O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, afirmou em entrevista à 98 News, nesta quinta-feira (21/5), que o governo do presidente Lula não aceita uma transição de longo prazo para o fim da escala 6×1 e para a redução da jornada de trabalho no país.
Durante a conversa, Boulos também defendeu a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial, rebateu críticas do setor produtivo sobre produtividade, falou sobre regulamentação de motoristas e entregadores por aplicativo e comentou o cenário político de Minas Gerais para as eleições de 2026.
Governo rejeita transição de 10 anos para fim da 6×1
A declaração ocorre em meio às discussões no Congresso Nacional sobre propostas que tratam do fim da escala 6×1 e da redução da jornada semanal.
Nos últimos dias, parlamentares ligados à oposição e ao Centrão passaram a defender regras de transição de até dez anos para implementação das mudanças.
Segundo Boulos, o governo Lula considera esse prazo excessivo. “Uma coisa é você falar uma transição de 60 dias para adaptação. Agora, jogar uma transição de três anos, cinco anos, dez anos, isso não é transição. Isso é empurrar com a barriga”, afirmou o ministro.
Boulos disse ainda que o debate não nasceu dentro da política institucional, mas da pressão dos próprios trabalhadores.
“Isso veio como um grito da sociedade de trabalhadores que estão exaustos, pessoas que trabalham seis dias na semana e têm um único dia de descanso”, declarou.
Mulheres são mais impactadas pela escala 6×1, diz ministro
Durante a entrevista, o ministro destacou que os impactos da escala são ainda maiores para mulheres, devido à dupla ou tripla jornada.
“As mulheres têm ainda dupla, tripla jornada. O dia de descanso muitas vezes não é descanso. É trabalhar em casa, cuidar dos filhos, lavar roupa, fazer comida”, afirmou.
O governo federal defende que a Constituição passe a prever jornada máxima de 40 horas semanais e garantia de dois dias de descanso.
Hoje, a legislação estabelece limite de 44 horas semanais.
Boulos rebate empresários sobre produtividade
Outro ponto central da entrevista foi o argumento apresentado por entidades empresariais de que a redução da jornada poderia prejudicar a produtividade da economia brasileira.
Boulos reconheceu que o Brasil enfrenta um problema histórico de produtividade, mas afirmou que trabalhadores exaustos produzem menos.
“As pessoas acham que vão aumentar a produtividade fazendo o trabalhador trabalhar até a exaustão. Isso não cabe”, afirmou.
Segundo ele, o aumento de afastamentos por questões de saúde mental evidencia o problema. “Ano passado, o Brasil bateu recorde de afastamentos do trabalho por ansiedade, burnout, depressão e esgotamento”, disse.
O ministro também citou exemplos internacionais para defender que jornadas menores podem aumentar produtividade.
“Você pega Islândia, Alemanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos. Em vários lugares houve aumento de produtividade com redução da jornada de trabalho”, afirmou.
Projeto pode travar pauta da Câmara
Segundo Boulos, o projeto enviado pelo governo Lula com urgência constitucional pode travar a pauta da Câmara dos Deputados ainda neste mês.
“O projeto da 6×1 com urgência constitucional vai trancar a pauta da Câmara”, afirmou.
Ele explicou que, após o prazo constitucional, outros projetos deixam de ser votados até que a proposta seja analisada pelos deputados.
Hoje, diferentes PECs sobre o tema tramitam no Congresso, incluindo textos apresentados pelos deputados Erika Hilton e Reginaldo Lopes, além do senador Paulo Paim.
Boulos afirmou que as propostas devem convergir ao longo da tramitação.
“Hoje é terra sem lei”, diz Boulos sobre aplicativos
A regulamentação do trabalho por aplicativos foi outro tema de destaque da entrevista.
O ministro criticou plataformas como Uber, iFood e 99 e afirmou que há desequilíbrio na relação entre empresas e trabalhadores. “Hoje é terra sem lei”, declarou.
Segundo Boulos, o governo tentou construir uma regulamentação mínima para garantir remuneração melhor, seguro contra acidentes e pontos de apoio para entregadores.
Ele afirmou, porém, que as plataformas fizeram forte lobby no Congresso para barrar o avanço da proposta.
“O poder de fogo da Uber, do iFood, da 99 é impressionante”, afirmou.
Governo anuncia medidas para motoristas e entregadores
Mesmo sem avanço legislativo, Boulos afirmou que o governo federal pretende ampliar medidas de apoio para motoristas e entregadores.
Entre elas está uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para renovação de veículos de motoristas de aplicativo e taxistas.
Segundo ele, o programa prevê juros reduzidos, prazo de até 72 meses para pagamento e carência de seis meses.
O ministro também afirmou que o governo pretende criar 100 pontos de apoio para entregadores em grandes cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte.
Minas Gerais entra no radar político de 2026
Ao comentar o cenário eleitoral de Minas Gerais, Boulos elogiou a deputada federal Áurea Carolina e a prefeita de Contagem, Marília Campos.
Segundo o ministro, ambas representam nomes relevantes para o campo progressista no estado. “Áurea é uma pessoa extraordinária, uma grande deputada. Assim como a Marília”, afirmou.
