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A crueldade fantasiada de compaixão

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Morador de rua (Foto: freepik.com)

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A aprovação, em segundo turno, pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, do projeto que cria regras para a internação voluntária e involuntária de dependentes químicos expôs, mais uma vez, uma das fraudes morais mais bem-acabadas do debate público brasileiro: a falsidade da generosidade.

Trata-se daquela pose muito conhecida. A pose dos que falam manso sobre dignidade humana enquanto assistem, sem mover um dedo eficaz, à degradação humana nas calçadas. A pose dos que se dizem defensores dos vulneráveis, mas reagem com indignação sempre que aparece alguma proposta concreta para intervir no abismo. A pose dos que transformaram a compaixão em ornamento retórico e a omissão em superioridade moral.

A indiferença das ruas

A cidade convive há anos com pessoas destruídas pela dependência química, largadas à céu aberto, apodrecendo física e mentalmente diante do comércio, das famílias, dos trabalhadores e, sobretudo, diante de um poder público que se acostumou a administrar a tragédia com o comportamento confortável da sensibilidade abstrata. Todo mundo lamenta. Todo mundo faz cara de aflição. Todo mundo recita meia dúzia de palavras solenes sobre direitos. E, no fim, o que se oferece ao dependente químico em estado severo é o mesmo de sempre. Rua, abandono, surto, recaída e apodrecimento.

A covardia com maquiagem ética

O projeto aprovado, de autoria do vereador Bráulio Lara, segue agora para sanção do prefeito Álvaro Damião. E o que ele faz, em essência, é reconhecer uma verdade que a ala sentimental do imobilismo se recusa a admitir. Existem situações em que a pessoa já não consegue responder por si, já perdeu a autonomia real, já está submersa a tal ponto no vício que falar em liberdade de escolha se torna quase uma piada macabra.

Nesses casos, continuar repetindo que “ninguém pode ser obrigado” a tratamento, enquanto o sujeito delira no asfalto, se agride, agride terceiros, definha e rompe todos os vínculos com a própria dignidade, não é defesa de direitos. É desistência. É o Estado declarando, com voz doce, que lavou as mãos.

Há uma parcela do progressismo burocrático brasileiro que se especializou nesse tipo de hipocrisia elegante. É gente que adora a palavra “acolhimento”, desde que ela não exija confronto com a realidade. Gente que fala em cuidado, mas foge de qualquer medida que tenha consequência prática. Gente que prefere a pureza verbal à intervenção imperfeita. Gente, enfim, que se sente moralmente superior não porque salva alguém, mas porque posa melhor ao lado do desastre.

Enquanto isso, quem paga a conta é o dependente químico transformado em ruína viva, a família esmagada pela impotência, o profissional de saúde sem estrutura e a cidade inteira condenada a conviver com a miséria convertida em paisagem.

É preciso dizer com franqueza: a falsa generosidade tem sido uma das formas mais perversas de crueldade no Brasil urbano. Ela pega o sofrimento real e o transforma em vitrine ideológica. Usa o miserável como totem discursivo. Não quer resolvê-lo, porque a permanência do problema alimenta a pose, a militância e a demagogia. O desgraçado, nesse modelo, não é cidadão a ser recuperado. É uma peça de retórica.

É preciso um olhar transformador

Por isso o debate sobre a internação involuntária costuma ser contaminado por histeria moral. Basta alguém dizer que existem casos extremos em que o Estado precisa agir, e logo surgem os profetas da omissão, brandindo o espantalho do autoritarismo, como se toda intervenção fosse violência e toda passividade fosse virtude. É um raciocínio infantil, mas politicamente útil porque  ele absolve os inertes e demoniza quem, ao menos, tenta enfrentar a sujeira do mundo real.

Ninguém sério está defendendo internação em massa, arbitrariedade ou política de limpeza social. Isso seria bárbaro, ilegal e inaceitável. O próprio projeto estabelece prioridade para o atendimento ambulatorial e prevê critérios médicos para a internação em casos de risco. Ou seja: a medida extrema aparece como exceção, não como regra.

Mas até essa exceção, cercada de cautela, já é suficiente para despertar a fúria dos devotos da inação.

Por quê?

Porque a falsa generosidade precisa que nada aconteça. Ela depende da eternização do impasse. Ela sobrevive do discurso, não da solução. Se o poder público cria instrumentos para agir, ainda que de forma limitada e controlada, desmonta-se o grande teatro da indignação seletiva. Fica mais difícil vender omissão como se fosse civilização.

A verdade, nua e sem perfume, é que deixar uma pessoa se consumir em dependência química severa nas ruas não é respeito à autonomia. É abandono institucional. É preguiça moral. É o triunfo de uma política pública que prefere contemplar o colapso a correr o risco de agir.

E há também um componente importante nessa encenação. Boa parte dos defensores dessa compaixão performática não convive com o problema na porta de casa. Não vê filho perdido no crack. Não atende mãe desesperada implorando ajuda. Não fecha loja com medo de tumulto. Não leva na pele o peso cotidiano da degradação urbana. Seu engajamento é quase sempre terceirizado. É fácil defender a santidade da não intervenção quando o inferno do outro não atravessa o seu elevador.

Uma aprovação que merece aplausos

Por isso, a aprovação do projeto pela Câmara de Belo Horizonte tem peso político. Não porque resolva o problema, isso seria ingenuidade. Não resolve. Lei nenhuma resolve sozinha uma devastação social e sanitária dessa magnitude. Mas ela rompe, ao menos parcialmente, com a liturgia mentirosa da contemplação. Ela afirma que há momentos em que o poder público não pode se esconder atrás de teses impecáveis enquanto pessoas afundam diante dos seus olhos.

Claro que a lei exigirá fiscalização, regulamentação séria, estrutura de saúde mental, integração com assistência social e acompanhamento posterior. Sem isso, vira papelório. Sem isso, corre o risco de ser apenas uma resposta simbólica para uma cidade exausta. Tudo isso é verdade.

Mas a crítica honesta deve ser feita no lugar certo. O problema não está em criar o instrumento. O problema estará em não dar a ele base técnica, controle e execução responsável. Confundir essas duas coisas é mais uma esperteza da falsa generosidade: ataca-se a ferramenta para preservar a paralisia.

Belo Horizonte vive hoje um dilema moral e político. Ou continua tratando a dependência química severa como um espetáculo cotidiano da decadência, sempre acompanhado por discursos fofos e inúteis, ou aceita que o cuidado real, às vezes, exige decisão dura, critério médico e intervenção. Não há romantismo possível na sarjeta. Não há poesia progressista no corpo desfeito pelo vício. Não há elevação moral em chamar abandono de liberdade.

No fundo, a pergunta é simples: queremos salvar pessoas ou apenas posar ao lado delas?

A aprovação do projeto aponta, ao menos, para uma tentativa de sair do cinismo. E já era hora. Porque uma cidade que se acostuma a ver gente morrendo em vida nas calçadas, enquanto uma elite política e ideológica transforma a omissão em medalha de virtude, não está praticando compaixão.

Está apenas refinando a própria crueldade.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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