A nova tarifa anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendeu um sinal de alerta em Nova Serrana, no Centro-Oeste de Minas, um dos maiores polos calçadistas do país. O setor teme que a medida provoque um efeito cascata sobre a indústria, com redução de pedidos, perda de competitividade, fechamento de empresas e demissões.
Segundo o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados de Nova Serrana (Sindinova), Rodrigo Martins, embora ainda seja cedo para calcular o tamanho do impacto, o momento preocupa um segmento que já enfrenta dificuldades provocadas pelo cenário econômico brasileiro.
“Está muito cedo para apresentar números exatos sobre qual será esse impacto, mas vemos essa situação com muita preocupação. O setor calçadista já enfrenta um momento de grande fragilidade por diversos fatores da economia brasileira, como o endividamento das famílias e as dificuldades do varejo.”
Mesmo empresas que não exportam diretamente para os Estados Unidos devem sentir os reflexos das tarifas, já que parte da produção de Nova Serrana abastece fabricantes que vendem ao mercado americano.
Na avaliação de Rodrigo Martins, se essas empresas perderem espaço nos Estados Unidos, a produção será redirecionada para outros mercados, aumentando a concorrência e reduzindo a demanda por fornecedores. O dirigente alerta que o cenário pode provocar retração da atividade industrial.
“Em muitos casos, isso pode levar ao encerramento de atividades ou à realização de demissões em massa, e essa é uma das nossas maiores preocupações.”
Setor já vive a “segunda onda” do tarifaço
Embora a nova tarifa ainda esteja no centro das negociações entre Brasil e Estados Unidos, o presidente do Sindinova afirma que os impactos começaram ainda na primeira ameaça de sobretaxas anunciada por Washington.
Na ocasião, empresas americanas interromperam negociações e passaram a adotar uma postura mais cautelosa nas compras.
“Algumas empresas que tinham negócios em andamento acabaram perdendo essas negociações. Outras, que tinham clientes frequentes, já sentiram dificuldades no relacionamento comercial.”
Para Martins, o momento atual representa uma segunda fase dos efeitos das medidas.
“O impacto de agora é, de certa forma, um segundo momento. O primeiro já começou lá atrás, quando surgiu a ameaça das tarifas.”
Embora os Estados Unidos estejam entre os dez maiores compradores dos calçados produzidos em Nova Serrana, a importância do mercado americano vai muito além do polo mineiro. Segundo a Abicalçados, os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. Em 2025, o país importou cerca de 10,2 milhões de pares, movimentando US$ 211,9 milhões e respondendo por mais de 20% da receita obtida com as exportações brasileiras do setor.
Por isso, mesmo empresas que atuam apenas como fornecedoras de fabricantes exportadores podem sentir os efeitos da retração das vendas ao mercado americano. Enquanto entidades do setor tentam reverter ou reduzir os impactos das tarifas, cresce a preocupação com uma possível mudança definitiva no comportamento dos compradores dos Estados Unidos.
Segundo Rodrigo Martins, a Abicalçados intensificou as negociações com autoridades brasileiras, representantes do governo americano e entidades do varejo dos Estados Unidos para tentar retirar o calçado brasileiro da lista de produtos tarifados.
Apesar desse esforço, ele afirma que compradores americanos já demonstram preocupação com os custos adicionais e começam a avaliar alternativas.
“Se essas tarifas forem mantidas e o calçado brasileiro continuar sendo tributado, já existe uma sinalização desses compradores de buscar outros mercados produtores, principalmente o mercado asiático.”
Para o setor, esse é o principal risco: que o tarifaço deixe de ser uma dificuldade momentânea e provoque uma perda estrutural de mercado, com impactos duradouros sobre produção, empregos e investimentos em um dos maiores polos calçadistas do Brasil.