Com uma movimentação estimada em mais de R$ 2 trilhões no Brasil, a chamada economia prateada começa a ampliar espaço também no mercado digital. Consumidores com mais de 50 anos passaram a representar uma audiência para criadores de conteúdo e empresas que buscam formas de se comunicar com um público que nem sempre acompanhou a transformação tecnológica.
Um exemplo desse movimento é o casal Maria Helena e Tarcísio Cabral, ambos de 70 anos. Responsáveis pelo projeto 60 Demais, eles produzem conteúdos para ensinar pessoas mais velhas a usar o celular com autonomia e segurança. O trabalho está presente no Instagram, Facebook, TikTok e YouTube.
Em entrevista ao Vida de Creator, da 98 News, durante o Hotmart Fire, o casal contou que transformou o projeto digital em uma nova atividade profissional depois da aposentadoria.
“Com o digital nós passamos a ter praticamente uma nova profissão. Ela nos exige dedicação, nos exige atualização tecnológica”, afirmou Tarcísio.
Segundo ele, o crescimento também exigiu a criação de uma estrutura empresarial. O projeto passou a oferecer cursos, suporte aos alunos e uma comunidade voltada ao público mais velho, além de gerar postos de trabalho.
1 milhão de seguidores
O alcance do 60 Demais aumentou nos últimos dois anos. Há cerca de um ano e oito meses, o projeto tinha pouco mais de 2 mil seguidores. Atualmente, aproxima-se de 800 mil somente no Instagram e de 1 milhão de seguidores considerando todas as plataformas.
Para Maria Helena, parte do crescimento está relacionada à forma de apresentar a tecnologia ao público mais velho. Os conteúdos evitam termos técnicos, usam uma linguagem mais pausada e recorrem a comparações com objetos e situações que já faziam parte da rotina dessa geração.
“A gente ensina celular sem usar palavras técnicas. Quando surge algum termo técnico, a gente já explica”, contou.
A estratégia surgiu a partir da experiência do casal com aulas presenciais para aposentados. Segundo Maria Helena, foram mais de 12 turmas, inicialmente com grupos menores, que ajudaram a desenvolver a metodologia posteriormente levada para as redes sociais e para os cursos digitais.
Empresas buscam público 50+
A presença desse público no ambiente digital também criou oportunidades comerciais. Maria Helena afirma que empresas passaram a procurar o 60 Demais justamente pela dificuldade de apresentar produtos e serviços de forma acessível aos consumidores com mais de 50 anos.
“Eles falam: ‘A gente não está conseguindo chegar nesse público’. E a gente é o canal que eles podem usar para chegar no público que precisam atingir, que é o público 50 mais”, afirmou.
Segundo ela, o projeto já desenvolve trabalhos para empresas de setores como telefonia e serviços bancários, incluindo produção de tutoriais e publicidade direcionada a essa faixa etária.
Para o casal, a inclusão digital também pode ampliar a autonomia dos consumidores e criar novas possibilidades de participação no mercado de trabalho e de geração de renda.
Tecnologia como ferramenta de autonomia
Além do potencial econômico, Maria Helena e Tarcísio defendem que o acesso à tecnologia pode reduzir a dependência de familiares para atividades cotidianas, como utilizar aplicativos de transporte, realizar compras pela internet e identificar situações de risco no celular.
O casal também vê a aproximação entre diferentes gerações como parte desse processo. Um dos conteúdos publicados pelo projeto ultrapassou 14 milhões de visualizações e, segundo Maria Helena, levou pais e filhos a conversarem sobre comportamentos e expressões do ambiente digital.
“Não desista de você e nunca se sinta incapaz. […] Não significa que perdeu a capacidade de aprender”, afirmou Maria Helena.
Tarcísio também defendeu a atualização tecnológica como uma possibilidade para quem envelhece continuar compartilhando conhecimentos e participando do mercado.
“O tempo só anda para frente, não tem jeito de retroceder. […] Envelhecer no sentido de ficar velho, de ficar ultrapassado tecnologicamente, é uma opção de escolha”, disse.
