Entre influenciadoras, cantoras e atrizes, um tipo de procedimento estético tomou conta das redes sociais nos últimos anos e virou objeto de desejo de quem busca um corpo mais “desenhado”: a remodelação glútea. Mas, afinal, o que está por trás dessa febre — e quais cuidados ela realmente exige?
Em poucas palavras, a remodelação glútea reúne diferentes recursos da medicina estética voltados para aprimorar o formato dos glúteos, oferecendo mais sustentação, definição e equilíbrio das proporções corporais. O que mudou — e ajuda a explicar a popularização — foi o avanço das técnicas, que hoje permitem tratar de uma só vez questões como flacidez, perda de volume e irregularidades da região, com resultados mais naturais e personalizados.
Para entender a tendência e, principalmente, os alertas que vêm junto com ela, a Rede 98 conversou com o dermatologista mineiro Lucas Miranda e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
Por que a remodelação glútea virou febre
O crescimento da procura tem relação direta com a busca por resultados mais discretos e sob medida, que valorizem o contorno do corpo sem necessariamente exigir uma intervenção cirurgica de grande porte.
Os avanços tecnológicos também pesam. As abordagens atuais ficaram mais sofisticadas e conseguem corrigir vários aspectos ao mesmo tempo, o que tornou o procedimento mais atraente para personalidades e criadoras de conteúdo — justamente o público que ajuda a transformar uma técnica em tendência.
Do bisturi à seringa: a diferença entre o cirúrgico e o não invasivo
Quando se fala em “dar mais volume aos glúteos”, existem dois grandes caminhos, e eles não são equivalentes. A principal diferença está na intensidade da intervenção e na forma como o resultado é alcançado.
Os métodos não cirúrgicos usam substâncias ou tecnologias capazes de melhorar a estrutura dos tecidos e proporcionar ganho de contorno sem internação nem afastamento prolongado das atividades. Já as técnicas cirúrgicas promovem alterações mais significativas na anatomia da região, geralmente por meio da transferência de gordura do próprio paciente ou de outras técnicas reconstrutivas.
Na prática, isso significa uma troca: os procedimentos menos invasivos costumam oferecer recuperação mais rápida, enquanto as cirurgias entregam mudanças mais expressivas — em compensação, exigem um período maior de cuidados no pós-operatório.
Quem pode fazer — e quem deve evitar
De acordo com o Dr. Lucas, não existe resposta única sobre quem pode ou não fazer o procedimento: a indicação depende de uma avaliação individualizada. De modo geral, o procedimento pode beneficiar pessoas que desejam aperfeiçoar o contorno corporal ou corrigir alterações ligadas ao envelhecimento e à perda de firmeza dos tecidos.
Por outro lado, há situações que pedem cautela redobrada. Pessoas com determinadas condições clínicas, com processos infecciosos em atividade ou em circunstâncias que aumentem o risco de complicações precisam ser cuidadosamente avaliadas antes de qualquer decisão. Histórico médico, uso contínuo de medicamentos e as próprias características anatômicas da região também entram em conta.
PMMA: o material permanente no centro da polêmica
É aqui que a conversa sobre estética encontra um dos alertas mais sérios da dermatologia. Entre as substâncias usadas em remodelação corporal está o PMMA (polimetilmetacrilato) — e é justamente em torno dele que se concentra boa parte das complicações graves relatadas nos últimos anos.
Ao contrário do que muita gente imagina, o material não é proibido no país. “O PMMA é um material utilizado há décadas na medicina e não está proibido no Brasil”, esclarece Lucas Miranda. O problema, segundo ele, está no uso para fins estéticos, especialmente em grandes volumes corporais, em regiões como glúteos, coxas e panturrilhas.
A grande diferença em relação a preenchedores como o ácido hialurônico é a permanência. “Diferentemente dos preenchedores absorvíveis, o PMMA é considerado um material permanente. Isso significa que, uma vez aplicado, ele permanece no organismo indefinidamente”, explica o dermatologista. Existem, sim, indicações médicas específicas e regulamentadas — em pequenas correções de volume e em situações muito particulares —, mas a aplicação de grandes quantidades é o que acende o sinal vermelho.
A lista de possíveis complicações é longa e preocupante: inflamações crônicas, formação de nódulos, endurecimento dos tecidos, assimetrias, infecções, migração do produto, deformidades e, em casos mais graves, necrose e embolias. Mais grave ainda é o fator tempo. Segundo Lucas Miranda, as complicações podem aparecer anos depois do procedimento, quando o tratamento já se tornou extremamente complexo — e a remoção completa do produto, muitas vezes, sequer é possível, exigindo múltiplas cirurgias e tratamentos prolongados.
Por isso, as principais sociedades médicas recomendam extrema cautela na indicação do PMMA para fins estéticos, sobretudo quando a proposta é um grande aumento de volume.
Como se proteger: o que saber antes de fechar o procedimento
O primeiro sinal de alerta é simples de identificar. “Desconfie de promessas de resultados muito expressivos com procedimentos apresentados como simples, rápidos e de baixo custo”, recomenda Lucas Miranda. Não é raro que aplicações de grandes volumes de PMMA sejam vendidas como uma alternativa mais barata à cirurgia tradicional — sem que os riscos sejam devidamente explicados.
Antes de qualquer aplicação, o paciente deve fazer perguntas diretas: qual é exatamente o produto utilizado, qual o seu nome comercial, se ele tem registro nos órgãos reguladores competentes e se todas essas informações vão constar no prontuário e no termo de consentimento. Vale ainda perguntar, sem rodeios, se o produto é permanente ou absorvível e quais são as possíveis complicações a curto e longo prazo.
Há relatos de pacientes que acreditavam estar recebendo um produto absorvível e só depois descobriram que haviam recebido PMMA. Para o médico, é uma questão de direito básico: “O paciente tem o direito de saber exatamente qual substância será aplicada em seu corpo.” Em uma remodelação glútea, isso significa esclarecer se será usado ácido hialurônico corporal, bioestimuladores de colágeno, gordura do próprio paciente (lipoenxertia) ou PMMA — e exigir que tudo esteja documentado por escrito.
O comportamento do profissional na consulta também é um termômetro. Um médico que minimiza as complicações ou promete resultados permanentes sem mencionar os riscos deve ser visto com desconfiança. Uma explicação equilibrada, que apresente benefícios e perigos com a mesma clareza, é sinal de um atendimento responsável.
Quando não há treinamento adequado nem estrutura compatível com a complexidade do procedimento, as chances de intercorrência disparam. Entre os problemas possíveis estão infecções, alterações permanentes do contorno corporal, reações inflamatórias importantes e complicações ligadas ao uso de produtos sem procedência comprovada.
Nos casos mais graves, o paciente pode precisar de tratamentos corretivos extensos e até de cirurgias para reparar os danos. A orientação, portanto, é colocar segurança e qualificação acima de qualquer outro critério. A decisão nunca deve se basear apenas em preço ou em imagens divulgadas nas redes sociais — e a melhor ferramenta de proteção continua sendo uma consulta médica detalhada, com transparência sobre os materiais, expectativas realistas e discussão completa dos riscos.
