Casada, mão do Pedro. Ela tinha apenas 35 anos e deixou um bebê de apenas dez meses. Fez sua última reportagem anteontem. Entrou ao vivo. O assunto? A urgente duplicação da BR-381: a “rodovia da morte”.
Em sua última entrada ao vivo, na quarta-feira (15.04) anunciava, com a esperança que tantas vezes já vimos frustrada, o possível início das obras no trecho mais letal. Entre os 100 quilômetros que ligam Belo Horizonte a João Monlevade, no Vale do Aço, ponto que, infelizmente, já se tornou símbolo de tragédias anunciadas.
No retorno para a redação, o destino foi implacável.
O veículo em que ela estava, ao lado do cinegrafista e, como é comum no jornalismo diário (não deveria ser, mas tem se tornado mais comum a cada dia), também motorista e multifunções Rodrigo Lapa, colidiu frontalmente com um caminhão. Rodrigo morreu no local. Foi sepultado nesta quinta-feira (16.04) no Cemitério do Bonfim, na região noroeste da capital.
Alice ainda foi socorrida com vida e levada ao Hospital João XXIII. Mas, na noite de ontem, teve a morte encefálica confirmada. Em um gesto que revela, mais uma vez, quem ela era, sua família respeitou seu desejo e autorizou a doação de órgãos. Alice agora vive, literalmente, em outras pessoas. Por limitações clínicas, o coração não pôde ser doado. Mas o gesto permanece inteiro, grandioso.
A morte precoce da repórter, mãe, esposa, filha, comadre, amiga, madrinha Alice, e de seu colega Rodrigo, cinegrafista, motorista, marido, pai e palhaço voluntário, dilacera qualquer um que ainda consiga sentir.
E é impossível não perguntar: até quando?
Até quando vamos tratar a BR-381 como uma fatalidade inevitável? Como se fosse “assim mesmo”? Como se morrer ali fosse parte do trajeto?
A BR-381, especialmente no trecho entre Belo Horizonte e Governador Valadares, registra, ano após ano, números alarmantes. Em média, são centenas de acidentes anuais, com dezenas – por vezes mais de uma centena -de mortes. Há períodos em que se fala em uma morte a cada dias. Não é estatística fria: são histórias interrompidas, famílias devastadas, futuros apagados.
E o mais revoltante: não é surpresa. Não é imprevisível. Não é inevitável.
É sabido.
Durante mais de uma década como repórter de polícia, eu mesma percorri essa estrada inúmeras vezes. Para Santa Luzia, Sabará, Caeté, João Monlevade, Itabira, dentre outras. E, também inúmeras vezes, noticiei promessas de duplicação. Projetos anunciados, licitações iniciadas, obras previstas. Sempre no futuro. Sempre adiadas. Sempre interrompidas. Sempre esquecidas.
A BR-381 não mata por acaso. Ela mata por omissão.
Quando o poder público conhece o risco, reconhece a necessidade de intervenção e, ainda assim, posterga soluções por décadas, deixa de ser apenas ineficiência. Passa a ser responsabilidade direta.
Cada trecho não duplicado, cada curva sem correção, cada ponto crítico sem intervenção é uma escolha administrativa. E toda escolha tem consequência.
A morte de Alice e Rodrigo não é apenas uma tragédia. É também um retrato cruel de um problema estrutural negligenciado.
É inaceitável que profissionais que estavam justamente denunciando o perigo tenham se tornado vítimas dele horas depois.
Não se trata mais de prometer obras. Trata-se de reconhecer que vidas estão sendo perdidas enquanto se discute orçamento, contratos e prioridades.
Quantas Alices mais? Quantos Rodrigos?
A BR-381 não pode continuar uma pauta política recorrente apenas depois das tragédias. Ela precisa ser tratada como uma urgência permanente, com ação concreta, imediata e eficaz.
Porque nenhuma estrada pode ser, por tanto tempo, um corredor da morte sem que isso pese, diretamente, sobre quem tinha o dever de mudar essa realidade.
E agora? Aqueles que negligenciam a urgente duplicação… vão preencher o vazio na vida dos familiares daqueles que se foram? Não. Ninguém preenche esse vazio. O que deve ser feito é: tomar providências para que nenhuma outra família sinta esse vazio do sorriso que não mais virá.
