Antes de sair pelas avenidas de Belo Horizonte, o Carnaval expõe um problema de planejamento recorrente da gestão municipal: a demora no repasse de recursos públicos aos agentes que fazem a festa acontecer. Ligas de blocos de rua, blocos caricatos e coletivos da cidade afirmam que a verba, quando chega, aparece às vésperas da folia, dificultando a organização, a contratação de serviços e a preparação artística adequada.
A crítica é compartilhada por Eulália Amada, presidente da Liga de Blocos de Santa Tereza e Regional Leste (SiLiga) e coordenadora do bloco Volta Belchior. Segundo ela, a liberação tardia dos recursos se repete ano após ano e compromete diretamente a organização dos compromissos. “O dinheiro até chega, mas só na hora do amém”, ri. A menos de um mês para a folia, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) publicou, nessa quarta-feira (7/1), a lista de blocos de rua que receberão o auxílio financeiro do município.
Para os caricatos, que desfilam em competição na avenida Afonso Pena, o impacto é ainda maior. Presidente da Liga Independente de Blocos Caricatos e Carnavalescos de Minas Gerais, Juólison Mangabeira afirma que a demora no repasse está diretamente ligada à dificuldade da PBH em captar patrocínio privado. “É uma história antiga. Sempre quando a Prefeitura de BH não consegue o patrocinador, nós temos esse atraso do repasse”, aponta.
O Executivo nega. “A realização do Carnaval de Belo Horizonte não está condicionada à captação de patrocínios. O evento integra o calendário oficial da cidade e é uma política pública consolidada, assegurada pelo planejamento e pelos investimentos do poder público. Os recursos destinados ao pagamento dos auxílios financeiros, bem como à estruturação e aos serviços do evento, são garantidos por dotação orçamentária da PBH”, garante a Belotur, empresa pública responsável por planejar, coordenar e promover a festa na cidade.
Em dezembro do ano passado, a PBH declarou, após duas tentativas, o edital para captação de recursos “deserto”, ou seja, sem nenhuma empresa interessada.
Compromisso
Juólison explica que, além dos ensaios, os blocos caricatos precisam de meses de trabalho para confecção de fantasias e alegorias, criação do tema, composição e gravação do samba-enredo. “É uma preparação mais longa”, ressalta. Para os coletivos de rua, o cenário não é menos trabalhoso: são meses de ensaios em espaços que exigem aluguel, compra de instrumentos, entre outras despesas.
Questionada sobre a previsão de pagamento aos 105 blocos contemplados pelo Edital de Auxílio Financeiro do Carnaval, a Prefeitura afirmou que os repasses serão realizados até 31 de janeiro. Em 2026, serão destinados R$ 3,21 milhões, montante cerca de 82% maior do que o concedido no ano passado.
Diretor do bloco Então, Brilha! e integrante da Liga dos Blocos de Rua e de Lutas de Belo Horizonte (Liga Bruta), Leandro César avalia que a forma como a prefeitura organiza o financiamento demonstra uma visão limitada sobre a festa. Para ele, o Carnaval não pode ser tratado como um evento pontual, concentrado apenas nos dias de folia. “Olha o tamanho disso que a gente faz, o alcance…”, aponta. “É uma rede de pessoas que estão comprometidas com a realização da festa, mas é também uma rede de trabalhadores”, complementa.
Eulália, da SiLiga, concorda: “eles pensam que o Carnaval é só ali, naquele momento que a gente está no cortejo, no desfile. Não. Carnaval é o ano inteiro”.
‘Caminho do ouro’
Para contornar o problema, todos miram numa mesma direção: a iniciativa privada. Juólison defende que as agremiações não fiquem reféns apenas do poder público. “Os caricatos e os outros não podem contar somente com o patrocínio da Prefeitura”, sugere. “Eu falo isso também como presidente de bloco, porque além de presidir a liga, eu sou presidente do bloco caricato Estivadores do Havaí. Nós fazemos um esforço para manter as coisas funcionando o ano todo”, afirma.
“Claro que o patrocínio do poder público é fundamental. Ele é o patrocinador master, porque além do recurso financeiro, a Prefeitura oferece a estrutura: passarela, arquibancada, som, iluminação, segurança, banheiros químicos, toda a infraestrutura do desfile. Mas a nossa visão é que os blocos não dependam exclusivamente dessa verba”, diz.
Leandro, da Liga Bruta, vai de acordo, mas explica que, nessa corrida, um ou outro bloco pode sair prejudicado. “Porque é uma articulação mais individual, digamos assim. A Liga Bruta não tem, hoje, a finalidade de articular patrocínios coletivos. Então está todo mundo nessa lida de correr atrás”.
Diálogo com a Belotur
O atraso no repasse das verbas ocorre em meio à troca de comando na Belotur. Em dezembro último, Bárbara Menucci deixou a presidência da empresa após cerca de um ano e quatro meses de gestão. Eduardo Cruvinel, servidor de carreira que atua há 20 anos no órgão, assumiu o cargo. À época, a PBH defendeu que a renovação se trata de uma “mudança pontual”, como ocorreu em “algumas áreas da administração”.
Para Eulália, da SeLiga, o diálogo com a Belotur existe, independentemente da pessoa à frente, mas não tem sido suficiente para evitar problemas estruturais do Carnaval.
Já entre os blocos caricatos, a ponte com a Belotur é descrita como constante e bem estabelecida. Juólison afirmou que há muitos anos tem um “diálogo excepcional” com a empresa e que as tratativas ocorrem “sem burocracia”.
Na Liga Bruta a avaliação é diferente. Leandro César afirma que ainda não houve contato direto com a nova presidência. “Nós ainda não conhecemos o novo presidente”, afirma, mas acrescenta que, até o momento, a mudança no comando “ainda não teve nenhum reflexo” na relação institucional com os blocos de rua.
À reportagem, a Belotur afirmou que já realizou, desde novembro de 2025, 537 reuniões com os blocos de rua para o fechamento de trajetos e outros detalhes operacionais. “Eduardo Cruvinel assumiu o cargo em 19 de dezembro e, desde então, tem se dedicado a compreender a estrutura, os processos e as principais demandas da Belotur, com atenção especial à organização do Carnaval de Belo Horizonte”, apontou.
A empresa também garantiu uma agenda de encontros em breve. “Na próxima semana, o presidente da Belotur já tem agendas marcadas com algumas ligas de blocos de rua para apresentação e alinhamento de demandas”, afirmou.
Expectativas
Problemas à parte, a ansiedade para a folia deste ano segue alta. Para Eulália, da SiLiga, a expectativa é de que o Carnaval aconteça com segurança e respeito, apesar das dificuldades enfrentadas pelos blocos. Segundo ela, o principal desejo é que os recursos sejam liberados a tempo para evitar o endividamento dos coletivos e garantir a estrutura mínima necessária para os desfiles.
“Que seja melhor do que já foi nesses anos todos”, diz Eulália Amada.
Já para Leandro César, da Liga Bruta, prevalece o desejo de manter o espírito que marcou o reaquecimento do Carnaval em Belo Horizonte anos atrás. Ele afirma que os blocos seguem com a “expectativa de sempre”, que é “dar o melhor” e construir uma festa de “muita alegria e muita brincadeira”. “Mas também com essa carga crítica presente, fazendo as discussões políticas que são necessárias em relação à ocupação do espaço público”, finaliza.
