Agora, em 2026, o prefeito voltou a enxertar no evento um tema lateral à solenidade e novamente empurrou a cerimônia para dentro da arena política. A reincidência desmonta qualquer tese de espontaneidade inocente. Angelo é político velho, experiente, culto, articulado. Sabe exatamente o peso de cada palavra dita em Ouro Preto no 21 de Abril. E justamente por saber, escolheu provocar.

A matreira arte da politicagem

É aí que o oportunismo do prefeito precisa ser dito em voz alta, sem rodeios nem romantizações. Angelo Oswaldo pode até ter embalagem de homem de letras, de guardião da memória e da tradição histórica, mas continua sendo um operador político tarimbado. Não é um recém-chegado que tropeçou no improviso. 

Foi secretário no governo Fernando Pimentel e segue, há anos, situado no campo político que orbitou o pimentelismo em Minas. Por isso, sua fala não pode ser lida como mero desabafo pedagógico ou reação moral ao debate sobre escolas cívico-militares. Ela se encaixa muito mais como gesto de marcação política, desses que tentam fabricar contraste, produzir manchete e emprestar densidade ideológica a um campo que ainda busca se reorganizar eleitoralmente.

O pano de fundo é esse: a eleição mineira já contamina cada movimento, cada gesto e cada microfone. A pouco mais de seis meses da disputa, o PT mineiro ainda enfrenta dificuldade para estruturar um palanque próprio e trabalha com alianças e composições, apostando em nomes como Rodrigo Pacheco e mantendo diálogo com Alexandre Kalil. Ao mesmo tempo, esse mesmo PT e o grupo órfão de Fernando Pimentel, que tenta voltar a ser  influente na conversa política mineira, via Angelo Oswaldo, quer mandar recado. Por isso, e a meu ver, o discurso do prefeito de Ouro Preto cheira menos a indignação cívica e mais a posicionamento de bloco.

E o que sobrou de tudo isso?

Mateus Simões perdeu a compostura, mas Ângelo Oswaldo montou a cena. Um falhou na forma; o outro foi esperto demais no conteúdo. Um mordeu a isca de maneira ríspida; o outro lançou a isca no exato ponto em que sabia que haveria reação. O resultado foi melancólico. Ouro Preto, que deveria ser o cenário da memória mineira, foi transformada em palco de guerrilha verbal. A liturgia pública foi rebaixada ao nível do marketing político. E isso diz muito sobre o nosso tempo. Falta grandeza até quando sobra simbolismo.

No fim da conta, a cena deixa dois recados duros. O primeiro é para Mateus Simões: governar exige couro grosso, nervo frio e menos suscetibilidade performática. Quem quer liderar Minas não pode se comportar como debatedor de auditório quando é contrariado.

O segundo é para Ângelo Oswaldo: há uma diferença entre inteligência política e oportunismo cenográfico. E, desta vez, ele atravessou a fronteira. Ouro Preto merecia mais. Minas também.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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