A farmacêutica Novo Nordisk apresentou ao governo brasileiro uma proposta para ampliar o acesso à semaglutida injetável, as chamadas “canetas emagrecedoras” no Sistema Único de Saúde (SUS), com foco em pacientes com obesidade e histórico de complicações cardiovasculares. A iniciativa está em discussão e ainda depende de avaliação técnica, regulatória e de participação social antes de qualquer eventual incorporação.
A proposta prevê o fornecimento do medicamento a grupos prioritários, especialmente pacientes com maior risco de eventos como infarto e AVC. A estratégia, segundo a empresa, busca concentrar o uso em populações nas quais a prevenção de novas ocorrências poderia ter maior impacto clínico e potencial redução de custos para o sistema público.
Dados do Ministério da Saúde indicam que a obesidade mais que dobrou no Brasil entre 2006 e 2024. Atualmente, cerca de 60 milhões de adultos convivem com a condição, equivalente a mais de 30% da população adulta, cenário associado ao aumento de doenças cardiovasculares e outras complicações crônicas.
Proposta mira pacientes de maior risco
A iniciativa apresentada pela farmacêutica prevê priorização de pacientes com 45 anos ou mais, sem diabetes, que já tenham sofrido infarto e apresentem alto risco de novos eventos cardiovasculares. A lógica da proposta é concentrar o tratamento em um grupo considerado mais vulnerável, onde intervenções farmacológicas poderiam reduzir reincidência de eventos graves.
Segundo a empresa, o objetivo é integrar o medicamento a estratégias de cuidado já existentes na rede pública, com foco em prevenção secundária, ou seja, evitar a repetição de eventos em pacientes que já tiveram complicações cardíacas.
A proposta também prevê a abertura de consulta pública dentro do processo de avaliação de tecnologias em saúde, etapa em que a sociedade pode contribuir com manifestações e evidências sobre a incorporação.
Projetos-piloto e evidências no SUS
Para embasar a discussão, a Novo Nordisk afirma manter projetos-piloto em parceria com instituições públicas de saúde, como a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre (RS). As iniciativas buscam gerar dados em condições reais de uso no sistema público e avaliar impactos clínicos e operacionais do tratamento da obesidade em pacientes de alto risco.
Segundo a empresa, essas experiências têm como objetivo fornecer evidências adicionais sobre desfechos como redução de complicações cardiovasculares, internações e necessidade de procedimentos de alta complexidade.
Debate sobre incorporação ainda está em fase inicial
A eventual incorporação de medicamentos da classe da semaglutida ao Sistema Único de Saúde (SUS) segue em fase inicial de análise, sem decisão sobre oferta ampla ou cronograma definido de implementação. O processo envolve etapas de avaliação de eficácia, custo-efetividade, impacto orçamentário, além de consulta pública e pareceres técnicos antes de qualquer eventual incorporação.
No campo do governo federal, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que será iniciado um estudo com cerca de 250 pacientes no Hospital Conceição, em Porto Alegre (RS), para avaliar o uso de medicamentos da mesma classe em pessoas com obesidade grave e comprometimento cardiovascular.
Segundo o ministro, o protocolo deve acompanhar pacientes com alto risco, muitos deles já em fila para cirurgia bariátrica, com o objetivo de medir possíveis efeitos clínicos e impactos no sistema de saúde, como redução de complicações e de demanda por procedimentos de alta complexidade. Ele destacou ainda que a análise não trata esses medicamentos como solução isolada para a obesidade e que os resultados do estudo vão orientar decisões futuras sobre eventual incorporação ao SUS.
Ainda no campo regulatório, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o registro da primeira caneta de semaglutida sintética produzida no país, a Ozivy, ampliando a perspectiva de produção nacional e de concorrência no mercado. O governo também informou que outras solicitações de registro de diferentes fabricantes seguem em análise, o que pode impactar disponibilidade e preços no médio prazo.
Enquanto isso, o tema permanece em debate dentro das políticas públicas de enfrentamento à obesidade, condição considerada uma das principais doenças crônicas em crescimento no país e associada ao aumento de risco para doenças cardiovasculares e outras complicações metabólicas.
