Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou que o empresário Fabiano Zettel movimentou R$ 99,2 milhões em apenas sete meses, valor considerado incompatível com a renda mensal declarada por ele, de R$ 66 mil.
O volume equivale a uma média de R$ 14,1 milhões em transações por mês, mais de 200 vezes superior ao rendimento informado. As informações constam em um Relatório de Inteligência Financeira obtido pelo O Globo.
Relatório aponta possível trânsito de recursos de terceiros
Segundo o Coaf, a análise das movimentações bancárias indica que a conta pode ter sido utilizada para a circulação de recursos de terceiros. O relatório identificou R$ 49,9 milhões em créditos e R$ 49,3 milhões em débitos entre junho de 2021 e janeiro de 2022.
“As movimentações em conta estão incompatíveis com a capacidade financeira declarada, bem como a conta aparentemente está sendo utilizada para o trânsito de recursos de terceiros”, aponta o documento.
O relatório também aponta transferências sucessivas entre contas da mesma titularidade e repasses de valores elevados sem causa aparente, o que dificultaria a identificação da origem e do destino dos recursos.
Investigação envolve dono do Banco Master
Zettel é cunhado do empresário Daniel Vorcaro. Ambos estão presos preventivamente desde a semana passada por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça.
Na decisão, Mendonça afirma que Zettel teria atuado na intermediação e operacionalização de pagamentos da organização investigada, participando da criação de mecanismos para viabilizar transferências financeiras.
A defesa de Vorcaro nega irregularidades e afirma que o empresário sempre colaborou com as investigações.
Transferência de R$ 1,5 milhão para irmão de servidor do Banco Central
O relatório do Coaf também identificou duas transferências feitas por Zettel para o empresário Luis Roberto Neves, totalizando R$ 1,5 milhão. Os repasses ocorreram em:
18 de dezembro de 2021: R$ 750 mil
18 de janeiro de 2022: R$ 750 mil
Luis Roberto é irmão do ex-diretor de fiscalização do Banco Central do Brasil, Paulo Sergio Neves de Souza. O servidor foi alvo de mandados de busca e apreensão durante a terceira fase da Operação Compliance Zero e acabou afastado do cargo.
Segundo decisão judicial, ele é suspeito de atuar como “interlocutor interno dos interesses” do Banco Master dentro do Banco Central.
Venda de fazenda também está sob investigação
O ex-diretor do Banco Central também vendeu uma propriedade rural em Minas Gerais por R$ 3 milhões para a empresa Pipe Participações, da qual Zettel é sócio. O irmão do servidor administra uma empresa que também participa da sociedade.
Compra de resort no Paraná aparece no relatório
O Coaf identificou ainda transferências de R$ 25,6 milhões feitas por Zettel ao fundo Leal, do qual ele era cotista.
Esse fundo é o único cotista do fundo Arleen, responsável pela compra de participação de uma empresa ligada ao ministro do STF Dias Toffoli no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná.
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a operação foi avaliada em R$ 20 milhões.
Em nota divulgada anteriormente, Toffoli afirmou que a venda ocorreu “a valor de mercado” e declarou que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel.
Outras transferências levantam suspeitas
O relatório do Coaf também menciona outras movimentações consideradas atípicas, incluindo:
R$ 1,5 milhão para a empresa Super Empreendimentos
R$ 1 milhão para um piloto de avião ligado a Vorcaro
R$ 763 mil para uma joalheria na rua Oscar Freire, em São Paulo
Segundo o órgão, esses dados foram incluídos no relatório por apresentarem movimentações financeiras incomuns ou incompatíveis com o perfil do cliente.
O documento não conclui se houve crime, mas serve como base para investigações conduzidas por autoridades competentes.
