São Paulo, 19 – O dólar subiu com força nesta terça-feira, 19, e voltou a superar o nível de R$ 5,00, acompanhando a onda de valorização da moeda norte-americana no exterior. Divisas emergentes sofreram com a escalada das taxas dos Treasuries, em razão do aumento dos temores de recrudescimento inflacionário. A manutenção do petróleo acima da marca de US$ 100, na esteira do impasse nas negociações de paz no Oriente Médio, alimenta apostas em alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-american) neste ano.
Ao pano de fundo externo desfavorável ao real somou-se o aumento dos ruídos políticos domésticos, com a desidratação da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Primeira pesquisa eleitoral a captar os efeitos do “Flávio Day 2.0”, levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou o senador com 41,8% das intenções de voto em simulação de segundo turno, mais de sete pontos porcentuais atrás do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com 48,9%.
O real figurou entre as divisas que mais perderam nesta terça em relação à moeda americana, ao lado do dólar australiano e do won sul-coreano. Operadores lembram que a moeda brasileira tende historicamente a apresentar oscilações mais agudas, o que torna difícil mensurar o impacto dos fatos domésticos sobre a taxa de câmbio em dias desfavoráveis aos emergentes.
Com mínima de R$ 5,0094 e máxima de R$ 5,0580, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,84%, a R$ 5,0405. A moeda norte-americana avança 1,77% frente ao real no mês, após desvalorização de 4,36% em abril. As perdas acumuladas no ano, que chegaram a superar 10% quando a taxa de câmbio ficou abaixo de R$ 4,90, na primeira quinzena de maio, agora são de 8,17%.
“O petróleo até caiu, mas segue em nível bem elevado. A tendência é que não haja espaço para redução dos juros pelo Federal Reserve neste ano. Pode ser até que seja necessária uma alta. Isso pressiona as curvas de juros nos EUA e puxa o dólar para cima em todo o mundo”, afirma o economista-chefe do Group Holding USA, Fabrizio Velloni.
As cotações do petróleo caíram de forma bem modesta, ainda sob impacto do recuo da segunda-feira de Donald Trump da intenção de atacar o Irã. O contrato do Brent fechou em queda de 0,73%, a US$ 111,28 o barril. No estilo “morde e assopra”, Trump disse nesta terça que uma nova ação militar pode ocorrer na próxima semana se não houver um acordo com Teerã.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve alta e voltou a superar o nível dos 99,000 pontos, com máxima de 99,434 pontos. As taxas dos Treasuries subiram em bloco, com o yield do papel de 10 anos tocando 4,68% na máxima. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra chances majoritárias de uma alta de juros pelo Fed neste ano.
“A percepção predominante é de que uma inflação mais resistente reduziu significativamente o espaço para cortes de juros no curto prazo, aumentando inclusive os receios de uma postura mais conservadora do Fed no próximo encontro, sob a nova liderança de Kevin Warsh”, afirma, em nota, o analista Matheus Spiess, da Empiricus Research.
Em relatório, o BTG Pactual observa que, apesar da depreciação recente, o real é “o principal destaque no acumulado do ano e continua a mostrar desempenho superior desde o início do conflito no Irã, preservando a visão construtiva de médio prazo” O banco pondera, contudo, que “o ponto-chave é que a assimetria de curto prazo se tornou menos favorável” e que o aumento dos “ruídos domésticos pode amplificar movimentos de correção”.
Após a revelação de que Flávio pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, do banco Master, para uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, surgiu nesta terça a informação de que o pré-candidato fez uma visita a Vorcaro no fim de 2025. A reunião ocorreu após o ex-banqueiro deixar um período de dez dias de detenção. Flávio disse que, ao perceber a gravidade dos fatos envolvendo o Master, foi ao encontro de Vorcaro para colocar “um ponto final” na história do financiamento à produção cinematográfica.
“A candidatura de Flávio perdeu força e o mercado começa a cogitar se vai surgir uma terceira via e se ela teria força para superar o atual governo. A questão fiscal, que estava adormecida, deve voltar ao debate. Vamos ter mais volatilidade no câmbio à medida que as eleições se aproximarem”, afirma Velloni.
Bolsa
Agora a mais de 25 mil pontos do limiar dos 200 mil, o Ibovespa seguiu em baixa pelo terceiro dia, retrocedendo nesta terça-feira, 19, ao menor nível de fechamento desde 21 de janeiro, então aos 171,8 mil. Na sessão, oscilou dos 176.973,24, na máxima correspondente à abertura, até a mínima aos 173.543,76 pontos. Na semana, no agregado de duas sessões, recua 1,70%, colocando as perdas do mês a 6,96%. No ano, limita o avanço a 8,16%. No fechamento desta terça, o índice da B3 marcava 174 278,86 pontos, em baixa de 1,52%, com giro a R$ 26,4 bilhões.
Em dia também de ajuste negativo – ainda que relativamente moderado – nos três índices de Nova York, a correção na B3 se espalhou pelas ações de primeira linha, com destaque para o setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa. No segmento, as perdas entre as maiores instituições chegaram a 2,12% em Itaú PN e a 2,05% em BTG Unit. Os carros-chefes das commodities também cederam terreno, com a estatal em baixa de 0,23% na ON e de 0,75% na PN, enquanto Vale ON, principal papel do Ibovespa, caiu 0,99% e já acumula perda de 2,97% na semana e de 0,20% no mês. Petrobras ON e PN, por sua vez, cedem 5,59% e 6,09% em maio, respectivamente.
Dos 79 papéis da carteira Ibovespa, apenas quatro fecharam a sessão no campo positivo: Usiminas (+1,11%), Prio (+0,73%), TIM (+0,63%) e Smart Fit (+0,11%). Do lado contrário, as perdas nesta terça-feira foram lideradas por Cosan (-6,35%), B3 (-4,96%), C&A (-4,70%) e CSN Mineração (-4,67%).
“Foi mais um dia pesado para o Ibovespa, com o cenário global. Recomposição dos estoques de petróleo pelos países afetados tende a resultar em uma segunda onda inflacionária, entre junho e julho, o que já tem se refletido nos juros de mercado dos Estados Unidos, sem a perspectiva de uma reabertura em breve do Estreito de Ormuz”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. “Trump tem tido dificuldade para justificar os motivos da guerra e obter uma declaração de vitória nas negociações com o Irã, o que pesa, e muito, sobre a aprovação de seu governo em ano de eleições legislativas, de meio de mandato”, acrescenta.
“Houve, hoje, um forte movimento de aversão ao risco globalmente, pelas pressões inflacionárias derivadas dos impactos do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo, que pressionam as taxas das Treasuries, com destaque para o título de 30 anos, que atingiu o maior nível de rendimentos desde 2007”, observa também Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Outro desdobramento negativo, no front doméstico, aponta Cima, da Manchester, é certo desânimo do mercado quanto à possibilidade de mudança de governo na eleição de outubro, no Brasil, em meio ao recente enfraquecimento da principal candidatura de oposição até o momento, a do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nesta terça, o pré-candidato do PL à Presidência admitiu ter ido à casa do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, no fim de 2025, conforme havia informado o portal Metrópoles. Segundo o senador, seu objetivo, com a visita, foi “pôr ponto final nessa história”. “Quando Vorcaro foi preso, tivemos virada de chave, e entendemos que situação era grave.”
Pesquisa realizada após o chamado “Flávio 2.0” já mostra o enfraquecimento da candidatura, destaca Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, o que se compôs negativamente com a aversão global a risco que prevaleceu na sessão desta terça-feira. “Diminui a possibilidade de alternância de poder, sabendo-se que o atual governo é ‘gastão’ e não mostra disposição de mudar em eventual novo mandato, que seria o quarto, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, acrescenta.
Juros
A curva de juros futuros ganhou inclinação no pregão desta terça-feira, 19, influenciada principalmente pela disparada nos rendimentos dos Treasuries, que alcançaram seus maiores níveis em anos em alguns vértices ainda devido ao impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Por aqui, o cenário político também contribuiu para o avanço nas taxas mais distantes, com mais episódios envolvendo o senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 fechou em 14,14%, de 14,15% no ajuste de segunda. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,11%, vindo de 14,06% no ajuste também de segunda. O DI para janeiro de 2031 terminou a 14,27%, de 14,18%.
Após o presidente Donald Trump ter sinalizado arrefecimento nas tensões, indicando que um acordo estava próximo de ser alcançado, o republicano voltou a ameaçar Teerã nesta terça com novos ataques até o “início da próxima semana”. O país persa, por sua vez, afirmou que está pronto para enfrentar qualquer agressão militar. O contrato para julho do petróleo tipo Brent, referência para a Petrobras, fechou em leve queda na sessão regular, de 0,82%, mas ainda em nível pressionado, a US$ 111,28 o barril.
Por aqui, agentes apontaram que falas consideradas ‘dovish’ do diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, durante evento no Santander, também contribuíram para o movimento de ‘steepening’ da curva. Isso porque, como não há no cenário possibilidade de que o BC mude o ciclo de calibração da Selic para um de alta, há um “teto” para que os DIs mais curtos absorvam prêmios, que acabam direcionados para os vértices longos.
David afirmou que a desancoragem das expectativas de inflação é algo que preocupa a autarquia. Mais do que as declarações públicas, investidores monitoraram conversa em particular vazada antes de suas falas, na qual Nilton declarou que a Selic em 13,25% no fim do ano, como projeta o departamento econômico chefiado por Ana Paula Vescovi, não seria um cenário ‘dove’ – ou seja, em sua visão, poderia haver mais espaço para cortes na Selic.
Economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez afirma que o vetor internacional, mais adverso, foi preponderante sobre a elevação dos juros futuros. “Os Treasuries abrindo dez pontos-base em vértices intermediários são um efeito bem relevante”, disse. “Vemos o preço do petróleo em US$ 110 e sem recuo. Está todo mundo não querendo ficar refém de blefes de um agente ou de outro”, avalia Sanchez.
Além da questão externa, Sanchez acrescenta que o quadro eleitoral doméstico, na medida em que a possibilidade de reeleição do governo Lula vai ganhando terreno com a desidratação do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também pode ter exercido influência de alta sobre os juros longos.
Após o áudio vazado na última semana que mostrou que Flávio pediu recursos ao banqueiro detido Daniel Vorcaro e derreteu os ativos, nesta terça o filho de Jair Bolsonaro confirmou que esteve na casa do dono do banco Master, logo após ele ter passado para o regime de prisão domiciliar. “Além disso, a reafirmação de Flávio como candidato após esse episódio aumenta a probabilidade de Lula vencer, o que está associado a uma piora da sustentabilidade fiscal”, diz o economista-chefe da Ativa.
