A política mineira acaba de oferecer uma demonstração bastante didática de que o discurso ideológico pode até conquistar votos, mas é o pragmatismo que costuma organizar o poder. Bruno Engler, deputado estadual mais votado de Minas Gerais, anunciou sua candidatura à presidência da Assembleia Legislativa e, poucas horas depois, retirou o nome para apoiar Doorgal Andrada, do PP.
O movimento não foi propriamente uma rendição. Foi uma negociação. E, ao que tudo indica, bastante calculada.
O PL elegeu 21 deputados estaduais e será, com folga, a maior bancada da Assembleia. Engler recebeu quase 676 mil votos, uma votação extraordinária. Mas existe uma diferença fundamental entre conquistar votos populares e construir uma maioria parlamentar. A primeira depende do eleitor. A segunda exige diálogo, articulação e capacidade de convivência com quem pensa diferente.
E foi justamente aí que Doorgal Andrada levou vantagem.
O deputado do PP conseguiu reunir apoios de partidos de centro e centro-direita, inclusive do Republicanos, legenda do governador eleito Cleitinho Azevedo. Quando Engler percebeu que a candidatura adversária já estava suficientemente consolidada, preferiu negociar espaços na Mesa Diretora e influência sobre a pauta legislativa.
Afinal, na política, às vezes é mais vantajoso participar do comando do que insistir em comandar sozinho.
Há também um componente importante nessa articulação. A Assembleia mineira parece disposta a preservar um modelo de presidência menos identificado com os extremos ideológicos, semelhante ao perfil de negociação adotado por Tadeu Leite. Isso não significa ausência de posições políticas, mas o reconhecimento de que o Legislativo precisa funcionar como instituição, e não como extensão de palanques eleitorais.
A decisão de Engler revela maturidade política ou simplesmente conveniência? Provavelmente uma combinação das duas coisas. O parlamentar compreendeu que a força eleitoral do bolsonarismo não se transforma automaticamente em maioria institucional. E Doorgal entendeu que não seria inteligente presidir a Assembleia ignorando uma bancada de 21 deputados.
Mas há uma questão ainda mais importante: qual será o preço político dessa composição?
O PL reivindica cargos de destaque e espaço para seus projetos. É legítimo. O problema começa quando a distribuição de poder se transforma em finalidade, e não em instrumento para melhorar a qualidade das decisões legislativas.
Doorgal surge como favorito para assumir a presidência em fevereiro de 2027. A eleição, porém, ainda não aconteceu. E caberá ao futuro presidente demonstrar independência diante do governo Cleitinho, equilíbrio na relação com a oposição e disposição para enfrentar os problemas reais de Minas Gerais.
O episódio deixa uma lição interessante. Engler mostrou que sabe recuar quando a matemática não favorece suas pretensões. Doorgal mostrou habilidade para construir uma maioria que ultrapassa fronteiras partidárias.
Resta saber se essa habilidade será utilizada para governar melhor a Assembleia ou apenas para repartir melhor o poder.
Porque, em Minas, como em Brasília, os políticos costumam resolver rapidamente suas diferenças quando o assunto é ocupar cadeiras. Seria extraordinário se demonstrassem a mesma eficiência para resolver os problemas de quem paga por elas.
