O desempenho das escolas mineiras no ranking do Enem 2025 merece ser comemorado, mas não deve ser lido com ingenuidade. Minas Gerais colocou oito escolas entre as cinquenta melhores do Brasil. É um resultado expressivo. Mostra a força de instituições tradicionais, a presença de bons projetos pedagógicos e a capacidade do estado de disputar espaço no topo da educação brasileira.
O Colégio Santo Antônio aparece como o principal destaque mineiro, em 12º lugar nacional. Logo depois surgem escolas como Fibonacci, de Ipatinga, Coleguium Ouro Preto Integral, Bernoulli, Gabarito, de Uberaba, Santa Marcelina, Coluni, de Viçosa, e Santo Agostinho. Ou seja: o bom desempenho mineiro não está limitado a Belo Horizonte. Há presença da capital, sim, mas também do interior. E isso é relevante.
Minas tem uma tradição educacional forte. Tem escolas privadas consolidadas, instituições confessionais de longa história, projetos pedagógicos consistentes e uma rede federal que,quando aparece no topo, como no caso do Coluni da Universidade Federal de Viçosa, lembra uma verdade incômoda: escola pública pode ser excelente quando tem estrutura, seleção, professores valorizados, continuidade e ambiente de aprendizagem.
A surpresa que vem do Ceará
Mas o ranking nacional traz uma provocação ainda maior. Os três primeiros lugares do Brasil estão em Fortaleza. Ari de Sá, Farias Brito e Christus ocupam o pódio. E isso exige uma pergunta: por que Fortaleza?
A resposta mais simples seria dizer que as escolas cearenses são melhores. Mas a resposta simples quase sempre é uma armadilha elegante. Fortaleza não chegou ao topo por acidente. A cidade construiu, ao longo dos anos, um verdadeiro ecossistema de alto desempenho educacional. Algumas escolas privadas cearenses se transformaram em centros de preparação intensiva para Enem, Medicina, ITA, IME e vestibulares de alta dificuldade.
É uma cultura de competição acadêmica. Simulado atrás de simulado. Redação corrigida com lupa. Matemática tratada como modalidade olímpica. Ciência da Natureza treinada com método. Aluno acompanhado por resultado. Professor cobrado por entrega. Família envolvida no processo. Escola funcionando, muitas vezes, como escola e cursinho ao mesmo tempo.
Fortaleza entendeu o Enem como especialidade. E especialidade se constrói com método, repetição e foco. O aluno não apenas estuda o conteúdo. Ele aprende a fazer a prova. Aprende tempo, estratégia, linguagem, recorrência de temas, modelo de redação, gestão emocional e resistência física para enfrentar dois domingos de exame.
Minas também tem escolas fortes. Mas o caso de Fortaleza mostra algo diferente, não basta ter tradição. É preciso ter estratégia. A educação privada de alto rendimento virou uma indústria de performance. Isso tem méritos, mas também tem riscos.
O mérito é evidente. Essas escolas entregam resultados. Colocam alunos nas universidades mais concorridas. Criam ambientes de estudo intenso. Formam jovens capazes de enfrentar provas duríssimas. Não se deve demonizar excelência. País que trata excelência como pecado está condenado à mediocridade. E mediocridade, em educação, é uma forma silenciosa de injustiça.
Ranking não é tudo
Existe nisso um risco, é claro. Ranking de Enem não mede tudo. Ele mede desempenho em uma prova. E desempenho em prova é influenciado por escola, professor e projeto pedagógico, mas também por renda, apoio familiar, tempo disponível, alimentação, saúde mental, acesso à internet, livro, cursinho, transporte, segurança, silêncio em casa e expectativa social.
Há alunos que chegam ao Enem depois de anos de preparação. E há alunos que chegam depois de anos de sobrevivência. Colocar todos na mesma tabela é estatisticamente possível, mas socialmente incompleto.
Por isso, quando olhamos o ranking, não podemos enxergar apenas os vencedores. Precisamos enxergar também quem ficou invisível. A escola pública comum, especialmente a estadual, continua distante desse pódio. E esse é o verdadeiro drama brasileiro.
O país celebra meia dúzia de ilhas de excelência enquanto convive com um oceano de desigualdade educacional. É bonito ver Minas entre as melhores. É justo reconhecer o trabalho dessas escolas. Mas é insuficiente transformar isso em discurso de vitória.
Por que esse padrão de qualidade não chega a mais estudantes?
Minas deveria olhar para esse ranking em três movimentos. Primeiro, reconhecer que há qualidade no estado. Segundo, estudar com seriedade o modelo de Fortaleza, sem preconceito, sem inveja regional e sem essa preguiça intelectual de achar que todo bom resultado é fruto apenas de privilégio. Terceiro, usar essa discussão para cobrar uma política pública mais ambiciosa para o ensino médio.
O ensino médio brasileiro precisa ser levado a sério. Ele não pode ser apenas uma sala de espera entre a infância e o mercado de trabalho. Tem que ser espaço de formação, repertório, leitura, matemática, ciência, pensamento crítico e projeto de vida.
E aqui há uma questão essencial: escola boa não é só aquela que aprova no Enem. Escola boa é aquela que ensina, forma, orienta, abre horizontes e cria condições para que o jovem não desista de si mesmo.
O Enem virou uma porta. Para alguns, essa porta é larga, iluminada e treinada. Para outros, é estreita, pesada e quase fechada. O papel da educação pública deveria ser diminuir essa diferença.
Minas foi bem. Fortaleza foi melhor. Mas o Brasil só irá verdadeiramente bem quando a excelência deixar de ser privilégio de poucas escolas e virar uma ambição coletiva.
Educação não pode ser apenas pódio. Tem que ser escada. E a escada precisa estar encostada no muro certo. O muro da oportunidade.
