A réplica do amigo Antônio Claret Júnior ao meu artigo parte de uma boa intenção, salvar Tiradentes do que considera uma redução excessiva. Mas, convenhamos, há aí um pequeno excesso de zelo cívico, quase aquele impulso brasileiro de pôr auréola em qualquer figura histórica que tenha morrido de forma dramática. No Brasil, basta morrer de maneira exemplar e pronto. Em cinco minutos o sujeito ganha feriado, nome de praça e vaga eterna na catequese patriótica.
Vamos com calma, sem arrancar a barba do mártir nem polir demais a estátua.
Em nenhum momento tratei Tiradentes como figura menor. Ao contrário. O artigo reconhece sua coragem, sua disposição de se expor, sua militância ativa e seu papel decisivo na difusão da conspiração. O ponto é outro, e continua de pé. Uma coisa é ser personagem histórico relevante; outra, bem diferente, é virar santo laico por decreto retroativo.
A réplica parece confundir duas discussões. A primeira é sobre o homem real. A segunda é sobre o mito fabricado depois. Meu texto não apaga a primeira; apenas se recusa a engolir a segunda sem mastigar.
Dizer que Tiradentes foi “operador de uma ideia” não é diminuí-lo. Pelo contrário: é devolvê-lo à política, que é onde ele de fato estava. Operador, aqui, não é marionete, nem papagaio de tese alheia. É alguém que faz a ideia circular, que articula, que convence, que se expõe, que se compromete. Em português claro, é alguém que age. Curioso como, numa época obcecada por “articulação política”, chamar um conspirador de operador parece ter virado ofensa. Não é. É definição.
Aliás, a própria réplica reforça isso sem perceber. Quando diz que Tiradentes foi quem mais falou, mais circulou e mais levou o assunto para fora dos grupos fechados, ela apenas troca o rótulo, e confirma o conteúdo. Isso se chama atuação política. Ou, para horror dos puristas do altar cívico, operação de uma ideia.
O fato de ele ter sido o único a pagar com a vida também merece menos romantismo e mais contexto. Em regimes absolutistas, a punição não é só Justiça, é teatro de poder. A forca não mede pureza moral, mede utilidade exemplar. Tiradentes virou o corpo pedagógico da Coroa. Foi o recado pendurado. Isso faz dele corajoso? Sem dúvida. Faz dele automaticamente o maior herói nacional em sentido pleno? Aí já é outro salto, e salto histórico sem vara costuma acabar em tombo.
A réplica também sugere que ninguém vira símbolo nacional se for irrelevante. Perfeito. Mas isso nunca esteve em debate. Ninguém disse que Tiradentes era irrelevante. O que está em discussão é outra coisa. Entre ser relevante e ser remodelado como Cristo cívico da República existe uma bela distância, e foi justamente nessa distância que a iconografia oficial fez sua festa.
A República precisava de um rosto. Achou um enforcado. Convenhamos: do ponto de vista simbólico, era um achado de marketing político quase irresistível. Anti-Coroa, morto pelo poder, dramaticamente executado, passível de santificação visual e moral. Tiradentes servia como uma luva. Ou melhor, como uma túnica.
E aqui mora o centro do problema. A réplica parece tratar qualquer revisão crítica como tentativa de rebaixamento. Não é. Revisar não é demolir; é retirar o verniz. A história séria não humilha seus personagens, apenas os livra do excesso de maquiagem. Tiradentes não fica menor quando se diz que a Inconfidência era elitista, que não enfrentava o coração escravista da sociedade e que sua imagem foi inflada depois. Fica, isto sim, mais verdadeiro.
E a verdade histórica, embora menos decorativa, costuma ser bem mais interessante do que o folheto cívico.
Tiradentes foi importante? Sim. Foi corajoso? Sem dúvida. Foi central na difusão da conspiração? Também. Mas nada disso obriga o país a continuar repetindo a velha lenda escolar como se fosse dogma revelado em Ouro Preto. Herói de pedra é útil para desfile. Personagem histórico de carne e contradição é útil para pensar.
Entre a estátua e o homem, eu ainda prefiro o homem.
Porque a estátua não pensa. E, quase sempre, foi erguida para que ninguém mais pense por conta própria.
