As terras raras deixaram de ser apenas componentes químicos para se tornarem uma poderosa ferramenta de pressão geopolítica no cenário internacional. Com a China dominando mais de 90% da produção global, o mercado enfrenta um novo paradigma desde 2025, quando Pequim passou a restringir exportações como estratégia na disputa tecnológica com os Estados Unidos.
Nesse tabuleiro de xadrez global, o Brasil surge como uma peça fundamental, detendo a segunda maior reserva do planeta, estimada em 21 milhões de toneladas. O desafio agora é converter esse potencial mineral em riqueza efetiva e soberania industrial.
O Brasil entre duas potências
A tensão entre Washington e Pequim cria uma janela estratégica para o Brasil. Como ambas as potências têm interesse nos ativos brasileiros, o país ganha maior poder de barganha sem a necessidade de escolher um lado na disputa.
O professor de Ciências Políticas da UFMG, Lucas Rezende, destaca que a aceleração tecnológica chinesa coloca o país em condições de competir de igual para igual com os americanos, o que favorece a posição brasileira como fornecedora:

“Havendo dois compradores, melhora a posição do Brasil, que a gente pode tentar negociar entre os dois. Não quer dizer que a gente precisa optar por um lado ou outro lado”.
A “arma” geopolítica da China
A postura chinesa transformou esses minerais em instrumentos de barganha que transcendem o setor mineral. Segundo Wilson Mendonça, professor de Relações Internacionais da Skema Business School, a estratégia busca consolidar liderança e poder.

“As terras raras, elas se tornaram uma ferramenta geopolítica que indiretamente acaba sancionando alguns estados (…). Eles podem utilizar as terras raras como barganha para conseguir benefícios e recursos de outros temas que não têm envolvimento direto com terras raras. (…) É uma ferramenta de poder e de pressão indiscutível”.
O desafio da produção: da reserva para o mercado
Apesar de possuir um dos maiores depósitos do mundo, o Brasil ainda tem uma participação tímida no mercado produtivo. Em 2025, mesmo com suas vastas reservas, o país produziu apenas duas mil toneladas, o que representa meros 0,5% da produção mundial. No entanto, especialistas apontam que o país possui o diferencial necessário para mudar esse cenário: o conhecimento técnico.
Para Pablo Cesário, Diretor Presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), a expertise brasileira é um ativo valioso construído ao longo de décadas em centros como Ouro Preto e a UFMG:

“O que que a gente tem de diferente aqui? A gente sabe fazer esse negócio. Tem mais de 150 anos que Ouro Preto forma turma para trabalhar nisso. (…) Você vai em qualquer lugar do mundo hoje e vai ter lá um brasileiro, provavelmente um mineiro geólogo, (…) liderando operações ao redor do mundo”.
Investimentos de bilhões e o futuro do setor
O horizonte para o setor mineral brasileiro é de expansão acelerada. Estima-se que o país poderá receber cerca de US$ 2,4 bilhões em investimentos especificamente voltados para terras raras entre 2026 e 2030.
Com o amadurecimento dos projetos atuais, as projeções do IBRAM indicam que a produção brasileira pode dar um salto significativo, atingindo entre 40 e 50 mil toneladas anuais até o final desta década. Esse crescimento é visto como essencial para que o Brasil não apenas extraia o recurso, mas se consolide como um player estratégico na cadeia global de alta tecnologia.
*Reportagem de Guilherme Alves com colaboração de Arthur Madeira