A Assembleia Legislativa de Minas Gerais debate nesta segunda-feira a expansão dos Colégios Tiradentes pelo interior e pela Região Metropolitana de Belo Horizonte. O tema virou polêmica, como quase tudo que envolve educação, política, polícia, ideologia e eleição no Brasil. Basta juntar essas palavras numa mesma frase e pronto, acende-se a fogueira, aparecem os donos da verdade, e cada lado começa a atirar giz no outro como se estivesse salvando a civilização.
Mas é preciso olhar o assunto com menos gritaria e mais responsabilidade.
Minas tem hoje uma rede de Colégios Tiradentes reconhecida por muitos pais e alunos como referência de disciplina, organização e qualidade. São 30 unidades e cerca de 24 mil estudantes. Agora, novas unidades foram anunciadas, inclusive em Belo Horizonte, Betim, Lagoa Santa, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Ibirité, Pedro Leopoldo e Sabará. A ALMG quer discutir o planejamento, a falta de diálogo apontada por professores e os impactos sobre escolas estaduais que podem ceder seus prédios para o novo modelo. Essa discussão é legítima. Mais que legítima, é necessária.
Não é legítimo é transformar o debate numa caça ideológica
O Brasil convive, há décadas, com escolas religiosas, escolas confessionais, escolas construtivistas, escolas conteudistas, escolas técnicas, escolas bilíngues, escolas comunitárias, escolas de tempo integral, escolas com métodos pedagógicos distintos e até escolas que parecem ter mais projeto de marketing do que projeto pedagógico. E tudo bem. A diversidade educacional é uma riqueza. Nenhuma sociedade democrática deve ter medo de diferentes formas de ensinar, desde que respeitem a lei, o currículo, os direitos dos alunos e a formação adequada.
Por que, então, uma escola militarizada ou vinculada à Polícia Militar deve ser combatida de saída, como se fosse uma ameaça à República?
Há nisso, sim, uma dose de preconceito. E preconceito, mesmo quando veste jaleco pedagógico, continua sendo preconceito.
É claro que a escola pública não pode virar quartel. É claro que estudante não pode ser tratado como recruta. É claro que disciplina não substitui conhecimento, continência não substitui leitura, uniforme não substitui professor bem pago, e ordem no corredor não resolve sozinha a tragédia da aprendizagem. Mas também é claro que uma escola sem disciplina, sem autoridade, sem rotina e sem exigência pode abandonar o aluno ao improviso. E improviso, na educação pública, costuma ser a antessala da desigualdade.
A crítica séria não deve ser contra a existência do Colégio Tiradentes. A crítica séria deve perguntar: haverá vagas abertas à comunidade? Haverá critérios transparentes? Haverá preservação dos direitos dos professores? Haverá diálogo com pais, alunos e servidores? Haverá investimento real? O prédio da escola estadual será transformado sem ouvir quem já está ali? Os alunos atuais, se desejarem, serão remanejados para onde? Os trabalhadores temporários serão dispensados? A comunidade será respeitada ou apenas informada depois da decisão pronta?
Essas perguntas são corretas. O que não é correto é partir do princípio de que escola cívico-militar é, por natureza, ruim.
A Lei 25.090, de 2024, criou cargos para ampliar unidades do Colégio Tiradentes, mas também gerou discussão porque envolveu mudanças nas carreiras da educação básica. A própria ALMG registrou que houve preocupação com retirada de cargos e incluiu dispositivo para impedir diminuição de contratos temporários da Secretaria de Educação. O ponto concreto tem que ser sim fiscalizado. Não é debate de torcida. É debate de política pública.
O problema é que parte da discussão no Brasil foi sequestrada por um pensamento único. Há quem defenda pluralidade na teoria, mas torça o nariz quando a pluralidade não cabe no seu próprio manual ideológico. Defende-se diversidade para tudo, menos para o modelo escolar. Aí não pode. Aí vira pecado pedagógico.
Ora, se uma família pode escolher uma escola religiosa, por que outra não poderia escolher uma escola cívico-militar? Se há escolas construtivistas, conteudistas, técnicas e confessionais, por que não pode haver também uma escola pública com disciplina mais rígida, valores cívicos e rotina organizada?
Não se deve proibir. Deve-se avaliar
Se o Colégio Tiradentes entrega bons resultados, que sejam medidos. Se falha, que seja corrigido. Se exclui alunos, que se abra. Se privilegia demais um público específico, que se reequilibre. Se usa prédio estadual sem diálogo, que se sente à mesa. Se melhora a aprendizagem, que se reconheça. Se vira propaganda eleitoral, que se denuncie. Mas fechar a porta antes de olhar a realidade é trocar educação por catecismo ideológico.
O essencial é abrir boas escolas. Escola com professor respeitado. Escola com aluno aprendendo. Escola com biblioteca, laboratório, segurança, merenda, internet, projeto pedagógico, avaliação e responsabilidade. Escola que forme gente capaz de ler o mundo, trabalhar, pensar, discordar, e viver em sociedade.
A orientação tem que ser formar bem o aluno
A escola pública precisa ser pública no acesso, plural no método e rigorosa no resultado. Não pode ser monopólio de uma visão única. A educação não pertence a sindicato, governo, partido, corporação militar ou gabinete parlamentar. A educação pertence ao aluno.
E, no fim das contas, o debate verdadeiro é esse, menos preconceito contra modelos diferentes e mais cobrança sobre aquilo que importa. Porque escola boa não é a que agrada a ideologia do adulto. Escola boa é a que muda a vida do estudante.
