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O crime que atravessa as fronteiras do silêncio

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(Fernando Frazão / Agência Brasil)

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Durante muito tempo, acreditou-se que a violência era um problema das grandes cidades. Que o crime, as facções e a brutalidade tinham endereço fixo nas periferias das capitais, nas comunidades densas e conflagradas. Mas o mais recente Atlas da Violência 2025, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desmonta essa crença: o crime se mudou. E o novo CEP da criminalidade brasileira está cada vez mais longe dos grandes centros.

A expansão das facções criminosas tem impulsionado o crescimento da violência nas cidades médias e pequenas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Enquanto capitais como Fortaleza, São Luís, Goiânia e Cuiabá registraram quedas expressivas nos homicídios, mais de 60% entre 2013 e 2023, o interior passou a ocupar o espaço deixado pelo recuo urbano. É a lógica perversa da migração do crime: ele busca onde o Estado não chega.

A nova geografia do medo

Não se trata apenas de estatísticas. Trata-se de um deslocamento silencioso, que muda o cotidiano de milhares de municípios.

Cidades que até pouco tempo conviviam com pequenas infrações agora enfrentam homicídios, disputas entre facções e crescimento de economias ilegais. O tráfico, antes distante, passa a recrutar nas esquinas conhecidas. E a sensação de segurança, essa construção tão frágil e tão essencial, se dissolve com a mesma rapidez com que se espalham as fronteiras do medo.

Segundo o relatório, três fatores principais explicam esse movimento.

O primeiro é o fortalecimento das grandes organizações criminosas que expandiram seus tentáculos para áreas antes dominadas por grupos locais. Essas facções, mais estruturadas e com acesso a recursos e logística nacional, passaram a usar o interior como campo de expansão, controle de rotas e lavagem de dinheiro.

O segundo é a ausência de políticas públicas consistentes em municípios pequenos. Onde o Estado aparece pouco, o crime se apresenta como poder, e resolve conflitos, impõe regras, e até financia “projetos sociais”.

O terceiro fator é ainda mais alarmante: a infiltração do crime nas estruturas legais. Empresas de fachada, contratos públicos e redes de influência política fazem parte da nova roupagem da criminalidade. O crime deixou de ser apenas marginal, agora ele é institucional.

O problema da interiorização do crime é que, diferentemente das capitais, as cidades médias e pequenas têm menos capacidade de resposta. Faltam delegacias estruturadas, falta investigação, faltam políticas sociais. O policiamento é limitado, a Justiça é lenta, e a população, acuada, evita denunciar por medo de retaliação.

Em muitos municípios, o tráfico se infiltra nas rotinas mais simples: no transporte de cargas, nos bares, nas pequenas empreiteiras que atuam para prefeituras. A fronteira entre legalidade e ilegalidade se torna cada vez mais tênue. E o impacto é imediato. O comércio encolhe. O turismo desiste. As famílias passam a se trancar em casa.

O crime organizado não precisa de fuzis para dominar uma cidade, basta ocupar os vazios deixados pelo poder público. A omissão é o melhor território para a criminalidade prosperar.

O Estado ausente e a democracia em risco

Há algo de simbólico nesse movimento, quando o crime avança sobre o interior, é a própria ideia de Estado que recua. Porque o interior do Brasil sempre foi o espaço da esperança, o lugar onde o país se refazia longe do caos das metrópoles. Agora, ele também se torna refém da desorganização nacional.

O que se vê é um Estado que chega tarde, ou simplesmente não chega.

E essa ausência é preenchida por outra força, paralela, que impõe “ordem” pelo medo e “lei” pela violência.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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