Países da América do Sul atravessam um período de dificuldades econômicas, queda de popularidade de presidentes e conflitos políticos. No Chile, José Antonio Kast enfrenta a maior desaprovação desde que assumiu o governo, enquanto a presidente do Peru, Keiko Fujimori, perdeu apoio em meio às preocupações com a economia e a criminalidade. Na Argentina, o governo de Javier Milei convive com a redução do número de empresas e a perda do poder de compra da população. A Bolívia enfrenta um conflito entre presidente e vice-presidente, enquanto o Equador vive uma crise energética e a Colômbia registra protestos contra a retirada de obras de seu Museu Nacional.
Embora os problemas tenham origens diferentes, os países enfrentam pressões sobre seus governos, seja pela situação econômica, por decisões políticas ou pela insatisfação de setores da sociedade.
Chile: desaprovação de Kast chega a 64%
O presidente chileno José Antonio Kast enfrenta seu maior desgaste político desde a posse, em março de 2026. Levantamentos divulgados em outubro apontam desaprovação entre 60% e 64%, enquanto a aprovação varia de 27% a 32%.
Segundo a pesquisa Agenda Criteria, 64% dos entrevistados desaprovam o governo. Outros 82% consideram que a administração apresenta desempenho inferior às expectativas criadas no início do mandato.
A situação econômica aparece entre as principais preocupações dos chilenos. O desemprego atingiu 9,6% no trimestre encerrado em agosto, maior patamar em cinco anos. Na pesquisa Criteria, 62% afirmaram que a economia piorou nos últimos seis meses, enquanto apenas 8% perceberam melhora.
O desgaste também acompanha as discussões sobre o Orçamento de 2027. O governo propõe reduzir despesas em programas sociais, mas enfrenta resistência da população. Apenas 19% dos entrevistados aceitam a retirada de benefícios para equilibrar as contas públicas.
A proposta orçamentária prevê crescimento de 1,5% dos gastos, além de cortes em áreas sociais, ambientais e de desenvolvimento sustentável. O governo também solicitou autorização para contratar empréstimos de até US$ 26,5 bilhões.
Peru: Fujimori perde apoio em meio à insegurança e à piora da economia
A presidente do Peru, Keiko Fujimori, também registra queda de popularidade poucos meses depois de assumir o cargo, em julho.
Pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News, mostrou que a aprovação da presidente caiu de 42,8% para 28,3% entre setembro e outubro. No mesmo período, a desaprovação subiu para 53,6%.
A economia e a criminalidade estão entre as principais preocupações dos peruanos. Segundo o levantamento, 62% consideram a situação econômica ruim, enquanto 64% avaliam que o mercado de trabalho está fraco.
A insegurança é apontada por 42% dos entrevistados como um dos principais problemas do país.
Fujimori prometeu restaurar a ordem pública após anos de instabilidade política. Desde que assumiu, passou a defender medidas mais rígidas de segurança e anunciou a criação de um comando unificado entre a polícia e as Forças Armadas para combater o crime organizado.
O governo também busca ampliar seus poderes para atuar em questões de segurança e desastres naturais, mas enfrenta resistência no Congresso.
As dificuldades econômicas são agravadas pelos efeitos esperados do fenômeno El Niño. O Banco Central peruano reduziu a projeção de crescimento para 2026 a 3,2%, diante dos possíveis impactos sobre a agricultura, a pesca e a inflação.
Argentina: mais de 32 mil empregadores deixam cadastro durante governo Milei
Na Argentina, a política econômica do presidente Javier Milei enfrenta dificuldades para transformar a melhora de indicadores como a inflação em recuperação da renda e do consumo.
Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho mostram que o país registrou 32.290 empregadores a menos entre novembro de 2023, antes da posse de Milei, e julho de 2026.
O número caiu de 512.357 para 480.067, uma redução de 6,3%. Foi o 18º mês consecutivo de queda no cadastro.
O indicador, entretanto, não significa necessariamente que todas essas empresas fecharam. O registro considera empregadores com ao menos um trabalhador formal vinculado ao sistema de seguro contra acidentes de trabalho.
Entidades empresariais apontam o consumo enfraquecido, os custos elevados de energia e as dificuldades de acesso ao crédito como fatores de pressão sobre as empresas.
A abertura comercial também ampliou a concorrência com produtos importados. Segundo o Centro de Economia Política Argentina, as importações de bens de consumo cresceram 34,7% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023. A produção industrial recuou 12% nesse intervalo.
Embora a inflação tenha diminuído significativamente desde o início do governo, a perda do poder de compra e o endividamento das famílias continuam entre os principais desafios econômicos do país.
Bolívia: vice-presidente acusa governo de tentar prendê-lo
Na Bolívia, a crise tem origem no rompimento político entre o presidente Rodrigo Paz e seu vice, Edmand Lara.
No início de outubro, Lara afirmou ter recebido informações de integrantes da Polícia Boliviana sobre uma suposta tentativa de fabricar acusações para justificar sua prisão.
O vice-presidente, que estava na Espanha, também declarou temer pela própria segurança e acusou integrantes do governo de tentar intimidá-lo por suas posições políticas.
As denúncias surgiram após a prisão do procurador-geral Roger Mariaca, acusado pelo governo boliviano de ligações com o narcotráfico.
Mariaca investigava o operador digital argentino Fernando Cerimedo, que atuou como assessor de Rodrigo Paz e do presidente argentino Javier Milei. A defesa de Cerimedo nega as acusações e afirma que ele é vítima de uma armação política.
Lara passou a questionar tanto a prisão do procurador quanto os procedimentos adotados pelo governo para substituí-lo.
O conflito também envolve a aproximação da Bolívia com os Estados Unidos. O governo de Donald Trump apoiou a prisão de Mariaca, enquanto Lara cobra esclarecimentos sobre a legalidade da operação.
As acusações apresentadas pelo vice-presidente não comprovam, por si só, a existência de um plano governamental para prendê-lo.
Equador: governo mobiliza forças de segurança para impor racionamento
O Equador enfrenta uma nova crise energética após a redução dos níveis das represas hidrelétricas, provocada pela falta de chuvas.
O governo do presidente Daniel Noboa determinou que empresas de grande consumo energético utilizem geradores próprios ou outras fontes de energia e se desconectem periodicamente da rede nacional.
Para garantir o cumprimento das restrições, o secretário-geral do governo, José Julio Neira, anunciou na quinta-feira (15/10) que solicitou a intervenção das forças de segurança.
A medida provocou reclamações de empresários, especialmente do setor de aquicultura, responsável pela produção de camarão, um dos principais produtos de exportação do país.
A Câmara Nacional de Aquicultura alertou que a ampliação dos cortes ameaça a continuidade das atividades e a conservação dos produtos.
Também houve divergências entre as informações divulgadas por diferentes órgãos do governo sobre a duração do racionamento, o que aumentou a incerteza entre as empresas.
O Equador já havia enfrentado uma grave crise elétrica em 2024, quando o racionamento chegou a atingir a população por até 12 horas diárias.
Colômbia: retirada de obras de museu provoca críticas ao governo conservador
Na Colômbia, o governo do presidente conservador Abelardo de la Espriella enfrenta críticas após determinar a retirada de dezenas de obras do Museu Nacional, em Bogotá.
As peças abordavam temas como diversidade sexual, assassinatos de lideranças políticas, ativismo e o acordo de paz de 2016, responsável pelo desarmamento da guerrilha das Farc.
Na sexta-feira (16/10), paredes da sala “Hacer sociedad”, que antes abrigavam parte dessas obras, estavam vazias. Funcionários realizavam intervenções no espaço antes de seu fechamento temporário, anunciado como uma renovação.
A decisão provocou protestos de visitantes e representantes de organizações sociais, que acusam o governo de interferir na preservação da memória histórica do país.
A ministra da Cultura, Paola Holguín, defendeu a retirada das obras. Segundo ela, o museu não deve servir como instrumento de doutrinação política e precisa respeitar os direitos das crianças.
De la Espriella também criticou o que chama de influência da cultura woke sobre instituições culturais, expressão utilizada por setores conservadores para questionar determinadas pautas progressistas.
O governo, que assumiu há cerca de dois meses, sustenta que pretende reformular a orientação dos espaços culturais. Críticos consideram a medida uma forma de censura e de apagamento de episódios importantes da história colombiana.
As situações mostram desafios distintos na América do Sul. Enquanto Chile, Peru e Argentina enfrentam pressões relacionadas à economia e à popularidade de seus governantes, Bolívia, Equador e Colômbia vivem conflitos institucionais, dificuldades de infraestrutura e disputas sobre decisões do poder público.