A cobrança constante por produtividade, tanto no ambiente profissional quanto na vida pessoal, tem contribuído para a chamada “Sociedade do Cansaço”. A avaliação é do filósofo, escritor e professor Luiz Felipe Pondé, que abordou os impactos da competição e da busca por resultados durante participação no evento Imersão Indústria. Segundo ele, a exigência de desempenho ultrapassou os limites do trabalho e passou a interferir até nos momentos de descanso.
Pondé explicou que as transformações sociais iniciadas com a Revolução Industrial, no final do século XVIII, modificaram a relação das pessoas com o tempo livre. Na avaliação do filósofo, a vida contemplativa, marcada por períodos sem atividades ou obrigações, perdeu espaço diante da necessidade de estar constantemente ocupado. “Não fazer nada hoje é quase uma ofensa”, afirmou.
Segundo o professor, essa pressão também se manifesta nos fins de semana, quando o lazer passa a ser tratado como mais uma atividade que precisa apresentar resultados. “Tanto é que no final de semana você tem que produzir lazer, porque se você não fizer nada, você sente que você é um lixo, que você não tem vida”, declarou. Para Pondé, a comparação com a rotina de outras pessoas reforça a sensação de que descansar significa perder tempo.
O filósofo destacou que a chamada Sociedade do Cansaço não pode ser explicada apenas pelo comportamento individual. Para ele, o fenômeno está diretamente relacionado às condições econômicas e às relações de trabalho, que exigem produtividade contínua. “A sociedade do cansaço […] é fruto das relações concretas, sociais que a gente tem de trabalho, econômicas”, explicou.
Pondé também argumentou que abandonar essa dinâmica não é uma possibilidade para grande parte da população, já que as obrigações profissionais e financeiras impõem limites às escolhas individuais. Segundo ele, não basta decidir deixar de buscar produtividade e eficiência, uma vez que a necessidade de trabalhar e garantir renda mantém as pessoas inseridas nesse modelo.
Durante a entrevista, o professor ainda relacionou essa lógica ao burnout, condição associada ao esgotamento profissional. Pondé chamou a atenção para o fato de que até mesmo experiências de adoecimento podem acabar transformadas em oportunidades de produção e geração de renda. Como exemplo, citou pessoas que, após enfrentarem o burnout, passam a produzir palestras, livros e workshops sobre o assunto.
