PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Lula, Renan e Lira: a foto que diz mais pelo que esconde do que pelo que mostra

Siga no

(Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Compartilhar matéria

Há fotos que valem por mil palavras, e há fotos que valem por mil ausências. A imagem celebrada no noticiário, em que Lula aparece ladeado por Renan Calheiros e Arthur Lira para anunciar a isenção de IR até R$5 mil, pertence a essa segunda categoria. É o típico registro político que tenta construir clima de unidade, mas que entrega, com igual força, os silêncios, os incômodos e os recados não ditos.

Não estavam lá Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e protagonista das tensões mais recentes com o Planalto. E essas ausências pesam tanto quanto os sorrisos presentes.

O palco da foto: Renan e Lira como fiadores 

Renan Calheiros e Arthur Lira surgem como os fiadores da novidade que atinge diretamente milhões de brasileiros, a tão esperada correção da faixa de isenção. Um aceno importante? Sim. Um avanço atrasado? Com certeza. Mas a opção por esses dois como “protagonistas” revela mais sobre o momento político de Lula do que sobre o alívio real no bolso do trabalhador.

Lira vive seu momento de reconstrução de poder e de narrativa, tentando recuperar terreno após meses turbulentos. Renan, experiente como poucos na política de sobrevivência, sabe exatamente quais fotos valem capital futuro.

A imagem dá a impressão de harmonia, mas é apenas isso, impressão.

Hugo Motta não estava na foto, e não é porque faltou convite. É porque falta clima. Parceiro de Lula em votações tem se distanciado deliberadamente do governo. A relação sofreu desgastes recentes, e a ausência de Motta no anúncio de uma medida que deveria ser “suprapartidária” evidencia que uma relação confiável com Motta está cada vez mais difícil. Motta, em rota de colisão com o líder do PT na câmara, Lindbergh Farias, se distancia cada vez mais do Planalto.

A ausência mais eloquente, porém, é a de Davi Alcolumbre, provavelmente o ator político mais sensível no tabuleiro atual de Brasília.

Alcolumbre está num cabo de guerra público com Lula desde a indicação de Jorge Messias ao STF. Sentiu-se atropelado, preterido e desconsiderado pelo Planalto, e está retribuindo com o que tem, controle da pauta, gestos calculados e recados silenciosos.

Não aparecer ao lado do presidente num anúncio que mexe diretamente com o orçamento federal é um desses recados. Diz que a relação está estremecida; que o Senado não está alinhado; que a pauta fiscal não será conduzida sob clima de harmonia; e que Lula perde a confiança de boa parte dos senadores.

A isenção existe, mas a política em torno dela é instável

Não há demérito em corrigir a faixa de isenção do Imposto de Renda. É necessário, justo e tardio. O problema não é a medida; é o contexto.

O governo Lula tenta vender o gesto como política pública sólida, mas ele é marcado por improviso, pressão e uma disputa subterrânea por protagonismo. A foto funciona como tentativa de reconstruir narrativa, especialmente após semanas de desgaste.

Mas, sem Motta e sem Alcolumbre, o retrato perde enquadramento. Fica evidente que o Planalto depende de aliados eventuais, não de parceiros estratégicos; e que líderes centrais que deveriam estar ao lado do presidente preferiram ficar de fora.

O anúncio da isenção até R$ 5 mil agrada, tem impacto popular e rende manchetes fáceis. Mas ninguém governa só com manchete, e muito menos com foto.

O que se viu foi uma imagem cuidadosamente composta, porém politicamente vazia. Uma tentativa de gerar clima de unidade num momento em que o próprio Congresso mostra, dia após dia, que o governo perdeu a capacidade de articular com consistência.

A foto é boa, mas o cenário nem tanto, e as ausências dizem tudo.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

Caso Lucas Ganem: o mandato sob suspeita e a vergonha da legislação eleitoral brasileira

Glifosato: A morte mora ao lado?

Paulo Leite: O palanque mineiro de Flávio Bolsonaro passa por Flávio Roscoe

Dia Mundial do Leite: comemorar, sim, mas sem fingir que está tudo bem

Kalil se encontra com presidente nacional do PT, mas diz: “Nada mudou”

Sábado: o dia em que até Deus pediu licença

Últimas notícias

PT lança carta para evangélicos, evita pautas de costumes e reforça programas de Lula

‘Não é fácil suceder Lula’, diz Erika Hilton sobre futuro da esquerda

Após impor sigilo de 100 anos em processos de bets, Fazenda recua e promete transparência

BH suspende vacinação contra dengue com imunizante do Butantan após orientação federal

Jarbas defende renegociação do Propag: ‘a mesa estava contaminada pela política’

‘Terras raras são o ouro do século XXI’, diz Jarbas Soares ao defender mineração responsável em MG

‘Não sou de esquerda, nem de direita’, diz Jarbas Soares

Wilton Pereira Sampaio apitará abertura da Copa do Mundo de 2026

Jarbas revela decepção e critica Zema: ‘me colocou para sair pela porta dos fundos’