Consideradas por muitos como o “novo petróleo”, as terras raras deixaram de ser apenas nomes complexos na tabela periódica para se tornarem o centro de uma disputa geopolítica e tecnológica global. Compostas por 17 elementos químicos, elas são fundamentais para a fabricação de tecnologias de ponta, incluindo baterias de alta performance, semicondutores, equipamentos de defesa e tecnologias de energia limpa.
Nesse cenário, o Brasil desponta como um jogador estratégico, detendo a segunda maior reserva conhecida no mundo desses minerais. Contudo, o desafio do país vai além da extração: o foco agora é transformar esse tesouro bruto em riqueza e soberania tecnológica.
A geopolítica do poder e o papel do Brasil
A corrida pelas terras raras é alimentada principalmente pela tensão entre as duas maiores potências econômicas do mundo: Estados Unidos e China. Em um contexto de crescente protecionismo chinês, o Brasil ganha relevância como um parceiro estratégico para o ocidente.
Para Wilson Mendonça, professor de relações internacionais da Skema Business School, a posição brasileira é de extrema competitividade, mas exige cautela estratégica:

“O Brasil se encontra numa posição de extrema competitividade por causa das reservas, porém essas reservas precisam ser melhor mapeadas. (…) O Brasil ganha uma posição de destaque na via de negociação com os Estados Unidos. O problema é que isso não necessariamente nos coloca em uma posição de extremo destaque [imediato], porque o simples fato dessas terras já terem sido mapeadas não nos permite agora termos tecnologia nacional ou sob o controle brasileiro para conseguir material elaborado e insumos.”
Minas Gerais como hub de inovação e pesquisa
Atualmente, o Brasil possui 19 projetos ativos voltados ao estudo de terras raras, e o estado de Minas Gerais concentra quase metade desse esforço, com oito projetos em fase de pesquisa e desenvolvimento. Um dos pilares dessa estratégia é o CIT SENAI ITR (Instituto de Tecnologia em Terras Raras), que recebeu mais de R$ 100 milhões em investimentos para desenvolver tecnologia própria.
O foco central é o projeto MAGBRAS, a maior iniciativa nacional para a produção de terras raras, cujo objetivo final é a fabricação de ímãs permanentes. Eduardo Neves, pesquisador do ITR, detalha o estágio atual:

“Hoje nós estamos na fase de ramp-up da fábrica. Estamos colocando cada um dos equipamentos para funcionar, escalando cada etapa. (…) Dentro desses três anos de projeto, a ideia aqui é produzir até 10 toneladas de material.”
O desafio da cadeia produtiva e a transição energética
O grande objetivo do Brasil não é apenas exportar o minério bruto, mas dominar a separação dos elementos e a fabricação de componentes complexos, como os ímãs utilizados na transição energética mundial. A previsão é que o ITR tenha capacidade de produzir até 100 toneladas de ímãs de terras raras até 2030.
José Luciano Pereira, gerente geral de inovação e tecnologia do SENAI, enfatiza a importância da autonomia nacional:

“O que nós esperamos é demonstrar que o Brasil é capaz de produzir ímãs permanentes de terras raras com matéria-prima nacional, com conhecimento nacional, com empresas e indústrias nacionais interessadas nesse processo produtivo, colocando Minas Gerais e o país à frente de uma cadeia global interessada nesse tipo de componente, que é um elemento da transição energética mundial extremamente relevante.”
Investimentos e o caminho para o futuro
Para que o potencial das terras raras se concretize, especialistas apontam que é fundamental uma integração entre a iniciativa privada e o setor público. Atualmente, empresas privadas já destinam cerca de R$ 10 bilhões em investimentos para estudos no setor em Minas Gerais.
O governo estadual já trabalha no desenvolvimento de um plano específico para minerais críticos, visando criar um ambiente de negócios favorável que impeça que o Brasil apenas exporte matéria-prima para comprá-la de volta na forma de produtos caros e industrializados. Embora a produção em larga escala ainda demande alguns anos para se consolidar, o horizonte de 5 a 10 anos é visto com otimismo para a consolidação dessa nova indústria nacional.