O setor de ferro-gusa de Minas Gerais ainda espera uma mudança de cenário na investigação comercial aberta pelos Estados Unidos e acredita em uma possível reversão de uma nova tarifa sobre produtos brasileiros. A avaliação é do presidente do Sindicato da Indústria do Ferro de Minas Gerais (Sindifer-MG) e do Centro Empresarial e Industrial de Minas Gerais (CIEMG), Fausto Varela.
Em entrevista à 98 News nesta quarta-feira (15/7), Varela afirmou que, apesar da preocupação com a decisão norte-americana, o setor trabalha com a expectativa de que os argumentos apresentados durante o processo possam evitar a aplicação da sobretaxa.
“Nossa expectativa é que haja uma reversão nesse quadro. Fizemos todo um trabalho para demonstrar aos Estados Unidos a importância do ferro-gusa, principalmente o ferro-gusa de Minas Gerais, que é o maior produtor do Brasil”, afirmou.
A possível tarifa está sendo analisada dentro da chamada Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. Segundo Varela, a principal diferença em relação à medida anunciada no ano passado é que a nova investigação pode gerar uma cobrança específica por país, aumentando a diferença de competitividade entre os fornecedores internacionais.
“Na tarifa do ano passado, os produtos que sofriam concorrência com os Estados Unidos eram analisados de uma forma mais ampla. Agora é diferente: a Seção 301 estabelece a tarifa para o país. Com isso, concorrentes nossos que exportam para os Estados Unidos podem não ser tarifados e terão mais competitividade”, explicou.
O presidente do Sindifer-MG destacou que o Brasil tem uma posição relevante no mercado norte-americano de ferro-gusa. Segundo ele, no ano passado, o país respondeu por cerca de 60% das importações dos Estados Unidos, enquanto a produção interna americana atende apenas uma pequena parcela da demanda.
“Eles precisam dessa importação, tanto do Brasil quanto de outros países, mas principalmente do Brasil”, afirmou.
Dificuldade para substituir mercado americano
Caso a tarifa seja aplicada, Varela avalia que a busca por novos compradores não seria uma solução imediata para compensar uma eventual perda das exportações para os Estados Unidos.
Segundo ele, o mercado de ferro-gusa é restrito, por ser uma matéria-prima voltada principalmente para indústrias específicas, como siderúrgicas e fundições. Além disso, a relação comercial construída ao longo dos anos dificulta uma substituição rápida dos compradores.
“No curto prazo é muito difícil conseguir mercados que possam substituir os Estados Unidos. Existe uma tradição, uma fidelização e uma dificuldade até logística para mudar esses destinos”, disse.
Setor busca alternativas
Mesmo diante da incerteza, o representante do setor afirma que as empresas mineiras passaram a buscar alternativas para reduzir a dependência do mercado americano.
Entre as possibilidades está a retomada de compradores da União Europeia, especialmente pela característica ambiental do ferro-gusa produzido em Minas Gerais, que utiliza carvão vegetal de floresta plantada como termorredutor.
“Temos um ferro-gusa diferenciado, ambientalmente mais adequado, com descarbonização do processo. Isso pode ser um diferencial para novos mercados”, afirmou.
Para Fausto Varela, o setor está mais preparado do que no início das discussões sobre tarifas, mas ainda enfrenta desafios relacionados à produção, logística e custos de transporte.
“A cada dificuldade a gente tira lições e começa a enxergar as vulnerabilidades. Estamos buscando alternativas, mas a tarifa, se vier, aumenta a distância e reduz a nossa competitividade”, concluiu.
