27 de outubro de 2026 – um senador e derrotado nas urnas ao cargo para a presidência pega o avião e, contrariando todas as expectativas do oponente, se refugia fora do Brasil.
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil com a família rumo aos Estados Unidos, segundo informações divulgadas nesta terça-feira, por ente familiar. A saída ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega de seus passaportes e proibiu o senador de deixar o país. A Polícia Federal passou a investigar possível fuga.
Diante do receio de uma prisão que considera injusta, muita gente talvez fizesse a mesma coisa. Isso não significa afirmar que o senador seja inocente ou que esteja acima da lei. Significa reconhecer que o medo das consequências de uma decisão judicialaparentemente desarrazoada pode levar qualquer pessoa a buscar proteção, especialmente quando acredita não encontrar garantias suficientes dentro do próprio país.
Quem viveu na década de 60, diz que aconteceu algo parecido.
Não vivi naquela época e tenho saudades de quando o meu medo era ser “somente” o de ser furtada no ponto de ônibus, ou de ser estuprada ao caminhar a noite pelas ruas da cidade. Sim, esses medos persistem.
Mas, outros passaram a gerar uma preocupação maior – a velha máxima de: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei.” Mas que lei?
Há algum tempo estamos percebendo que a última instância do judiciário passou a fazer “leis” a mando do executivo federal. Por vezes tive a sensação de que o responsável por guardar a nossa Constituição é o primeiro a despedaça-la. Chega a dar medo. E só estou escrevendo isso aqui agora, porque AINDA não foi colocada em prática a regulação da liberdade de expressão travestida por regulação das redes.
O Brasil não precisa de um decreto que anuncie uma ditadura para que se discuta o enfraquecimento dos limites entre os Poderes. Quando o Legislativo parece incapaz de exercer plenamente sua função fiscalizadora, o Executivo avança sobre atribuições que deveriam ser debatidas no Parlamento e decisões judiciais passam a ser percebidas como alinhadas aos interesses de quem governa, a democracia perde algo essencial: a confiança pública.
Essa é a percepção de muitos brasileiros. E percepção não é prova de que todas as instituições atuem em conjunto, assim como uma decisão judicial controversa não comprova, isoladamente, a existência de uma ditadura. Ocorre que tem sido decisões reiteradas. Mas ignorar a crise de confiança tampouco resolve o problema.
No domingo, durante a apuração do resultado do 2º turno, recebemos a notícia de ampliação do horário de votação: parece golpe, tem forma de golpe, tem cheiro de golpe. Mas, como jornalista e advogada, sei que suspeita não é prova. Não posso afirmar fraude sem elementos que a demonstrem.
Isso não me obriga, entretanto, a abandonar perguntas. Democracia também é fiscalização, transparência e liberdade para questionar os procedimentos sem ser automaticamente tratado como inimigo das instituições.
Já votei em Lula, acreditando na distribuição de renda e no combate à pobreza. A experiência do primeiro mandato me fez perder a confiança no projeto petista. Em 2022, votei em Jair Bolsonaro. Reconheço seus defeitos, especialmente a impulsividade. Mas não considero que todos os projetos políticos sejam equivalentes. Na minha avaliação, Lula representa uma escolha pior para o país, sobretudo diante das preocupações com a segurança jurídica e a relação entre os Poderes.
Como repórter de polícia, meu estômago embrulhou ao assistir a comemoração da vitória de Lula dentro dos presídios. Isso diz muito. Não tenho político de estimação. Mas tenho uma política de rejeição: rejeito corrupção, rejeito descondenação, rejeito estado máximo, rejeito altíssimas cargas tributárias, rejeito o SUS sucateado, rejeito a compra de votos, rejeito o uso da máquina pública para reeleição, rejeito o termo mulheres que gestam, rejeito a política da dependência eterna, rejeito a falta de transparência nos cartões corporativos, rejeito a ideia de acabar com a polícia, rejeito a ideia de acabar com o país, rejeito a ideologia nos livros de história e geografia. Rejeito.
Gosto da ideia de que para lutar pelos direitos dos pobres, não é necessário demonizar os ricos. Para lutar pelos direitos dos trabalhadores, não precisamos odiar os patrões, para defender os direitos das mulheres, não precisamos “monstrificar” os homens. A política de enfraquecimento masculino tem destruído as famílias. E fam´ílias destruídas geram pessoas fracas, fáceis de serem manipuladas. E isso é interessante para quem?
Repito: não tenho político de estimação. Mas tenho pavor do que está no poder há 20 anos.
Nós não podemos querer um Brasil condenado a escolher, eternamente, entre os mesmos grupos. A direita precisa apresentar, em 2030, um nome capaz de construir uma alternativa consistente. O país precisa discutir o fim da reeleição, critérios mais transparentes para a escolha dos ministros do STF e mecanismos que fortaleçam a imparcialidade eleitoral.
Naquela noite, porém, a política deixou de ser apenas uma discussão sobre candidatos. Meus filhos estavam ali. E a pergunta que permaneceu foi como explicar a eles que devem confiar na Justiça, respeitar as instituições e acreditar no futuro quando tantos adultos já não conseguem fazer isso sem ressalvas.
Não quero ensiná-los a desconfiar de tudo, muito menos a aceitar tudo calados. Quero que aprendam a questionar com responsabilidade e a defender a liberdade, inclusive a de quem pensa diferente.
A reunião familiar deveria ter terminado com a apuração dos votos. Mas terminou com uma preocupação maior: que país estamos construindo para nossos filhos?
O perigo não começa quando alguém sente medo. Começa quando sentir medo se torna normal. E sigamos o que Jesus Cristo quer de nós:
“Apocalipse 3:15-16 “15 Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; oxalá foras frio ou quente! 16 Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca.”
Sejamos quentes ou frios, mas jamais mornos.
