Neste mês de junho, dedicado à conscientização sobre o lipedema, fica o alerta: muita mulher convive com a doença sem saber e a confunde com obesidade ou “gordura comum”. O lipedema é uma condição crônica que provoca o acúmulo anormal e desproporcional de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços, e atinge quase exclusivamente mulheres — com forte influência hormonal e genética. Quem explica é o médico Guilherme Jonas, angiologista e cirurgião vascular, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).
Uma doença cercada de confusão e diagnóstico tardio
O grande problema do lipedema é a confusão com a obesidade. Como as duas condições envolvem aumento do tecido adiposo, muitas pacientes passam anos tentando emagrecer as pernas sem entender por que não conseguem — quando, na verdade, estão diante de uma doença do tecido adiposo, e não de uma simples questão de peso.
“O lipedema não é causado por falta de dieta ou de atividade física, o que reforça a importância de um diagnóstico especializado”, destaca Guilherme Jonas. É justamente para furar essa bolha de desinformação que existe o mês de conscientização.
O que é lipedema e por que ele é confundido com gordura comum?
A diferença está no comportamento da gordura. No lipedema, ela tende a ser dolorosa, pesada e teimosa, sem responder da mesma forma ao emagrecimento.
“No lipedema, a gordura se comporta de maneira diferente: costuma ser dolorosa ao toque, provoca sensação de peso nas pernas e nem sempre acompanha o aumento de gordura no restante do corpo”, explica o especialista.
O resultado é uma desproporção corporal característica. Muitas pacientes têm o tronco relativamente mais fino do que os membros inferiores — uma marca registrada da doença.
Os sinais que ajudam a diferenciar o lipedema da gordura comum
A suspeita costuma surgir quando o volume das pernas ou dos braços aumenta de forma desproporcional ao resto do corpo, especialmente quando vem acompanhado de sintomas. Entre os sinais mais comuns estão:
- Dor ou sensibilidade ao toque na região afetada
- Sensação constante de peso nas pernas
- Facilidade para formar hematomas
- Inchaço que piora ao longo do dia
- Dificuldade de perder medidas nos membros mesmo com dieta e exercício
Há ainda um detalhe revelador: os pés costumam ser poupados, o que cria uma transição visível na altura dos tornozelos. “Diferentemente da gordura comum, que tende a reduzir de forma mais uniforme com o emagrecimento, a gordura do lipedema costuma persistir e manter a desproporção”, afirma o cirurgião vascular.
Lipedema melhora com dieta e exercício?
Dieta equilibrada e atividade física regular são fundamentais para a saúde e ajudam a controlar os sintomas — mas não eliminam a doença. É justamente esse ponto que mais frustra as pacientes.
“Muitas pacientes perdem peso no tronco e em outras regiões do corpo sem observar redução proporcional das pernas ou dos braços afetados”, relata Guilherme Jonas.
Segundo o especialista, os exercícios contribuem para melhorar a circulação, preservar a mobilidade e reduzir o desconforto, enquanto uma alimentação saudável ajuda a diminuir processos inflamatórios e a evitar o agravamento do quadro. Ainda assim, o lipedema não deve ser tratado apenas como excesso de peso, porque sua origem e seu comportamento são diferentes dos da obesidade.
Os riscos de não diagnosticar e tratar a doença a tempo
O lipedema não costuma representar risco imediato à vida, mas pode comprometer bastante a qualidade de vida quando ignorado. Sem reconhecimento e tratamento adequados, o quadro pode evoluir com aumento progressivo do volume dos membros, intensificação da dor e limitação para atividades físicas.
Em estágios mais avançados, pode haver comprometimento da mobilidade, sobrecarga das articulações e associação com alterações do sistema linfático, levando ao linfedema secundário. Além disso, há um peso emocional importante: muitas pacientes enfrentam sofrimento pela incompreensão da doença, pela frustração com tentativas repetidas de emagrecimento sem resultado e pelas mudanças na imagem corporal.
O lipedema tem cura? Como deve ser o tratamento?
Atualmente, o lipedema é considerado uma condição crônica e sem cura definitiva conhecida — mas isso não significa ausência de solução. O tratamento é individualizado e mira no controle dos sintomas, na melhora da função dos membros e na qualidade de vida.
Entre as estratégias estão orientação nutricional, prática regular de exercícios adequados, controle de peso, medidas para melhorar a circulação e, em alguns casos, terapias compressivas e fisioterapia especializada. Quando bem indicada e após avaliação criteriosa, a cirurgia de remoção da gordura doente pode ser considerada, sempre por equipes experientes.
“Hoje, consideramos o lipedema uma condição crônica, sem cura definitiva conhecida, mas com várias estratégias capazes de controlar sintomas, retardar a progressão e proporcionar melhora significativa da qualidade de vida”, conclui Guilherme Jonas. Por isso, a avaliação com um angiologista e cirurgião vascular é essencial para confirmar o diagnóstico e definir a melhor abordagem para cada paciente.
