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Zema, do gestor ao presidente imaginável

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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil )

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O Brasil é um país com vocação para o plural, mas ao mesmo tempo, uma mania incurável de se simplificar em rótulos. A gente fala em “arrogância paulista”, “jeito carioca”, “silêncio dos mineiros”, “peculiaridade nordestina”, como se desse para colocar um continente inteiro dentro de quatro estereótipos e uma piada de bar. Mas, por trás dessas caricaturas, existe uma verdade política muito séria, cada região tem expectativas diferentes sobre Estado, liderança, ordem, justiça social, futuro. E isso muda tudo quando um nome regional tenta se tornar presidenciável.

É nesse Brasil multifacetado que Romeu Zema tenta atravessar a fronteira mais difícil da política: sair do crachá de governador para vestir a faixa de presidente.Num país tão grande quanto desconfiado, ser “bom gestor” não basta; e ser “anti-Lula” tampouco.

Porque o Brasil, no fundo, não elege apenas um administrador. E também não elege só um antagonista. O Brasil elege, uma promessa, um enredo que faça sentido para a vida real de quem está do lado de cá da tela, do preço do arroz, do posto de saúde, do ônibus atrasado e do medo do amanhã.

O Brasil é um mosaico de cobranças

Quando se olha o país por regiões, o que aparece não é uma coleção de temperamentos folclóricos, mas um conjunto de culturas políticas.

No Sudeste, visto por São Paulo, há uma reverência quase religiosa pela eficiência. É o território do gestor, de quem entrega, de quem fala em metas, custos, produtividade e que promete fazer o Estado funcionar. Zema conversa com esses ouvidos. Ele tem o perfil do administrador que entra na sala sem fazer discurso e já pergunta onde está o relatório.

Só que esse mesmo eleitor, que valoriza a gestão, também é um ringue político competitivo. Se o valor supremo é eficiência, sempre haverá alguém disposto a perguntar: Por que o governador mineiro e não o meu governador?

No Rio a equação costuma mudar. A política carioca, por tradição e sobrevivência, tem mais apreço pelo gesto, pela presença, pela narrativa, o presidente como personagem que ocupa a cena. Zema tem outro estilo. É menos teatro, mais planilha. Isso pode ser virtude para quem está cansado do país performático, mas vira obstáculo onde carisma não é acessório, é ferramenta.

Minas, sem parecer lugar comum, a síntese do Brasil, é o coração simbólico dessa discussão. Minas é o lugar onde Zema é “de casa”, onde sua marca se consolidou e onde seu nome ganha musculatura. E Minas tem uma particularidade.É grande o suficiente para ser decisiva e ambígua o bastante para ser disputada até a última vírgula. Quem ignora Minas na eleição nacional geralmente aprende geografia pela dor.
No Sul, há afinidade relevante com pautas liberais e com o campo da centro-direita/direita, mas também há concorrência. É um território onde muitos querem ocupar o mesmo espaço, e isso dilui qualquer nome que não chegue com força nacional já pronta.

No Centro-Oeste, o pragmatismo manda. Segurança jurídica, agro, infraestrutura, previsibilidade. A região é menos seduzida por discurso e mais convencida por compromisso contínuo. Para crescer nesse território, não basta aparecer em ano eleitoral; é preciso virar presença, e presença no Brasil se chama rede, palanque, alianças.
No Nordeste, o idioma político é outro. Não porque o Nordeste pensa de modo folclórico, mas porque a vida concreta cobra diferente. O eleitor tende a olhar com lupa para a proteção social, para programas de renda, para investimento, para serviços públicos. Um candidato identificado com a ideia de menos Estado precisa ser cirúrgico para não soar como ameaça. Ali, eficiência sem garantia vira medo. Reforma sem explicação vira boato. E boato, no Brasil, pesa.

No Norte o Estado é visto como solução ou abandono. Logística, saúde, segurança, conectividade. Um gestor pode funcionar muito bem se traduzir eficiência em presença real, não em distância eficiente. Caso contrário, a promessa vira aquela frase que o país já ouviu demais. Um dia vai melhorar, sem data e sem caminho.

O dilema do “gestor”: ser competente não é ser desejado

A política brasileira está cheia de paradoxos. Um deles é este. O Brasil diz que quer eficiência, mas muitas vezes vota em símbolo; diz que quer gestão, mas escolhe narrativa; diz que odeia briga, mas se organiza em torno dela. É por isso que a travessia de Zema é difícil.


Ele tem um ativo claro. Pode apresentar seu projeto de quem administra sem delírio. Para uma fatia do país cansada de Estado caro e resultados magros, isso tem apelo. Mas esse mesmo ativo vem com um risco O gestor pode ser percebido como frio, distante, tecnocrático, alguém que fala de equilíbrio fiscal, mas não convence sobre vida real.


Além disso, há o ponto central do desafio que Zema precisa encarar. O Brasil não vai reconhecer um presidente apenas porque ele é contra Lula. Ser anti-Lula pode dar gasolina, mas sozinho não dá presença no mapa eleitoral. Pode, momentaneamente, unir, mas não constrói destino. Pode render manchete, mas como ação isolada não sustenta o projeto.


A oposição a Lula é um instrumento, não um programa. É um não que precisa virar sim, com conteúdo. O eleitor pode até votar por negação, mas governa por expectativa. E, expectativa sem entrega vira decepção.


O que falta para Zema ser “o presidente imaginável”

Em termos práticos, a pergunta não é “Zema é bom”?. A pergunta é: o Brasil consegue se ver nele? E, hoje, fora de Minas e dos círculos mais politizados, Zema ainda é um nome em construção nacional. Falta densidade, falta capilaridade e falta o que é chamado de “história”, não no sentido de passado pessoal, mas aquela que amarra o país.

Isso não se resolve com slogan nem com entrevista pontual. Se resolve com três coisas:

Com uma agenda nacional que fale com o cotidiano, sem demonizar quem precisa do Estado e sem romantizar a precariedade. Privatização e eficiência podem estar no cardápio, mas o prato principal é: como isso melhora a vida de quem está fora da bolha?

Com um vocabulário social convincente, capaz de falar com o Nordeste e com o Norte sem soar como ameaça disfarçada de austeridade. O Brasil real não tem paciência para discurso que parece cortar antes de cuidar.
E, com um salto, do gestor mineiro para líder nacional. O país precisa enxergar não só um administrador, mas alguém que entenda as diferenças regionais sem tratar o Brasil como uma empresa com filiais.

O Brasil regional está julgando Zema com um critério simples

No fundo, as regiões vão fazer uma avaliação menos sofisticada do que os analistas adoram imaginar, e mais justa do que os palanques suportam:

Ele entende meu problema? Ele volta aqui ou só aparece em eleição?
Ele vai cortar ou vai melhorar? Ele respeita meu jeito de viver? Ele tem projeto ou só adversário?

Porque ser anti-Lula é fácil; difícil é ser reconhecido como alternativa de país. O “anti” une por raiva. A alternativa une por esperança. E esperança exige desenho, compromisso, sensibilidade e coragem para falar de coisa chata, orçamento, prioridade, entrega, pacto federativo, sem virar palestra e sem virar demagogia.

Zema tem uma longa estrada pela frente. Mas essa estrada no Brasil não se percorre só com motor; precisa de direção. E direção, em política nacional, precisa ter um nome. Projeto.

Se ele quiser deixar de ser apenas um “bom gestor mineiro” e virar um candidato presidencial de verdade, terá que fazer o movimento mais raro e mais necessário, Dosar a negação de alguém e começar a ser a afirmação de um Brasil possível, inteiro, diverso, contraditório, e ainda assim governável.

Porque o Brasil não aceita, por muito tempo, um presidente que seja só contra. O país quer saber de quem ele é a favor.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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