A busca por terras raras consolidou-se como um dos temas mais estratégicos da transição energética e da indústria de alta tecnologia mundial. Diante da extrema necessidade desses materiais para o desenvolvimento de produtos de energia limpa e eletrônicos avançados, setores especializados já defendem que o termo seja substituído por “terras essenciais”.
O crescimento desse mercado é acelerado. Um levantamento da Agência Internacional de Energia (AIE) revela que a demanda global, que foi de 94 mil toneladas em 2024, deve saltar para 123 mil toneladas em 2030 e alcançar 150 mil toneladas em 2040. Nesse cenário de consumo crescente, o Brasil surge como um caminho alternativo e estratégico no tabuleiro internacional.
A corrida pelas terras essenciais
A urgência por novas fontes de suprimento ganhou força nos últimos dois anos, impulsionada pelas políticas de restrição de exportação adotadas pela China, que domina o setor. Estimas da AIE apontam que, caso o governo chinês implemente integralmente esses controles, a economia global sofreria um impacto devastador de US$ 6,5 trilhões por ano. Os Estados Unidos e a Europa seriam os maiores prejudicados, registrando perdas anuais de US$ 1,5 trilhão cada.
É justamente nesse cenário de vulnerabilidade internacional que o Brasil ganha relevância aos olhos das potências ocidentais.
O Brasil e a disputa entre superpotências
Com o acirramento das tensões comerciais, o Brasil se posiciona de forma estratégica entre a China e os Estados Unidos. De acordo com o economista e colunista da 98 News, Gustavo Andrade, o país precisa ir além de decisões imediatistas de extração básica para conseguir se posicionar de forma relevante na nova ordem geoeconômica:

“Simplesmente olhar para decisões de curto prazo que sejam (…) um processo de mineração aqui de lítio e etc ou qualquer outra coisa do tipo… isso não vai tirar a gente do lugar. E tem que colocar o Brasil no meio de dois grandes players, que é Estados Unidos e que é China. (…) A gente não sabe quem é o ganhador específico dessa nova corrida de ‘Guerra Fria’ (…), mas o Brasil é um jogo muito importante para ambos”.
O desafio de avançar na industrialização
Especialistas alertam que possuir reservas minerais não garante o domínio da cadeia produtiva; o verdadeiro valor reside na capacidade de processamento e transformação industrial do minério. Atualmente, o projeto mais avançado do país é o de Serra Verde, que se destaca como a única operação em fase de produção comercial de terras raras no Brasil, com capacidade para produzir 5 mil toneladas de carbonato de terras raras na sua etapa inicial. O empreendimento já possui contratos de exportação desse material processado para os Estados Unidos.
O gerente geral de inovação e tecnologia do SENAI, José Luciano Pereira, explica as fases essenciais desse processo de refinamento tecnológico:

“Tem duas etapas aí, né? Uma é o país estar produzindo carbonatos e óxidos de terras raras, que são a matéria-prima para a produção de ímã. (…) O carbonato, ele é uma matéria-prima onde todas as terras raras estão ali dentro. Ele já é um material processado, mas depois disso viram óxidos”.
A rota de crescimento até 2030
Atualmente, o estado de Minas Gerais concentra quase metade dos projetos de pesquisa e exploração de terras raras em andamento no território nacional. No entanto, a consolidação do país como produtor de itens com maior valor agregado ainda demandará tempo.
Enquanto a obtenção de óxidos de terras raras por algumas empresas do setor é estimada apenas para o horizonte de 2031 ou 2032, a expectativa em solo mineiro é que a produção de terras raras comece a ganhar corpo e escala comercial a partir de 2030
*Com colaboração de Arthur Madeira
