Existe um ruído que incomoda mais do que qualquer cano de escapamento aberto durante a madrugada, em meio ao melhor do sono. É o ruído da coerência quando ela racha.
Porque ruído é um fenômeno físico: vibração, onda, decibéis, ciência pura. Mas seletividade moral é um fenômeno político, e aí, meu amigo, não tem medidor de som que dê conta. Às vezes os dois se encontram e nasce a criatura mais barulhenta de todas, a falsidade com diploma, crachá e nota oficial bem diagramada.
E não, antes que alguém diga “lá vem o colunista bêbado de Carnaval”: não é efeito de bebida. Inclusive, nesse carnaval, fui comedido. O que não foi comedido foi o barulho, e nem a conveniência.
Discurso disfarçado de ciência
Em 2024, a UFMG, sob a liderança da reitora Sandra Regina Goulart Almeida, reagiu duramente à Stock Car no entorno do campus Pampulha. O discurso foi robusto, técnico e institucional. O argumento central foi, ruído elevado, perturbação do funcionamento, transtornos operacionais. E, sobretudo, prejuízo para a Escola de Veterinária e para o Hospital Veterinário com mudança de rotina, suspensão de atendimentos, preocupação com os animais. Tudo isso documentado pela comunicação oficial da própria universidade.
Em 2025, a etapa em Belo Horizonte foi cancelada. E a UFMG declarou “alívio” e acenou com a esperança de que o evento não voltasse. Isso pode parecer normal porque uma universidade não é um enfeite urbano. Se entende que um evento prejudica o campus, tem não só o direito, mas o dever de se posicionar.
Quando a régua vira sanfona
Corta a cena para 2026. Carnaval. Pampulha lotada. Mineirão cercado de gente. No mesmo entorno onde o ronco dos motores foi descrito como ameaça à rotina, entra em campo o Bloco Marinada, com a cantora Marina Sena, arrastando multidão, som alto, vibração, aquele paredão emocional típico de festa de rua. Alegria em estéreo, suor em alta rotação e a cidade convertida em caixa de som.
E aí eu pergunto com a delicadeza de uma britadeira perfurando concreto armado:
Cadê a prontidão institucional para falar de ruído?
Cadê o mesmo rigor técnico?
Cadê a mesma preocupação pública com impacto, rotina, entorno, bem-estar e funcionamento?
Porque se o argumento era técnico, ele é sempre técnico. Técnica não é opinião. Técnica não é “depende do que”.
Ruído não vira flor quando a trilha sonora agrada. Decibéis não fazem o “L”, não fazem letra nenhuma. Decibéis produzem decibéis. E se em 2024 isso era “prejuízo”, em 2026 não pode virar “manifestação cultural” por osmose ideológica. Os ouvidos, a sensibilidade animal, não mudam porque o refrão é bom.
Um detalhe: intenção política
A reitora Sandra Goulart passou a ser citada publicamente como opção do PT para disputar o Governo de Minas em 2026. E ela mesma confirmou conversas com o partido, ainda que sem bater martelo.
Ou seja: quando você junta três peças… O discurso de rigor técnico usado como arma contra a Stock Car; a ausência de indignação equivalente com barulho de festa no mesmo território sensível; e o movimento político em torno do nome da dirigente; Daí a ciência vira narrativa.
E aqui mora o perigo: não é a universidade ter posição. A Universidade sempre teve, e deve ter, debates, conflitos, visões de mundo. O escândalo é fingir neutralidade enquanto escolhe alvos e silêncios conforme a conveniência do momento. A pior militância é a militância que se fantasia de régua técnica e tenta passar pelo detector de metais como se fosse transparência.
Porque aí ela não debate: ela carimba. Ela não argumenta: ela se legitima. Ela não convence, ela desqualifica, com um ar de “eu sou a instituição, logo você está errado”.
E a universidade pública vive de uma moeda só: credibilidade.
Credibilidade não se sustenta com nota bonita, nem com pose de superioridade acadêmica, nem com “textão” que começa com “considerando” e termina com “reiteramos”. Credibilidade se sustenta com coerência, isonomia e a coragem de aplicar a mesma régua para o evento que te incomoda e para o evento que você aplaude.
Se o problema era o barulho, o problema continua sendo o barulho
Se o problema era impacto no entorno, o impacto não muda de cor conforme a bandeira. Não existe “poluição sonora progressista” e “poluição sonora reacionária”. Existe barulho. Existe perturbação. Existe consequência.
E, sim, alguém pode dizer: Mas Carnaval é tradição popular, Stock Car é evento privado. Só que repare bem, esse argumento não é técnico. É político, cultural, valorativo, e pode ser defendido, desde que dito com honestidade.
O que não dá é usar ciência como espada quando convém, e como travesseiro quando atrapalha.
Isso não é defesa da ciência. Isso é ideologia disfarçada de ciência, o que é quase uma paródia do próprio método científico, que exige justamente o contrário. Consistência, replicabilidade, critérios claros, transparência de premissas.
Quando o mesmo campus, o mesmo entorno, a mesma realidade acústica recebem tratamentos diferentes por afinidade simbólica, o nome disso não é rigor. É seletividade. E seletividade, quando vem com carimbo institucional, vira abuso de autoridade moral.
A feiura é ética, não estética
Porque a universidade não pode ser apenas um ator político que se autoproclama árbitro técnico. Isso é a receita perfeita para a erosão da confiança pública, a mesma confiança que sustenta orçamento, autonomia, respeito social e a própria ideia de universidade como espaço de conhecimento.
A UFMG é grande demais para caber num panfleto. E a reitoria é grande demais para caber numa conveniência.
Por isso eu repito, agora sem metáfora, para ser entendido inclusive pelos que gostam de latim e de termos acadêmicos.
O que se viu, o contraste entre a guerra à Stock Car e o silêncio no Carnaval, não foi coerência institucional. Foi conveniência política travestida de rigor técnico.
E isso, dentro de uma universidade, não é só feio,é desonesto.
Desonestidade em “stricto sensu”.
Se é que me entendem.
