PUBLICIDADE
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Projeto inútil, aplauso fácil

Siga no

Carnaval de BH (Julia Lanari/Divulgação)

Compartilhar matéria

Belo Horizonte entra em mais um Carnaval, festa popular, democrática, plural, e a Câmara Municipal resolve brincar de babá. O Projeto de Lei nº 11/2025, que tenta proibir a presença de crianças em eventos culturais e carnavalescos considerados inadequados, é o retrato acabado de uma política preguiçosa: muita pose moral, pouco resultado concreto

A vereadora Marcela Trópia, em seu posicionamento sobre o projeto, acertou o alvo. Não porque o tema da proteção à infância seja irrelevante, ele é central, mas porque o projeto confunde proteção com tutela estatal excessiva. Em bom português: o vereador quer substituir o pai e a mãe. Quer decidir por eles. Quer legislar sobre o óbvio.

A cidade já tem instrumentos legais mais do que suficientes. O Estatuto da Criança e do Adolescente existe. A classificação indicativa existe. A responsabilidade dos pais existe. Criar uma lei municipal para reafirmar o que já está normatizado é legislar para a plateia, não para a cidade.

E o timing não é inocente. Colocar esse projeto em votação às vésperas do Carnaval é um afago calculado em nichos eleitorais específicos. Um carinho retórico nas bases que rende curtidas, mas não resolve buraco, não melhora transporte, não organiza ambulantes, não reforça a segurança, não limpa a cidade depois da festa.

Pior ainda. O texto ignora a realidade do Carnaval de BH. Há blocos infantis, há eventos familiares, há circuitos pensados exatamente para crianças. A lei joga tudo no mesmo balaio, cria insegurança jurídica para organizadores e transfere ao poder público uma função que ele nunca desempenhou bem. Vigiar escolhas privadas feitas de forma responsável.

Projetos assim não protegem crianças. Protegem discursos. São confortáveis, barulhentos e inócuos. Enquanto isso, Belo Horizonte segue com problemas reais esperando atenção: mobilidade precária, fiscalização falha, serviços públicos capengas, planejamento urbano deficitário.

Escolher onde uma criança pode ou não estar é tarefa dos pais. O Estado deve informar, orientar e garantir segurança, não infantilizar a sociedade para agradar ao eleitorado. BH precisa de vereadores que enfrentam problemas. Não de leis que só servem para pousar bem na foto.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de Colunistas

STJ esclarece o marco inicial da prescrição no Simples Nacional

Teto constitucional. A regra vira enfeite e o privilégio vira política

Quem ganha com o ‘piti’ em Araçuaí?

Responsabilidade social vira estratégia para empresas

Mais de 60% misturam finanças pessoais e da empresa

Carro elétrico polui menos? Depende da energia usada

Últimas notícias

‘Skin’ de Carnaval: especialistas dão dicas essenciais para proteger a pele durante a folia

Flávio Dino autoriza mineração sob controle indígena em terras demarcadas

Vereador suspende projeto sobre Legendários na Defesa Civil e cita politização nas redes sociais

Após acusação de assédio, ministro do STJ pede licença e se afasta do cargo

Anvisa e MPF assinam acordo para combater cigarros eletrônicos

Carnaval em conta: foliões de BH devem gastar até R$ 150 com adereços e fantasias

Quebra do sigilo do Banco Master sai da pauta da CPMI do INSS

Folia eletrônica: Atração internacional agita bloco gratuito em Contagem

Dino determina corte de ‘penduricalhos’ de servidores sem previsão legal em 60 dias