Dor intensa em toda amantação, fissuras e a sensação de que o leite não é suficiente estão entre as queixas mais comuns nas primeiras semanas de amamentação e nenhuma delas precisa ser suportada em silêncio. O recado é da ginecologista e obstetra Gisele Maciel, em entrevista à Rede 98 no Agosto Dourado, mês dedicado ao aleitamento materno no Brasil desde 2017.
Mestre em Saúde da Criança e da Mulher, a médica afirma que boa parte das dificuldades iniciais se resolve quando alguém observa uma mamada e corrige o que está acontecendo ali.
Natural não é sinônimo de fácil
A expectativa de que o bebê nasce, é colocado no peito e tudo acontece sozinho não corresponde à experiência de muitas mulheres. “Natural não é sinônimo de fácil. Acho que esse é o primeiro ponto que precisamos deixar claro”, diz Gisele Maciel.
A médica explica que nos primeiros dias, mãe e bebê estão aprendendo juntos. O recém-nascido precisa abocanhar a mama de forma adequada e coordenar sucção, deglutição e respiração. A mãe está se recuperando do parto, dormindo pouco e tentando entender se o bebê mamou o suficiente.
Algumas situações tornam esse começo mais difícil:
- prematuridade;
- separação entre mãe e bebê após o parto;
- pega inadequada;
- ingurgitamento mamário e dor;
- atraso na descida do leite;
- condições clínicas ou anatômicas da mãe ou do bebê.
Para a médica, a primeira resposta a uma mulher com dificuldade não deveria ser pedir que ela “insista mais”. “Precisamos observar, entender o que está acontecendo e ajudá-la de maneira individualizada”, afirma.
Dor forte e fissura não fazem parte do processo
Existe diferença entre uma sensibilidade inicial e sentir dor forte durante toda a amamentação. “Dor forte, fissuras e sangramento não devem ser tratados como um preço que a mulher precisa pagar para conseguir amamentar”, diz a obstetra.
Quando a pega fica concentrada no mamilo, ela provoca trauma e ainda dificulta a retirada do leite. Corrigir essa dinâmica costuma resolver mais do que passar qualquer produto na fissura.
Outra angústia frequente é a suspeita de leite insuficiente. Gisele Maciel afirma que essa percepção precisa ser investigada, e não descartada, mas explica que os sinais mais citados pelas famílias nem sempre indicam falta de leite. Nos primeiros dias, a produção é de colostro, em pequena quantidade e o recém-nascido pode querer mamar muitas vezes, em intervalos curtos. Isoladamente, isso é esperado. Na avaliação profissional, o que se observa é o conjunto: como o bebê mama, se há transferência de leite, a disposição dele, a frequência das eliminações e a evolução do peso.
Quando o complemento é indicado, a médica defende que a conversa aconteça sem culpa. “O complemento, quando indicado, pode proteger a saúde do recém-nascido e não significa necessariamente o fim da amamentação.” Famílias que optam pela alimentação mista ou pela fórmula também precisam de orientação segura.
Quando procurar ajuda especializada
Não é preciso esperar a situação ficar grave. Procure avaliação se houver:
Na mãe
- dor em todas as mamadas;
- fissuras ou sangramento;
- mama muito endurecida e dolorida;
- área avermelhada, quente e dolorosa na mama;
- febre persistente ou mal-estar importante;
- exaustão extrema, angústia ou medo de alimentar o bebê.
No bebê
- muito sonolento e difícil de despertar para mamar;
- não consegue pegar a mama ou solta repetidamente;
- diminuição importante da urina ou sinais de desidratação;
- icterícia acentuada;
- ganho de peso inadequado.
Em Belo Horizonte, a orientação inicial pode ser buscada na maternidade onde o bebê nasceu, na unidade básica de saúde de referência da família ou nos bancos de leite humano, que também atendem dúvidas sobre pega, ordenha e manutenção da produção.
O apoio começa no pré-natal e continua em casa
Gisele Maciel reconhece uma contradição no discurso de incentivo: ao proteger o aleitamento, é possível acabar cobrando demais da mulher. “Amamentar não é uma prova de amor, nem um teste para saber quem é uma boa mãe”, afirma. Há mulheres que não estabelecem a amamentação mesmo com suporte adequado, outras impedidas por condição clínica ou uso de medicamentos, e há quem não deseje amamentar. “Apoio não combina com culpa”, resume.
A conversa sobre amamentação precisa acontecer antes das dificuldades aparecerem e ser realista. A gestante deve conhecer o comportamento esperado do recém-nascido, saber que podem surgir problemas e ter referências claras de onde buscar ajuda. Depois do parto, observar uma mamada inteira costuma esclarecer mais do que uma lista de orientações.
E o papel de quem está em volta é concreto. “Apoiar não é ficar ao lado repetindo ‘você precisa amamentar’. É trazer água, preparar uma refeição, cuidar da casa, trocar o bebê, acolher sem críticas e permitir que aquela mulher durma quando houver oportunidade”, diz.
É esse o recado que ela deixa para o Agosto Dourado. “Dizer ‘amamentar’ é fácil. O que realmente faz diferença é estar presente quando amamentar não está sendo fácil”, afirma Gisele Maciel, e continuar cuidando quando a escolha ou a necessidade for alimentar o bebê de outra maneira.
