O Carnaval de Belo Horizonte bateu recorde de público em 2026 e reforçou a posição da capital entre os principais destinos da folia no país. A festa passou, mas uma pergunta continua: como garantir que esse crescimento seja sustentável nos próximos anos?
Uma nota técnica da consultora legislativa em Educação e Cultura, Dagmar Martins, aponta desafios no financiamento do Carnaval. O assunto foi debatido na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal e trouxe à tona uma preocupação dos blocos: a dificuldade para planejar a próxima edição com antecedência.
Segundo Mariana Fonseca, presidente do bloco Então, Brilha!, um dos mais tradicionais da capital, falta no calendário da cidade um modelo que dê mais previsibilidade para captação de recursos, organização e estruturação das agremiações ao longo do ano.
“Os blocos e as escolas de samba precisam de espaço para acontecer o ano inteiro, precisam de estrutura. A cidade precisa acolher o Carnaval o ano todo. Tem um mês em que se abre esse precedente, em que pode ensaiar na rua e realizar atividades, mas e o resto do ano? A gente não faz Carnaval em um mês. Acaba um cortejo e já começa a fazer o outro. Só que aí o resto do ano a gente fica sobrecarregado, arrochado, sempre com uma incerteza muito grande. Essa incerteza é adoecedora para toda a cadeia do Carnaval”, afirmou.
Além da falta de uma estruturação de um calendário anual, outro ponto apontado foi o desfile das escolas de samba em BH. Movimento tradicional em outras capitais do país, principalmente no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte não tem o mesmo impacto e adesão popular. No fim de 2025, a falta de recursos para o setor foi inclusive pauta na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Segundo a vereadora Jhulia Santos, do PSOL, que fez o requerimento da audiência pública, o próprio local onde o desfile acontece hoje prejudica o desenvolvimento da atividade.
“O que tem sustentado e contribuído diretamente para a retomada do nosso Carnaval são as escolas de samba, que são historicamente escanteadas nesta cidade. Hoje foi pensado um outro circuito e eu acredito que a Avenida dos Andradas é um trajeto interessante, mas um Carnaval que faz curva com carros alegóricos não dá. A Andradas pode ser melhor aproveitada, mas já passou da hora de pensar como o Rio de Janeiro, Vitória e outras capitais fizeram. Belo Horizonte é uma cidade do samba e precisa ter uma estrutura própria para isso”, disse.
Em resposta às reclamações, a Prefeitura afirmou que vem trabalhando em diferentes frentes para melhorar a situação dos produtores do Carnaval.
Segundo Michelle Cristina, representante da Secretaria Municipal de Cultura na audiência, muitas das reivindicações apresentadas pelos blocos e pelas escolas de samba já vêm sendo discutidas em espaços de diálogo entre o poder público e os organizadores da festa.
“Muitas das demandas que vocês colocam são super legítimas. A gente acompanhou bastante ao longo do tempo e elas tiveram encaminhamento no grupo de trabalho do Carnaval, do qual participamos em 2023 e 2024. Inclusive, a própria nota da comissão cita esse processo, que culminou com a Lei Geral do Carnaval e com a lei que reconhece a importância cultural dos blocos caricatos. A gente entende que essas pautas dependem também de uma ação integrada entre diferentes áreas para que não fiquem nessa repetição constante que a gente vê nas audiências. A gente precisa afinar esse trabalho e tem tentado fazer isso”, afirmou.
Os dados oficiais apresentados pela prefeitura mostram que o Carnaval de 2026 atraiu mais de 6,5 milhões de foliões e injetou cerca de R$ 1,4 bilhão na economia da capital.
Por outro lado, o setor privado demonstrou timidez. Um edital de patrocínio que oferecia cotas de até R$ 10 milhões resultou em apenas três contratos de colaboração de R$ 500 mil cada.
