Minas Gerais é um espelho do Brasil e pode oferecer pistas sobre os rumos do país nos próximos anos. Essa é a avaliação da revista britânica The Economist, que dedicou uma reportagem ao estado e o descreveu como um retrato fiel da diversidade geográfica, econômica, racial e política brasileira. A publicação também chamou atenção para a grave situação fiscal mineira, afirmando que as finanças estaduais estão “em ruínas”.
Segundo a revista, Minas Gerais reúne características que o tornam um microcosmo do Brasil. O sul do estado guarda semelhanças com regiões mais desenvolvidas do país, enquanto o norte apresenta desafios sociais e econômicos comparáveis aos de áreas mais pobres do Nordeste. A composição racial da população mineira também é apontada como próxima da média nacional.
A publicação destaca ainda a importância política do estado. Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato venceu uma eleição presidencial sem conquistar Minas Gerais, o que transforma o estado no principal campo de batalha eleitoral do país.

Dívida elevada e contas pressionadas
O principal alerta da reportagem trata da situação financeira do estado. De acordo com a The Economist, a crise fiscal é resultado principalmente do crescimento de despesas previdenciárias sem fontes adequadas de financiamento. Além disso, os juros da dívida consomem recursos que poderiam ser destinados a investimentos e outras despesas discricionárias.
A revista observa que, durante a gestão do ex-governador Romeu Zema (Novo), Minas Gerais deixou de contrair novos empréstimos junto ao governo federal e passou a registrar superávits primários a partir de 2021. Apesar disso, o elevado estoque da dívida continua sendo um dos maiores desafios para as contas públicas.
Ao comentar o cenário, o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), João Gabriel Pio, afirmou à publicação que a situação herdada pelas próximas administrações é extremamente difícil. Segundo ele, o futuro governo terá pouca capacidade de ação diante das restrições orçamentárias.
A conclusão da revista é que a reorganização das contas públicas exigirá medidas duras e impopulares para reduzir despesas, em um desafio que, segundo a análise, se assemelha ao cenário fiscal enfrentado pelo próprio governo federal.
Infraestrutura deficiente e economia concentrada em commodities
A reportagem também relaciona as dificuldades fiscais aos gargalos de infraestrutura do estado. Segundo a publicação, as rodovias mineiras apresentam problemas de conservação e concentram cerca de 13% dos acidentes de trânsito registrados no país.
Ao mesmo tempo, Minas Gerais mantém posição estratégica na mineração brasileira. O estado responde por aproximadamente 40% da produção mineral nacional, com destaque para minério de ferro, estanho, grafite e nióbio, além de reservas de terras raras consideradas importantes para a transição energética.
Apesar desse potencial, especialistas ouvidos pela revista avaliam que Minas ainda depende excessivamente da exportação de matérias-primas. Para eles, o estado precisa avançar na agregação de valor aos produtos, ampliando investimentos em educação, inovação, pesquisa e infraestrutura para desenvolver cadeias produtivas mais sofisticadas.
Disputa política em um estado decisivo
No campo político, a reportagem aponta Minas Gerais como peça central para as eleições nacionais. A revista destaca que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem intensificado agendas no estado nos últimos meses, enquanto lideranças da direita também buscam ampliar influência entre o eleitorado mineiro.
Entre os nomes mencionados estão o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira, que ganhou projeção nacional por sua presença nas redes sociais. O ex-governador Romeu Zema também é citado como uma das lideranças da direita brasileira após deixar o governo estadual para disputar a Presidência da República.
Para a The Economist, o cenário político brasileiro pode caminhar para uma reconfiguração nos próximos anos, com fortalecimento de lideranças de direita e desafios para a manutenção da influência do Partido dos Trabalhadores após a saída de Lula da cena política.
A Rede 98 procurou o Governo de Minas para obter um posicionamento sobre a reportagem publicada pela The Economist e aguarda um retorno.
