O glifosato é um herbicida de amplo espectro amplamente utilizado na agricultura para o controle de plantas daninhas. Desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto ele se tornou um dos defensivos agrícolas mais usados no mundo devido à sua eficiência, baixo custo e compatibilidade com culturas geneticamente modificadas resistentes ao produto.“Sem o glifosato, a agricultura moderna mudaria drasticamente.” (John E. Franz, químico descobridor do glifosato)
Na agricultura, o glifosato é utilizado principalmente em lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Seu uso facilita o manejo das plantações, reduz a necessidade de capina manual e pode contribuir para práticas de plantio direto, que ajudam na conservação do solo. Apesar dessas vantagens, o uso excessivo do herbicida tem provocado o surgimento de plantas daninhas resistentes, exigindo doses maiores ou a combinação com outros produtos químicos.
Os efeitos ambientais do glifosato também são motivo de preocupação. Estudos apontam que o produto pode afetar organismos aquáticos, alterar a microbiota do solo e causar impactos indiretos sobre a biodiversidade. Além disso, resíduos do herbicida podem ser encontrados em alimentos, água e no ambiente, embora geralmente em concentrações consideradas dentro dos limites regulatórios.
Em relação à saúde humana, existe controvérsia científica sobre o potencial cancerígeno do glifosato. Em 2015, a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Por outro lado, órgãos reguladores de diversos países, como a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, afirmam que, quando utilizado corretamente, o produto não apresenta risco significativo de câncer.
Diante dessas discussões, muitos países adotaram medidas de controle mais rigorosas sobre o uso do glifosato, incluindo restrições, monitoramento e incentivo a práticas agrícolas mais sustentáveis. Assim, o tema continua sendo alvo de debates entre cientistas, agricultores, ambientalistas, governos e a sociedade em geral.
A Ação Civil Pública Cível nº 0000883-90.2026.5.10.0014, ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho em face da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e da União Federal, busca a suspensão imediata do uso, da comercialização e do registro de produtos formulados à base de glifosato em território nacional. A ação fundamenta-se na alegação de que o herbicida representa ameaça significativa à saúde humana, ao meio ambiente e, de forma especial, à saúde dos trabalhadores expostos direta ou indiretamente ao produto.
Esta ação passou a receber críticas de representantes do setor agropecuário, especialistas em regulação sanitária, entidades técnicas e setores da comunidade científica. Os questionamentos concentram-se principalmente na alegada fragilidade jurídica e científica dos fundamentos utilizados para sustentar o pedido de banimento do herbicida.
Uma das principais críticas dirige-se à interpretação das evidências científicas relacionadas aos riscos do glifosato. Os opositores da ação sustentam que o Ministério Público teria adotado entendimento seletivo de estudos científicos, priorizando pesquisas que indicam potencial carcinogenicidade, sem considerar de maneira equilibrada avaliações conduzidas por agências reguladoras internacionais que concluíram pela segurança do produto quando utilizado conforme as normas técnicas e os limites autorizados. Nesse contexto, costuma-se mencionar que órgãos regulatórios de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e integrantes da União Europeia mantiveram o registro do glifosato após revisões toxicológicas extensas.
Também há críticas quanto aos possíveis impactos econômicos decorrentes de eventual proibição do glifosato. Representantes do agronegócio afirmam que o herbicida é uma das principais ferramentas de manejo agrícola no país, sendo amplamente utilizado em culturas de grande relevância econômica, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. De acordo com essas entidades, a retirada abrupta do produto poderia elevar custos de produção, reduzir produtividade, comprometer sistemas de plantio direto e aumentar a utilização de outros herbicidas potencialmente mais tóxicos ou ambientalmente menos eficientes.
Representantes do setor produtivo argumentam que a ação desconsidera o papel estratégico do glifosato na agricultura brasileira e na segurança alimentar. O herbicida contribui para o controle eficiente de plantas invasoras, redução da erosão do solo e manutenção de sistemas agrícolas em larga escala. A substituição imediata do produto, afirmam, poderia gerar insegurança produtiva e impactos relevantes sobre o abastecimento e os preços dos alimentos.
O uso do Glifosato exige cuidados rigorosos em todas as etapas, desde o armazenamento até o descarte das embalagens. Falhas nesses procedimentos podem causar riscos à saúde humana, contaminação ambiental, perda de eficiência do produto e prejuízos econômicos ao produtor rural. Por isso, o manejo correto é considerado essencial para garantir segurança e sustentabilidade no uso do herbicida.
Para usar glifosato e a maioria dos agrotóxicos você precisa de receituário agronômico,determinação da Lei 14.785/2023 que estabelece todos os procedimentos corretos de compra, armazenamento e uso deste agroquímico.
Somente profissionais habilitados podem emitir o receituário e são eles, o engenheiro agrônomo ou florestal, ou técnico agrícola com registro no CREA. Eles assinam o documento e se responsabilizam tecnicamente.
A persistência do glifosato no solo varia muito conforme o ambiente. Em média, ele demora cerca de 60 dias para degradar. Em condições normais de solo quente, úmido e com bastante atividade microbiana, a meia-vida pode ser de menos de uma semana até alguns meses.
A capacitação dos trabalhadores rurais também é um fator essencial para evitar falhas no uso do glifosato. A falta de treinamento técnico contribui para erros de aplicação, intoxicações e acidentes ambientais. Dessa forma, programas de educação, assistência técnica e fiscalização desempenham papel importante na promoção do uso seguro e responsável do herbicida.
A toxicidade aguda é medida pela DL50 oral em ratos, que indica a dose necessária para matar 50% dos animais testados. Quanto maior esse valor, menos tóxico é o produto.
O glifosato tem DL50 acima de 5.000 mg/kg, o que o coloca na Classe III, considerado “moderadamente tóxico”.
Comparando com coisas do dia a dia, ele é 6 vezes mais seguro que açúcar de mesa, que tem DL50 de 29.700 mg/kg, e 1,4 vez menos tóxico que etanol, com DL50 de 7.060 mg/kg. O sal de cozinha é 1,7 vez mais tóxico, com DL50 de 3.000 mg/kg. O paracetamol é 2,6 vezes mais tóxico, com DL50 de 1.944 mg/kg.
O glifosato tornou-se, portanto, um dos principais símbolos desse conflito entre produtividade agrícola, avanço científico, sustentabilidade ambiental e governança regulatória.
O artigo completo, escrito em parceria com Décio Michellis, pode ser lido CLICANDO AQUI.
