Durante anos, o Viaduto Ferradura foi uma promessa recorrente. Entrava e saía das pautas de mobilidade, aparecia em apresentações técnicas, era citado em campanhas políticas e reaparecia sempre que o trânsito entre Belo Horizonte e Nova Lima atingia níveis insuportáveis. Agora, com a assinatura do contrato para sua construção, a obra finalmente deixa o campo das intenções para entrar no da execução.
É uma boa notícia. Mas não é hora de confundir uma solução importante com a solução definitiva.
O Viaduto Ferradura nasce para eliminar um dos movimentos mais críticos do Trevo do BH Shopping, criando uma ligação direta entre a MG-030 e a BR-356, no sentido Rio de Janeiro. Na prática, milhares de motoristas deixarão de disputar espaço no principal gargalo da região. O ganho operacional existe e tende a reduzir o tempo de viagem para quem utiliza diariamente aquele corredor.
O problema começa quando se vende a ideia de que a mobilidade do Vetor Sul será resolvida com uma única obra.
Não será.
O congestionamento que hoje paralisa a BR-356 não surgiu porque faltava um viaduto. Ele surgiu porque o crescimento urbano aconteceu muito mais rápido do que a infraestrutura.
O boom imobiliário
Nos últimos anos, Nova Lima experimentou uma explosão imobiliária. Bairros como Vila da Serra, Vale do Sereno e Jardim Canadá cresceram de forma acelerada. Ao mesmo tempo, Belo Horizonte consolidou o Belvedere como um dos principais polos empresariais e comerciais da capital.
Mais moradores, mais escritórios, mais escolas, mais hospitais, mais centros comerciais e praticamente a mesma capacidade viária.
O resultado aparece diariamente nas filas que começam antes das sete da manhã e se estendem até depois das oito da noite.
Durante muito tempo, o licenciamento de grandes empreendimentos caminhou em velocidade muito superior à implantação da infraestrutura necessária para suportá-los. Construíram-se milhares de apartamentos antes de construir as vias capazes de absorver seus moradores. Agora chega a conta
Um ponto que merece destaque
O financiamento da obra não sai diretamente dos cofres públicos tradicionais. Grande parte dos recursos decorre de compensações urbanísticas pagas por empreendedores imobiliários, resultado de um acordo institucional envolvendo Ministério Público, prefeituras e setor privado.
É um modelo que merece ser observado.
Quem gera parte da demanda sobre a infraestrutura também contribui para financiá-la. É um princípio de responsabilidade urbana que faz sentido e pode servir de referência para outros projetos metropolitanos.
Mas nem isso elimina uma pergunta inevitável. Por que a infraestrutura continua chegando sempre depois da ocupação urbana?
O planejamento público parece funcionar de forma reativa. Primeiro autoriza-se o crescimento. Depois aparecem os congestionamentos. Em seguida começam os estudos técnicos. Depois vêm os projetos, as licitações, os recursos judiciais e, anos mais tarde, finalmente a obra.
Enquanto isso, milhares de pessoas perdem horas todos os dias dentro do carro.
Mobilidade não pode continuar sendo administrada como uma sucessão de emergências.
A necessidade de políticas metropolitanas
O Viaduto Ferradura mostra que problemas metropolitanos exigem soluções metropolitanas.
O motorista que sai de Nova Lima para trabalhar em Belo Horizonte não distingue onde termina um município e começa o outro. O congestionamento também não respeita limites administrativos.
Durante décadas, porém, cada cidade planejou seu território olhando apenas para dentro de suas próprias fronteiras.
Essa lógica ficou ultrapassada.
A Região Metropolitana funciona como um único organismo econômico e urbano. As decisões tomadas em Nova Lima produzem impactos em Belo Horizonte. As decisões da capital afetam diretamente municípios vizinhos. Planejar isoladamente significa apenas transferir problemas de um lado para o outro.
A cooperação entre as duas prefeituras, o Ministério Público e os demais órgãos envolvidos demonstra que esse é o caminho correto.
Mas, nenhum viaduto substituirá um transporte coletivo eficiente. Nenhuma nova alça resolverá, sozinha, uma dependência quase absoluta do automóvel. Nenhuma intervenção pontual compensará décadas de crescimento sem coordenação regional.
O Viaduto Ferradura merece ser comemorado porque representa um avanço concreto.
Mas ele também deve servir como um alerta.
Não podemos continuar comemorando apenas quando conseguimos corrigir erros do passado.
O verdadeiro sucesso do planejamento urbano será o dia em que as obras deixarem de correr atrás dos problemas e passarem a chegar antes deles.
Quando isso acontecer, talvez Belo Horizonte e Nova Lima finalmente consigam trocar a cultura do improviso pela cultura da prevenção.
Até lá, cada novo viaduto continuará sendo menos um símbolo de planejamento e mais uma prova de quanto demoramos para enfrentar problemas que já eram previsíveis.
