Chupeta, mamadeira e o hábito de chupar o dedo podem alterar a posição dos dentes, a mordida e o formato do céu da boca quando se prolongam além dos 2 ou 3 anos de idade. O que determina o risco não é o hábito em si, mas a frequência, a intensidade e o tempo de duração.
A avaliação é da cirurgiã-dentista Karla Magalhães Alves, mestre em Odontopediatria e delegada da SBTI em Minas Gerais, em entrevista à 98 FM.
Quando o hábito começa a interferir
Os três hábitos fazem parte da primeira infância e estão ligados à necessidade natural de sucção do bebê. Segundo Karla Magalhães Alves, o risco cresce quanto mais o uso se prolonga, especialmente depois dos 2 ou 3 anos, fase em que os ossos da face ainda estão em crescimento intenso.
“Quanto antes conseguimos reduzir e eliminar hábitos de sucção não nutritiva, menor é o risco de alterações persistentes”, afirma a odontopediatra.
Ela reforça que o processo precisa ser gradual e individualizado, porque cada criança tem um ritmo de desenvolvimento e uma relação emocional diferente com o objeto.
O que pode mudar na boca da criança
Quando são frequentes e prolongados, os hábitos aplicam força repetida sobre estruturas que ainda estão em formação. As alterações mais comuns são:
- Mordida aberta anterior: os dentes da frente não se encostam mesmo com a boca fechada;
- Projeção dos dentes superiores para a frente;
- Alteração na posição dos dentes inferiores;
- Mordida cruzada posterior;
- Palato mais estreito e profundo: o céu da boca muda de formato.
Como língua, lábios, bochechas, dentes e ossos da face trabalham em conjunto, essas alterações podem aparecer junto com dificuldades na mastigação, na fala, na posição da língua e no padrão respiratório.
Karla faz uma ressalva importante: a chupeta e a mamadeira não explicam sozinhas todos os casos de criança que respira pela boca. A respiração oral tem outras causas possíveis, incluindo obstruções nasais, e precisa ser investigada quando persiste.
Chupeta, mamadeira e dedo agem de formas diferentes
Os três hábitos podem interferir no desenvolvimento, mas o impacto de cada um não é igual:
- Chupeta: costuma ficar posicionada entre os dentes e favorece a mordida aberta quando o uso é frequente e prolongado;
- Mamadeira: envolve a sucção, mas também a transição alimentar e o desenvolvimento da mastigação e da deglutição. Com líquidos açucarados à noite e sem higiene bucal depois, aumenta o risco de cárie;
- Dedo: é o mais difícil de interromper, porque está sempre disponível e costuma funcionar como mecanismo de conforto, inclusive durante o sono.
Para a odontopediatra, a pergunta não é só qual hábito a criança tem, mas quantas horas por dia ele acontece, com que intensidade, há quanto tempo e quais alterações já provocou.
Até quando o uso é aceitável
Não existe uma idade rígida que sirva para todas as crianças, mas há um intervalo de referência:
- Chupeta: iniciar a redução progressiva a partir do segundo ano de vida, com retirada até por volta dos 2 ou 3 anos, de preferência antes que alterações dentárias e ósseas se instalem;
- Mamadeira: substituir gradualmente, conforme a criança passa a usar copos adequados à idade e evolui na alimentação.
Como fazer a retirada sem sofrimento
A dentista é direta sobre o que não funciona: ameaça, castigo, humilhação e comparação com outras crianças estão fora. O que costuma dar certo:
- Estabelecer pequenas metas;
- Diminuir aos poucos os momentos de uso;
- Criar novos rituais de conforto;
- Envolver a criança no processo.
Antes disso, vale entender por que ela procura o objeto. Chupeta, mamadeira e dedo costumam estar ligados ao sono, à ansiedade, ao cansaço ou à necessidade de acolhimento. “Retirar o hábito sem oferecer outra forma de segurança emocional pode tornar o processo muito mais difícil”, diz Karla Magalhães Alves.
O que se corrige sozinho e o que não
Parte das alterações melhora de forma espontânea quando o hábito é interrompido cedo, porque a criança segue em crescimento e as estruturas da boca têm alta capacidade de adaptação. A mordida aberta ligada à chupeta é um exemplo: pode melhorar depois da retirada, principalmente nos primeiros anos de vida.
Mas a correção não depende só de largar a chupeta ou o dedo. Também pesam o padrão de crescimento da face, a posição e a função da língua e a forma como a criança respira.
Crianças com padrão de crescimento facial mais favorável têm mais chance de melhora espontânea. Já nas que apresentam crescimento mais vertical, com a face mais alongada, a mordida aberta tende a persistir, sobretudo quando há alteração na postura da língua ou respiração predominantemente pela boca.
Quando procurar o dentista
A criança precisa de avaliação profissional nestes casos:
- Mordida cruzada;
- Alteração importante no céu da boca;
- Posicionamento inadequado da língua;
- Dificuldade de mastigação, fala ou deglutição;
- Respiração predominantemente pela boca;
- Alteração que permanece mesmo depois de o hábito ter sido interrompido.
O odontopediatra acompanha o desenvolvimento desde cedo e, quando necessário, encaminha para avaliação ortodôntica ou ortopédica facial. O cuidado pode envolver ainda fonoaudiólogo e otorrinolaringologista.
A mensagem final da especialista é a de que não é preciso esperar os dentes permanentes nascerem para observar a boca e a face. Quanto mais cedo a alteração é identificada, maior a chance de orientar o crescimento de forma preventiva e menos invasiva.
