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Em um janeiro com cara de outubro, Minas joga em dois tabuleiros

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(Foto: Divulgação / Saulo Cruz / Agência Senado)

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Enquanto a geopolítica faz barulho de metal; a política brasileira faz barulho de bastidor. E Minas Gerais, como sempre, não fica na arquibancada comendo amendoim: entra em campo, apita, negocia a tabela e ainda pergunta se o jogo vai ter prorrogação.

Nos últimos movimentos noticiados nos bastidores de Brasília, ganhou força a conversa de Romeu Zema como possível vice numa chapa liderada por Flávio Bolsonaro, em um desenho que pode ter a mão ágil de Gilberto Kassab. Não é anúncio oficial, não é chapa registrada, não é foto de convenção, é política em estado puro. Aquela conversa de “vamos ver” que pode se transformar em “vamos fazer”, caso os números e o vento ajudem.

Kassab, nesse roteiro, aparece como o personagem que não consulta o tempo. Ele já chega com guarda-chuva, capa e um plano B dobrado no bolso. O pragmatismo dele não é virtude nem defeito; é método. É o tipo de operador que percebe a mudança de maré antes da espuma aparecer. E, se essa conversa avança, ela mexe com o tabuleiro da direita e do centrão porque desloca pesos internos: Tarcísio pode perder espaço relativo conforme Flávio cresce “na conversa”. E aqui cabe um aviso em letras grandes: crescer na conversa não é vencer eleição. Política tem muito balão de ensaio e pouca aeronave homologada.

Zema, por sua vez, olha para Brasília como quem olha o horizonte: não é só ambição pessoal, é o cálculo de sobrevivência e protagonismo. 

Em Minas o jogo político esquenta

Enquanto a capital federal flerta com cenários, Minas testa costuras. O começo do ano aponta, para uma tentativa de unificar a centro-direita em torno de Mateus Simões, com aproximação ao PL, que poderia levar uma vaga ao senado, e a acomodação de partidos que adoram a palavra “aliança” desde que ela venha acompanhada de “vaga”, “tempo de TV” e “estrutura”.

E aí entra o detalhe que, no varejo do poder, vale mais do que discurso: houve encontro e sinalização de conversa entre Simões e Cleitinho. Isso alimenta aquele roteiro clássico de bastidor: reduzir pulverização, evitar a feira livre de candidaturas e tentar montar um palanque mais “redondo”. Porque Minas, quando fragmentada demais, produz aquela cena conhecida: muita gente falando “em nome do povo” e pouca gente chegando de fato ao segundo turno com fôlego.

Mas unificar não é somar por adição simples. É cirurgia. Cleitinho tem perfil próprio, linguagem própria, um eleitorado que gosta do anti-sistema. Para Simões, o desafio é construir amplitude sem perder identidade. Para Cleitinho, é entrar numa engenharia de coalizão sem virar figurante. E para o eleitor, a prova é simples: a tal unidade entrega projeto ou só entrega arranjo?

Do outro lado do ringue, ou do tabuleiro surge Alexandre Kalil, que se apresenta como um nome naturalmente “vocacionado” para a polarização. Ele sabe transformar disputa em narrativa de confronto: “nós contra eles”, “eu contra o sistema”, “eu contra Brasília”, “eu contra todo mundo”. Goste-se ou não, isso costuma dar tração. Polarização, no Brasil, virou combustível: não é a melhor gasolina, mas é a que mais vende no posto de combustíveis das eleições.

Kalil tem um talento raro: ele entende que política, hoje, é tanto gestão quanto enredo. E em enredo, antagonista é peça central. Se a direita mineira se organiza com Simões e flerta com uma moldura nacional via Zema, Kalil pode tentar ocupar o papel do contraponto emocional, aquele que não promete planilha, promete briga. E briga, no Brasil, costuma viralizar melhor do que planilha.

Janeiro com cara de outubro

O cenário abre o ano assim: Zema olhando Brasília, Simões tentando organizar a direita mineira, e Kalil aquecendo o motor como antagonista. Janeiro já chega com cara de outubro porque a política brasileira perdeu o pudor do calendário: a campanha virou estado permanente, e governar virou intervalo comercial.

Minas, como sempre, joga em mais de um tabuleiro. O risco é conhecido: quando todo mundo só pensa na próxima eleição, a administração do presente vira figurante. Mas há uma verdade teimosa, e mineira: bastidor pode até decidir a largada, mas a rua decide a chegada. E, entre a conversa que cresce e a urna que fala, existe um caminho longo, caro e cheio de tropeços. Em política, o amanhã é uma promessa; o problema é que a conta chega hoje.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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