O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Lula, Guilherme Boulos, defendeu a regulamentação do trabalho em aplicativos de transporte e entrega durante entrevista exclusiva à Rádio 98 News. Para ele, é necessário criar regras que estabeleçam um equilíbrio maior na relação entre as plataformas e os trabalhadores.
Boulos citou como exemplo a situação dos motoristas de Uber. Segundo ele, o profissional arca com despesas como combustível, manutenção e eventuais riscos relacionados ao veículo, enquanto a plataforma pode ficar com uma parcela significativa do valor pago pelo passageiro.
“Você pega o motorista de Uber, Paulo, hoje o carro é dele, não é? A gasolina é dele, a manutenção é dele. Se sofreu um acidente, o risco é dele. E a Uber chega a ficar com 50% de uma viagem”, afirmou.
Na avaliação do ministro, a regulamentação deveria levar em conta os custos e as condições de trabalho dos profissionais que atuam por meio dos aplicativos. “Isso é uma exploração. Não pode, tem que ter uma regulamentação para garantir um equilíbrio nessa balança que olhe para o trabalhador”, disse.
Críticas ao modelo de entregas
O ministro também criticou a forma como aplicativos de entrega estabelecem metas e valores para os profissionais. Ao falar sobre o iFood, Boulos afirmou que os trabalhadores podem ser incentivados a realizar um número maior de entregas em troca de uma remuneração adicional.
“Mais entregas, se você fizer mais entregas, eles pagam menos por entrega. Você trabalha mais para tirar um pouquinho mais no fim do dia”, declarou.
Boulos classificou esse mecanismo como uma espécie de “gamificação” do trabalho e afirmou que a dinâmica pode estimular os entregadores a aumentar o ritmo das atividades, inclusive em situações de trânsito.
Para o deputado, as grandes plataformas possuem forte capacidade de pressão sobre as discussões envolvendo a regulamentação do setor. Ele citou empresas como Uber, 99 e iFood e afirmou que, independentemente da origem das companhias, o modelo de negócio tende a buscar uma maior participação das plataformas sobre o trabalho realizado.
“No fim do dia, as plataformas querem extrair o máximo do trabalhador e pagar o mínimo para o trabalhador. Essa é a realidade”, afirmou.
Boulos defendeu que a discussão sobre a regulamentação seja feita a partir da realidade vivida por motoristas e entregadores. “Converse com o motorista de Uber e com o entregador”, concluiu.
