O jantar realizado na noite de segunda-feira, na residência de Flávio Roscoe, não foi apenas um encontro social do setor produtivo mineiro. Foi um gesto político. E, em política, o gesto também fala, às vezes mais alto do que microfone, palanque e release oficial. A presença de mais de 50 lideranças empresariais, reunidas em torno de um anfitrião que deixou marca forte na FIEMG, mostrou que Roscoe não chega ao tabuleiro eleitoral apenas como mais um nome em busca de espaço.
Mesmo com um acidente grave na estrada que dá acesso à residência do empresário a presença de líderes do setor produtivo mineiro foi muito representativa, dando a Roscoe força de quem chega com rede, com interlocução, com trânsito empresarial e com uma biografia ligada à defesa da indústria, da economia real e do desenvolvimento de Minas.
Roscoe, presidente licenciado da FIEMG quando da apresentação do balanço da sua gestão à frente da entidade, no ciclo de 2018 a 2026, destacou ações institucionais voltadas ao fortalecimento da indústria mineira e ao aumento da produtividade. Esse dado ajuda a entender o peso simbólico do jantar: não se tratava de uma reunião comum, mas de uma demonstração de capital político fora da política tradicional.
O convidado principal era o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL. Mas, curiosamente, a noite disse tanto sobre Flávio Roscoe quanto sobre Flávio Bolsonaro. Poucos políticos estiveram presentes. Entre eles, Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, e pré-candidato ao senado pelo PL; Domingos Sávio, nome central do PL mineiro e pré-candidato ao senado por Minas; e Luiz Eduardo Falcão, ex-presidente da Associação Mineira de Municípios e ex-prefeito de Patos de Minas, hoje filiado ao Republicanos.
Uma provável composição de chapa
A presença de Falcão chamou atenção justamente por destoar do núcleo mais diretamente ligado ao PL.
Esse detalhe não é pequeno. Em política, às vezes uma cadeira ocupada numa sala vale mais que dez discursos em praça pública. Falcão representa o municipalismo, interior, capilaridade e diálogo com o Republicanos. Sua presença abre uma janela de especulação sobre uma composição que poderia envolver Roscoe como cabeça de chapa e Falcão como vice, em eventual construção com o apoio do senador Cleitinho Azevedo, que também é cobiçado pelo candidato do PSD, Mateus Simões.
Isso é hipótese, não fato consumado. Mas política mineira sempre foi cálculo de xadrez. Quem despreza o detalhe acaba tomando xeque mate.
Muita conversa e poucos discursos
O primeiro discurso da noite, feito por Flávio Roscoe, teve tom técnico, foi um discurso carregado de dados, diagnósticos e críticas ao atual governo federal. Roscoe falou como empresário, como líder de setor produtivo e como alguém que tenta traduzir a insatisfação de parte da economia organizada em projeto político. Não foi uma fala de improviso emocional. Foi uma exposição de método: oposição ao governo Lula, defesa de composição de forças e construção de um palanque competitivo para Flávio Bolsonaro em Minas Gerais.
Depois veio Flávio Bolsonaro, com discurso mais político, mais leve e mais aberto. O senador evitou fechar portas. Deixou no ar a possibilidade de diferentes composições para a montagem do palanque mineiro. Essa cautela não é casual. Minas é grande demais para caber em solução pequena. O estado exige costura, equilíbrio regional, diálogo com empresários, prefeitos, deputados, bolsonaristas raiz, centro-direita pragmática e setores que orbitam em torno do governador Mateus Simões, do PSD.
O PL mineiro, aliás, já vinha sendo tratado como um partido com várias opções sobre a mesa. Segundo informações de bastidores o partido avalia nomes como Flávio Roscoe e Vittorio Medioli, além de possíveis alianças com Mateus Simões e Cleitinho. Domingos Sávio, segundo a mesma apuração, afirmou que a legenda não deve se precipitar porque tem mais de uma alternativa para a disputa estadual.
Um PL chapa puro sangue
A presença de Vittorio Medioli no jantar também alimenta outra linha de leitura: a possibilidade de uma chapa mais empresarial, uma “chapa pura” do PL, reunindo Roscoe e Medioli. Medioli tem trajetória administrativa em Betim, imagem de gestor e inserção econômica. Roscoe, por sua vez, traz o carimbo da indústria e do empresariado organizado. Seria uma composição de perfil gerencial, com discurso de eficiência, produção, investimento e oposição ao governo federal. Mas, novamente, ainda estamos no terreno das possibilidades, não das atas assinadas.
A busca por composições
Há também a alternativa de aproximação com Mateus Simões. Essa hipótese não morreu. Pode estar mais fria em alguns momentos, mais quente em outros, mas segue respirando no canto da sala. O governador, candidato natural pelo PSD, conversa com setores do campo liberal e da centro-direita. Cleitinho também conversa com Simões. O Republicanos conversa com o PL. O PL conversa com Roscoe. Roscoe conversa com empresários. E, nesse novelo mineiro, ninguém quer puxar o fio errado antes da hora.
A leitura central do jantar é esta: Flávio Bolsonaro precisa de Minas, mas não apenas de um palanque formal em Minas. Precisa de um palanque com musculatura. E a musculatura, neste momento, passa por Flávio Roscoe. O senador pode trazer o sobrenome, o partido e a conexão nacional do bolsonarismo. Roscoe oferece outra coisa: enraizamento no setor produtivo mineiro, capacidade de mobilização empresarial e uma ponte com quem fala a linguagem da economia antes da linguagem da eleição.
Isso não significa que Roscoe já seja candidato definido, nem que a chapa esteja montada. As candidaturas só serão oficialmente consolidadas nas convenções, e a pré-campanha ainda é um período de sondagens, ensaios e recados calculados. Mas o jantar mostrou que, para o PL construir algo competitivo em Minas, não bastará importar a lógica nacional. Será preciso mineirizar a estratégia. E mineirizar, neste caso, significa ouvir o empresariado, dialogar com lideranças regionais, respeitar as forças locais e entender que Minas não gosta de ser tratada como puxadinho eleitoral de Brasília.
Flávio Roscoe saiu do jantar como anfitrião, mas também como peça central do tabuleiro. Flávio Bolsonaro saiu com a sinalização de que há ambiente empresarial para sua pré-candidatura no estado. O PL saiu com mais possibilidades, e também com mais responsabilidade. Porque quando há muitas portas abertas, aumenta o risco de entrar pela errada.
No fim, a noite teve poucos discursos, mas muitos recados. O primeiro: Roscoe tem força própria. O segundo: o empresariado mineiro quer ser ouvido. O terceiro: o palanque de Flávio Bolsonaro em Minas ainda está em construção. E o quarto, talvez o mais importante: em Minas, apoio político não se impõe de cima para baixo. Ele se costura. De preferência devagar, sem espalhafato, com mesa posta, café coado, pão de queijo quente e calculadora na mesa.
