Há uma diferença enorme entre paixão e submissão. Paixão pode ser bonita, pode ser humana, pode ser até necessária. Submissão, não. Paixão move, aquece, dá cor à vida. Submissão cega, empobrece, transforma o cidadão em peça de manobra.
E talvez uma das grandes confusões do Brasil contemporâneo seja justamente esta. Muita gente passou a tratar a política como se fosse futebol. Com a mesma camisa, o mesmo grito, a mesma raiva do adversário e a mesma disposição para justificar qualquer erro do próprio time.
Política não é arquibancada. Político não é clube de futebol
No futebol, a paixão pode ser irracional. Aliás, quase sempre é. O torcedor do Cruzeiro ama o Cruzeiro. O torcedor do Atlético ama o Atlético. E está tudo certo. A rivalidade faz parte da cultura, da memória afetiva, da infância, dos almoços de domingo, das provocações no grupo de família, das resenhas no bar e das discussões intermináveis sobre arbitragem, escalação e centroavante cabeça de bagre.
O futebol permite esse exagero porque ele vive do exagero. O sujeito promete nunca mais assistir ao time depois de uma derrota humilhante e, três dias depois, está de novo diante da televisão, sofrendo como se fosse a primeira vez. Ele xinga o técnico, culpa o juiz, amaldiçoa o VAR, reclama do lateral, pede a saída do presidente e, no jogo seguinte, veste a camisa outra vez.
A paixão é parte do espetáculo
Mas, objetivamente, se o seu time ganha ou perde, a sua vida concreta não muda tanto assim. Você pode ficar feliz ou irritado. Pode dormir melhor ou pior. Pode tirar onda com o vizinho ou aguentar gozação na padaria. Mas a vitória do seu time não coloca mais comida na mesa. A derrota não reduz o seu salário. O gol perdido aos 48 minutos do segundo tempo não aumenta o preço do arroz, não piora a escola do seu filho, não tira remédio do posto de saúde, não muda a taxa de juros, não mexe no imposto, não define a segurança da sua rua.
No futebol, a paixão do torcedor é emoção, identidade, pertencimento. É consumo simbólico. É afeto.
No Cruzeiro, Pedro Lourenço não vive essa relação apenas como torcedor. No Atlético, Rubens Menin também não. Eles são donos do negócio. São proprietários de estruturas empresariais bilionárias, com contratos, dívidas, receitas, marcas, riscos, investimentos, ativos e responsabilidades.
Para o torcedor, Cruzeiro e Atlético são camisa, hino, memória e coração. Para os donos, é isso tudo, mas também são empresas. São operações econômicas. São negócios que precisam fechar contas, vender produtos, administrar elenco, negociar direitos, atrair patrocinadores e gerar resultado.
O torcedor é consumidor do produto. O dono é proprietário da operação.
É como uma franquia. A franquia Cruzeiro tem dono. A franquia Atlético tem dono. A emoção é da arquibancada. O balanço é da diretoria. A corneta é do torcedor. A planilha é do empresário.
O erro brasileiro na política
Na política, o cidadão não pode se comportar apenas como torcedor. A política não é um jogo que termina no apito final. Não é uma disputa em que a derrota se resolve com meme e a vitória se comemora com foguetório. A política entra na casa das pessoas. Entra no supermercado, na escola, no hospital, na segurança pública, na empresa, no salário, no emprego, no imposto, na liberdade, na Justiça e na vida cotidiana.
Quando um governo erra na economia, o cidadão paga. Quando o Estado gasta mal, o cidadão paga. Quando uma política pública fracassa, o cidadão sente. Quando o Congresso aprova uma lei ruim, o cidadão sofre. Quando o Judiciário extrapola seus limites, a institucionalidade adoece. Quando a prefeitura não cuida da cidade, a calçada vira obstáculo, a rua vira risco, a chuva vira tragédia anunciada.
Por isso, na política, paixão demais é perigosa. Na política, ser passional pode virar renúncia ao pensamento crítico.
O cidadão não pode defender um político quando ele erra apenas porque ele é “do meu lado”. O cidadão não pode fingir que não viu. Não pode trocar a própria consciência por uma carteirinha invisível de militância.
Defenda ideias, não pessoas
Defender ideias é muito diferente de defender líderes. Ideias podem ser analisadas, comparadas, testadas, corrigidas e até abandonadas quando se mostram ruins. Pessoas, quando viram ídolos, passam a exigir fidelidade. A ideia aceita debate. O ídolo exige devoção. A ideia se fortalece com a crítica. O culto à personalidade se alimenta do silêncio.
O Brasil está preso nessa armadilha há anos. Lula e Bolsonaro, cada um a seu modo, deixaram de ser apenas políticos. Foram transformados por seus seguidores em entidades. De um lado, Lula aparece como símbolo absoluto da justiça social, da inclusão, da resistência democrática e da volta do Estado. De outro, Bolsonaro aparece como símbolo absoluto do antipetismo, do conservadorismo, da liberdade individual, da reação contra o sistema.
Mas nenhum deles é dono dessas ideias.
Lula não é dono da justiça social. Bolsonaro não é dono da liberdade. A esquerda não tem o monopólio da compaixão. A direita não tem monopólio da responsabilidade fiscal. O liberalismo não pertence a um partido. A democracia não cabe no bolso de um líder. A moralidade pública não tem CPF, sobrenome ou número de urna.
O problema começa quando o personagem engole a ideia
E é exatamente isso que a polarização brasileira produziu, uma política de personagens, não de princípios. Uma política de defesa automática, indignação seletiva e desculpa conveniente.
Quando o erro é do adversário, é um escândalo. Quando é do aliado, é o contexto. Quando o outro lado aparelha o Estado, é autoritarismo. Quando o meu lado aparelha, é governabilidade. Quando o adversário gasta demais, é irresponsabilidade fiscal. Quando o aliado faz o mesmo, é investimento social. Quando o outro pressiona instituições, é golpe. Quando o meu lado força a barra, é a defesa da democracia.
Isso não é pensamento político. Isso é torcida. E política tratada como torcida empobrece o país.
O verdadeiro teste de maturidade política não é criticar o adversário. Isso qualquer militante faz. O teste real é criticar o próprio campo quando ele erra. É defender a liberdade de expressão inclusive para quem nos incomoda. É defender o devido processo legal inclusive para quem não gostamos. É cobrar responsabilidade fiscal inclusive de governos simpáticos às nossas preferências. É exigir transparência inclusive quando a opacidade protege alguém próximo do nosso grupo.
Princípio que só vale contra o adversário não é princípio. É arma retórica. Moral que só vale para o outro não é moral. É estratégia. Democracia que só serve quando o resultado agrada não é democracia. É capricho eleitoral com verniz cívico.
O cidadão adulto precisa recuperar o direito à nuance. E nuance, no Brasil de hoje, virou quase palavra subversiva. Parece que quem não grita não tem posição. Quem pondera é acusado de ficar em cima do muro. Quem critica os dois lados é visto como traidor por ambos. Quem tenta pensar antes de berrar é tratado como suspeito.
Mas a nuance não é covardia. A moderação não é omissão. A independência crítica não é ausência de lado. Em tempos de gritaria, pensar com autonomia é quase um ato de coragem.
É perfeitamente possível defender ideias conservadoras sem passar pano para todos os conservadores. É possível defender políticas sociais sem aceitar todos os vícios da esquerda. É possível defender mercado sem fechar os olhos para abusos econômicos. É possível defender o Estado sem transformá-lo em máquina de favores. É possível ser contra Lula sem ser automaticamente bolsonarista. É possível ser contra Bolsonaro sem aceitar tudo que vem do lulismo.
O Brasil é maior do que dois nomes. A sociedade é mais complexa do que duas torcidas. A vida real não cabe nesse Atlético X Cruzeiro, ou Cruzeiro X Atlético permanentes.
E aqui a analogia com Cruzeiro e Atlético volta com força. O torcedor pode até dizer que o clube é dele. E, emocionalmente, é mesmo. Mas juridicamente, financeiramente e empresarialmente, a SAF tem dono. O torcedor consome, acompanha, compra camisa, paga ingresso, assina pacote, sofre, vibra e ajuda a sustentar o espetáculo. Mas ele não manda na empresa. Ele não decide o orçamento. Ele não assina o contrato. Ele não assume o passivo.
Na política, ocorre algo parecido, só que muito mais grave. O eleitor apaixonado muitas vezes trabalha para fortalecer um projeto que não controla. Veste a camisa, briga nas redes, rompe amizades, justifica incoerências, defende absurdos e, no fim, quem se beneficia é a cúpula do poder. O cidadão entra com a fé; o político fica com o cargo. O cidadão entra com a briga; o grupo político fica com a máquina. O cidadão entra com a paixão; os donos da operação ficam com o resultado.
É duro dizer, mas é necessário
Muita militância funciona como arquibancada de negócio alheio. Por isso, o eleitor precisa se perguntar: eu estou defendendo uma ideia ou estou apenas protegendo um personagem? Estou sendo cidadão ou torcedor? Estou cobrando coerência ou apenas escolhendo desculpas melhores para o meu lado?
Essas perguntas são essenciais.
Porque votar é legítimo. Apoiar é legítimo. Admirar lideranças é legítimo. O que não é saudável é entregar a consciência. Nenhum líder merece um cheque em branco. Nenhuma biografia dispensa fiscalização. Nenhum projeto político é tão nobre que autorize a cegueira moral. Nenhuma causa é tão importante que permita abandonar a verdade.
O eleitor maduro apoia, mas cobra. Vota, mas fiscaliza. Admira, mas duvida. Concorda, mas pensa. E muda de opinião quando os fatos exigem.
No estádio, a paixão pode ser livre. Na urna, a cabeça precisa estar fria.
No futebol, o grito da arquibancada faz parte da beleza do jogo. Na política, o grito sem reflexão pode destruir instituições, arruinar contas públicas, eleger aventureiros, proteger corruptos e transformar a democracia numa guerra permanente de torcidas intoxicadas.
O Brasil precisa sair dessa adolescência política. Precisa parar de procurar salvadores e voltar a construir instituições. Precisa discutir educação, segurança, economia, saúde, liberdade, justiça social e desenvolvimento com menos devoção e mais responsabilidade. Precisa entender que líderes passam, governos passam, campanhas passam, slogans passam. Mas as consequências ficam.
Não defenda pessoas. Defenda ideias.
Defenda valores. Defenda princípios. Defenda instituições. Defenda a verdade possível, mesmo quando ela incomodar o seu grupo. Defenda a liberdade quando ela beneficiar quem você não gosta. Defenda a lei quando ela proteger quem você não votaria. Defenda a responsabilidade fiscal mesmo quando o gasto parecer simpático. Defenda a democracia mesmo quando ela produzir resultados que desagradam.
Porque, no fim, a grande pergunta não é quem você defende.
A grande pergunta é o que você defende, e se você continua defendendo isso quando o seu lado é colocado à prova.
No futebol, a derrota pode doer, mas passa. Na política, a idolatria cobra caro, cobra juros e manda a conta para todos nós.
E o Brasil já tem torcedores demais. Está na hora de formar mais cidadãos.
