Minas Gerais tem um talento especial para transformar movimentos burocráticos em terremotos silenciosos. A notícia de que, em menos de duas horas, o presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Martins Leite (MDB), colheu 43 assinaturas, maioria folgada, para se lançar candidato a uma vaga no Tribunal de Contas do Estado não é só uma demonstração de força. É um retrato de como a política mineira gosta de resolver conflitos, com consenso prévio, porta fechada e placar pronto.
O dado mais revelador nem é a velocidade. É o método. Tadeu trabalhou antes pelo acordo, conversou com potenciais concorrentes e só entrou no jogo depois que o tabuleiro já estava alinhado para evitar disputa pública. Ou seja: não foi uma corrida. Foi uma procissão em que ele já carregava o andor.
O que está em jogo de verdade
A vaga em disputa foi aberta com a aposentadoria do ex-conselheiro Wanderley Ávila, ainda em outubro de 2024. A ALMG abriu o processo de escolha no começo de fevereiro, com prazo de inscrição até 24 de fevereiro. E, nesse roteiro, Tadeu aparece como quem entra para resolver, mas, claro, resolve também o próprio destino.
Há um detalhe com cheiro de 2026 no ar. Essa decisão tira Tadeu da disputa eleitoral de outubro, onde ele era cotado como nome forte para composições majoritárias, Senado ou chapa ao governo. Ao migrar para o TCE, ele troca a incerteza da urna por um posto de estabilidade institucional. É a política escolhendo a previsibilidade, e, sejamos honestos, escolhendo também um tipo de poder que não precisa pedir voto.
Quando um presidente da Assembleia, reconhecido pela habilidade política, sai do jogo eleitoral para ir ao Tribunal de Contas, ele não está saindo da política. Ele está mudando de lugar e indo para onde a porta tem menos barulho e mais chave.
A sucessão na ALMG
Essa candidatura a uma vaga no TCE dá a Tadeu tranquilidade para trabalhar o nome de um sucessor na presidência da Assembleia. Ao garantir o TCE, ele abre espaço para comandar, ainda que por tabela, o próximo ciclo de poder interno da Casa.
E sucessão na ALMG não é briga por crachá. É o centro de gravidade do Estado, é quem faz a pauta, ritmo de votações, relacionamento com o Executivo, distribuição de relatorias, emendas, comissões, alianças. Isso é ouro, traz influência, palanque, estrutura, capilaridade e narrativa.
Hoje, existem duas vagas abertas para indicação do Legislativo estadual no TCE-MG, e uma terceira, aberta em 2025, ainda aguarda indicação. Existem nomes potenciais para essa última vaga, como os deputados Thiago Cota (PDT), Ulysses Gomes (PT), Ione Pinheiro (PP) e Sargento Rodrigues (PL), gente de perfis e campos distintos, o que mostra que o TCE virou um ponto de convergência raro. Quando o assunto é cadeira vitalícia, a ideologia costuma falar mais baixo.
Se eleito, Tadeu pode se tornar um dos conselheiros mais longevos do tribunal, pela idade e pelo desenho do cargo. Não é detalhe biográfico: é cálculo de poder no longo prazo.
Tribunal de contas não pode ser prêmio de consolação.
O TCE fiscaliza contas, contratos, políticas públicas, licitações. Quando ele vira destino natural de caciques do Legislativo, o Estado flerta com uma pergunta incômoda: quem fiscaliza o fiscal quando o fiscal foi eleito no mesmo circuito de favores que ele deveria vigiar?
Não estou dizendo que alguém é incapaz por ter sido deputado. Estou dizendo que o arranjo cria um incentivo permanente para a política tratar o TCE como estágio final de carreira, um lugar de estabilidade e influência, com baixa exposição e alta relevância. E, nesse cenário, o consenso pode ser menos virtude mineira e mais sintoma: consenso é ótimo, desde que não seja sinônimo de ninguém querer discutir porque todo mundo ganha.
O recado para 2026
Essa movimentação acontece justamente quando Minas começa a afinar instrumentos para a eleição estadual. Ao sair do radar eleitoral, Tadeu abre espaço e reorganiza expectativas. No interior do MDB, na costura com outras siglas, na própria Assembleia e na relação com o governo. Isso mexe com candidaturas, com alianças e com o tempo das decisões.
E tem um componente psicológico: quando o presidente da ALMG demonstra que consegue maioria em duas horas, ele manda um recado para aliados e adversários. Não é só, eu vou ao TCE. É, eu tenho a casa na mão.
Minas segue sendo Minas
A política mineira continua fiel ao seu estilo, evitando duelos em praça pública, preferindo o acordo prévio, gostando de resolver no bastidor para apresentar ao povo o resultado já embrulhado, com laço e etiqueta. O movimento de Tadeu Leite ao TCE é coerente com essa gramática.
Mas a democracia não se alimenta apenas de eficiência. Ela precisa de transparência, de debate real, de conflito civilizado à luz do dia. Tribunal de contas não é camarote; é cabine de controle. E, quando as cadeiras de controle são ocupadas por quem dominou o palco, o Estado precisa redobrar a vigilância, para que a fiscalização não vire apenas um capítulo bem escrito de um grande romance mineiro chamado “O acordo”.
