PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Liberdade vigiada: o STF e o fim do Artigo 19

Siga no

IMAGEM ILUSTRATIVA (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Compartilhar matéria

Numa verdadeira democracia, os Poderes da República formam um sistema de freios e contrapesos. Cada um com seu papel, sua fronteira, seu limite. Mas, quando um poder se expande além da sua alçada, o que era equilíbrio institucional vira ameaça à própria liberdade.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal de derrubar o Artigo 19 do Marco Civil da Internet é um desses desequilíbrios silenciosos. Usando o argumento de proteger a democracia e promover o combate à desinformação, o STF rasga um dos pilares que garantiam o mínimo de racionalidade no ambiente digital.É o enfraquecimento da democracia por dentro.

O Artigo 19 estabelece, ou melhor, estabelecia, uma regra simples e civilizatória: plataformas digitais só podiam ser responsabilizadas por conteúdos gerados por terceiros se, após decisão judicial, não os removesse. Essa exigência era um freio contra o voluntarismo, contra o arbítrio das big techs e também contra linchamentos virtuais movidos por má-fé. Garantia segurança jurídica, previsibilidade, respeito ao devido processo legal e, acima de tudo, liberdade de expressão.

Com a decisão do Supremo, esse pacto foi rompido. Agora, as plataformas devem agir por conta própria, sob risco de punição. E o que se chama de “responsabilização proativa” é, na prática, um convite à censura preventiva. Melhor calar do que arriscar. Melhor excluir o que é polêmico do que enfrentar um tribunal. O resultado? Um ambiente onde o medo governa o discurso.

Cada ministro do STF, em sua própria lógica, apresentou um modelo diferente de controle. Nenhum passou pelo Congresso. Nenhum foi submetido ao desejo popular. Pior ainda, alguns ministros ainda sugerem criar conselhos, autarquias ou órgãos de fiscalização. Mecanismos de controle que são sempre usados em estado de exceção.

O STF se coloca acima do Parlamento, ocupando o vácuo legislativo com decisões monocráticas. A toga, quando se imagina iluminista, esquece que não foi feita para escrever leis, e, menos ainda, silenciar o povo em nome do bem.

Se desejamos no Brasil uma verdadeira democracia, precisamos, urgentemente, colocá-la no eixo. A liberdade de expressão é a alma do regime democrático, e não uma concessão condicional à interpretação de onze ministros. É hora do Congresso retomar seu papel. Porque onde o medo impera, o debate morre. E sem debate, não há democracia, só silêncio oficializado.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de Colunistas

A experiência de conhecer um Club Med no Brasil

O PL mineiro entre a prudência pública e a confusão dos bastidores

Adeus, Internet

18 de junho o dia do Químico: o profissional que transforma o invisível em progresso

5 destinos com águas termais no Brasil

Monte Verde, o melhor destino de inverno do Brasil

Últimas notícias

PF conclui que Flávio Bolsonaro cometeu calúnia contra Lula e envia caso ao STF

Lab-to-Lab Pardini leva inovação e debates sobre medicina diagnóstica ao CBAC 2026

Modelo brasileira está entre as vítimas dos terremotos na Venezuela

EUA bombardeiam Estreito de Ormuz, após Trump acusar Irã de violação de cessar-fogo

Vôlei: Brasil é superado pela Itália, seu 2º revés na Liga das Nações

Justiça suspende processo de cassação de Lucas Ganem na Câmara de BH

Senegal goleia Iraque e fica vivo em disputa para o mata-mata da Copa

Bolsonaro tem picos de pressão alta durante a semana, diz boletim médico

Com hat-trick de Dembelé, França vence a Noruega e garante classificação invicta na Copa do Mundo