O PL em Minas Gerais começa a viver uma daquelas situações em que o problema já não é apenas escolher um candidato ao governo do estado. O problema passa a ser demonstrar que existe comando, rumo e capacidade de decisão.
Nas últimas semanas, o partido disse, desdisse, sinalizou, recuou, acenou, ensaiou e voltou ao ponto de partida. Ora parecia caminhar para um entendimento definitivo com Cleitinho Azevedo. Ora deixava claro que poderia lançar candidatura própria. Ora surgiam nomes empresariais no radar. Ora voltava a impressão de que tudo dependia do senador do Republicanos.
Essa dança pode até fazer parte da política. Mas, quando se prolonga demais, deixa de ser estratégia e começa a parecer desorganização. Minas gosta de conversa longa, café passado devagar e acordo costurado em silêncio. Mas até a paciência mineira tem limite. E, no caso do PL, o café já está esfriando.
A informação de bastidor obtida por esta coluna é que setores importantes do partido começam a se irritar com a indefinição de Cleitinho Azevedo. O senador é popular, comunica-se bem, fala direto com uma parcela expressiva do eleitorado e aparece como nome competitivo para a disputa pelo governo de Minas. Isso ninguém sério ignora. Mas popularidade não é um cheque em branco. Partido político não pode ficar indefinidamente suspenso no ar, esperando que um possível aliado decida se quer ou não quer, se vai ou não vai, se assume ou apenas flerta com a candidatura.
Segundo interlocutores ouvidos por esta coluna, Vittorio Medioli, empresário, ex-prefeito de Betim e ex-deputado federal, decidiu interferir mais diretamente nessa discussão. A avaliação atribuída a ele é objetiva. O PL não pode ficar refém da decisão de Cleitinho. Se o senador quiser caminhar com o partido, precisa dizer. Se não quiser, o PL deve seguir seu próprio caminho.
Essa posição, segundo os mesmos bastidores, não está isolada. Flávio Roscoe, empresário e ex-presidente da Fiemg, também estaria irritado com a demora de Cleitinho em definir seu rumo. Roscoe, assim como Medioli, aparece no tabuleiro como nome lembrado dentro do PL para compor ou até liderar uma alternativa própria.
O PL quer ser protagonista ou coadjuvante?
Até aqui a legenda parece presa a uma contradição. Quer construir um palanque forte para a eleição nacional em Minas, mas não define quem representará esse palanque no estado. Quer ter candidatura competitiva, mas aguarda a decisão de um nome que nem pertence ao partido. Quer atrair empresários, lideranças políticas e estrutura, mas passa a impressão de que todos estão aguardando Cleitinho terminar sua reflexão particular.
Em política, tempo também é poder. Quem controla o relógio controla parte do jogo. E, neste momento, a impressão nos bastidores é que Cleitinho controla o relógio do PL mineiro.
O desenho do incômodo
Publicamente, porém, o discurso do partido ainda tenta vestir a indefinição com a roupa elegante da prudência. Em entrevista ao repórter Rafael Mendonça, da 98 News, o deputado federal Domingos Sávio, ex-presidente estadual do PL e pré-candidato ao Senado, afirmou que o partido espera uma definição oficial de Cleitinho antes de avançar com outro nome próprio para o governo de Minas.
Domingos disse que o PL já declarou apoio a Cleitinho e que, se ele for candidato, a legenda está pronta para caminhar junto. Também afirmou que não seria coerente lançar outro nome antes de ouvi-lo, porque isso poderia parecer retirada de apoio. Segundo ele, Cleitinho pediu mais alguns dias para tomar uma decisão. A convenção do partido está marcada para 25 de julho.
Domingos Sávio tenta preservar a ponte com Cleitinho. Tenta evitar o rompimento prematuro. Tenta manter o ambiente de unidade na direita mineira. Mas a entrevista, ao mesmo tempo em que busca transmitir serenidade, confirma o ponto central desta coluna: o PL está esperando Cleitinho.
Esperar por Cleitinho pode ter um preço
Domingos Sávio também afirmou, na mesma entrevista à 98 News, que o PL terá candidatura própria caso Cleitinho decida não disputar o governo. Citou Flávio Roscoe como uma liderança relevante e um dos nomes possíveis para a disputa. Também mencionou Vittorio Medioli como outro possível pré-candidato, lembrando sua experiência na vida pública, como gestor de Betim, e na iniciativa privada.
O discurso oficial do PL já admite o que os bastidores vêm dizendo com menos filtro. Roscoe e Medioli estão no jogo. Não necessariamente como nomes definidos, mas como alternativas reais para o caso de Cleitinho não sair do muro.
O problema é que, quando um partido afirma que “sabe o que está fazendo”, como disse Domingos Sávio, precisa também demonstrar isso com atos. E, até aqui, o PL mineiro tem parecido mais um partido administrando versões do que conduzindo uma estratégia.
Num dia, o partido apoia Cleitinho. No outro, testa nomes próprios. Depois, diz que não quer retirar apoio. Em seguida, afirma que terá candidato se Cleitinho não confirmar. Logo depois, volta a dizer que aguarda mais alguns dias. É um zigue-zague político que pode até ter explicação interna, mas para fora transmite instabilidade.
Instabilidade pode ser veneno
A hipótese que cresce dentro da legenda, por pressão desses setores, é a construção de uma chapa própria. Há quem defenda até uma chapa pura, com candidato a governador do PL e vice também do PL. Seria uma forma de marcar posição, organizar a tropa, dar identidade ao projeto e mostrar que o partido não depende de bênção externa para disputar Minas Gerais.
Uma chapa pura, claro, tem riscos. Pode dar clareza, mas também pode estreitar alianças. Pode fortalecer a marca partidária, mas reduzir o campo de composição. Pode agradar a militância, mas exigir musculatura eleitoral que o partido precisará provar que tem.
Por outro lado, ficar esperando demais também cobra preço. E talvez cobre um preço ainda mais alto.
O PL já viveu em Minas a experiência de confusão de palanque. Quando a direita não organiza sua própria casa, o eleitor percebe. E percebe rápido. O eleitor pode até não acompanhar reunião de executiva, conversa de bastidor ou jantar político, mas sente quando um partido não sabe se quer comandar a fila ou apenas guardar lugar para alguém que talvez nem apareça.
Agora, a legenda tem diante de si uma decisão que vai além de nomes. Roscoe, Medioli, Cleitinho ou qualquer outro personagem são peças de um problema maior, o PL mineiro precisa decidir se será um partido com comando ou uma estação de espera.
A irritação de Medioli e Roscoe, segundo os bastidores, revela justamente isso. Eles não estão apenas incomodados com Cleitinho. Estão incomodados com a paralisia que a indefinição de Cleitinho produz dentro do partido.
Cleitinho tem todo o direito de medir o cenário, consultar aliados, avaliar pesquisas e decidir o próprio futuro. O que o PL não pode é entregar a ele a chave do seu próprio calendário. Uma coisa é negociar. Outra é terceirizar a decisão.
Nos bastidores, a pressão por uma definição ficou mais forte. A leitura é que, se Cleitinho quiser ser o nome apoiado pelo PL, precisa assumir esse caminho. Se quiser manter distância, preservar alternativas ou empurrar a decisão para mais adiante, o partido deve parar de esperar e colocar sua própria chapa na rua.
O curioso é que essa crise ocorre num momento em que a direita mineira poderia estar discutindo programas, propostas, economia, segurança, infraestrutura, saúde, educação e desenvolvimento regional. Mas, em vez disso, discute quem vai esperar quem.
Esperar é muito pouco para Minas
A entrevista de Domingos Sávio à 98 News tenta organizar o discurso público. Mas os bastidores mostram outra temperatura. A fala oficial é de prudência. A conversa reservada é de impaciência. O partido diz que sabe o que está fazendo. Mas parte dele já cobra que esse saber vire decisão.
A informação desta coluna é que o PL chegou a uma encruzilhada: ou Cleitinho decide, ou o partido terá de decidir por ele.
E, nesse tipo de jogo, a dúvida também é uma forma de decisão. Só que quase sempre é a pior delas.
