As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as midterms, realizadas nesta terça-feira (3), podem obrigar o presidente Donald Trump a negociar com o Partido Democrata e abrir caminho para um alívio no tarifaço contra o Brasil. A avaliação é do professor Wilson Mendonça, de Relações Internacionais da Skema Business School, em Belo Horizonte, em entrevista à 98 News.
Economia pesa no voto americano
A eleição acontece dois anos após o início do segundo mandato de Trump, com os republicanos no controle da Câmara e do Senado. Para Wilson Mendonça, o custo de vida é o principal fator de desgaste do governo. “Se grande parte da população percebe que, no final do mês, não consegue atender às expectativas, não consegue fazer o empréstimo de que precisa por causa da taxa de juros, isso vai impactar diretamente no incômodo. E esse incômodo vai ser refletido no Legislativo”, afirmou o professor, ao lembrar a máxima “é a economia, estúpido”, da campanha de Bill Clinton nos anos 1990.
Segundo o especialista, uma vitória democrata reduziria o espaço para decisões por decreto, que marcaram os dois primeiros anos de Trump e foram criticadas até por republicanos. “Conversar mais entre os partidos é algo que Trump não fez nos primeiros dois anos e necessariamente terá que fazer, justamente por causa do controle que o Legislativo exerce sobre grande parte do orçamento”, disse Wilson Mendonça. O professor citou ainda a guerra no Irã e a alta dos combustíveis como fontes de insatisfação do eleitor americano.
O que muda para o Brasil
O efeito mais direto para os brasileiros estaria no comércio. Para Wilson Mendonça, um Trump mais pressionado internamente tende a recuar nas guerras comerciais. “A redução da autonomia de Donald Trump poderia fazê-lo se voltar mais para o âmbito doméstico, o que poderia fazer com que os Estados Unidos flexibilizassem o tarifaço em relação ao Brasil”, avaliou. Segundo ele, parlamentares democratas já cobravam do governo fundamentos para as sanções econômicas contra o país.
No campo político, o professor apontou que o resultado pode aumentar a pressão sobre Trump para justificar o acolhimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que desembarcou na Flórida com a esposa e as duas filhas em 27 de outubro, após deixar o Brasil durante a madrugada. Na área de defesa, iniciativas como o Escudo das Américas também poderiam passar por revisão no Congresso, já que dependem de aprovação orçamentária.
Termômetro para 2028
Wilson Mendonça vê dois cenários em caso de derrota republicana: um Trump mais flexível ou um presidente ainda mais resistente, que poderia até contestar o resultado. “Toda vez que se trata de próximos passos em relação a Donald Trump, é muito difícil antever”, ponderou. O professor lembrou que um desempenho fraco nas midterms pode limitar a influência de Trump na escolha do candidato republicano à sucessão e permitir que o Partido Democrata comece a campanha presidencial com dois anos de antecedência.
