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Dólar sobe a R$ 5,1874 com aversão ao risco e juros nos EUA no radar

Por

Ludmila Souza

Agência Estado
  • 23/06/2026
  • 19:16

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O dólar exibiu alta firme nesta terça-feira (23/6) e se aproximou do nível de R$ 5,20, em sessão bastante negativa para divisas emergentes. A aversão ao risco externo em dia de tombo das ações de tecnologia e a expectativa por dados de inflação nos EUA nesta semana, que podem reforçar apostas em alta de juros pelo Federal Reserve, levaram investidores a buscar abrigo na moeda americana.

Por aqui, a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) desfez parte do desconforto gerado pelo comunicado na semana passada, mas deixou explícito o aumento de incerteza sobre a trajetória da política monetária, com perspectiva de pausa e retomada do processo de calibração da taxa Selic. Operadores afirmam que o diferencial de juros seguirá elevado mesmo em caso de novo corte do juro básico, mas alertam para a menor atratividade do carry trade em razão do aumento da volatilidade.

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Em alta desde a abertura dos negócios e com máxima de 5,1915, à tarde, o dólar à vista encerrou o pregão em alta de 0,89%, a R$ 5,1874 – maior valor de fechamento desde 30 de março (R$ 5,2478) A moeda americana avança 2,87% frente ao real em junho, após valorização de 1,82% no mês passado. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora são de 5,49%.

O economista Fabrizio Velloni ressalta que a moeda americana subiu com força nesta terça-feira, 23, tanto na comparação com divisas emergentes quanto com divisas fortes, com investidores mais avessos ao risco. Além disso, sinais de vitalidade da economia americana abrem espaço para especulações sobre eventual aperto monetário nos EUA até o fim do ano.

“O dólar já vem subindo faz algum tempo e [hoje] teve uma alta mais forte. O mercado ainda está tentando entender qual vai ser a postura do Fed. As últimas declarações de dirigentes são de menor tolerância com a inflação”, afirma Velloni, ressaltando que fatores domésticos, como o aumento da volatilidade à medida que a corrida presidencial se aproxima, também pesam sobre o real.

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Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia mais de 0,30% no fim da tarde, na casa dos 101,390 pontos, após máxima aos 101,433, nos maiores níveis em pouco mais de um ano. O Dollar Index já sobe quase 2,5% em junho e mais de 3% no ano. O euro perdeu mais de 0,40% na esteira de leitura abaixo das expectativas dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) na Europa.

Já o PMI composto dos EUA, que engloba serviços e indústria, subiu de 51,5 em maio para 52,2 em junho – o maior nível em cinco meses, segundo pesquisa preliminar da S&P Global divulgada nesta terça-feira. Analistas esperavam queda para 51,4%.

Sinais de força da economia americana reforçam a expectativa pela divulgação, na quinta-feira, 25, do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) referente a maio, sobretudo após o tom duro adotado pelo novo presidente do Fed, Kevin Warsh, na última quarta-feira, 17.

“Os PMIs europeus abaixo do esperado, especialmente na Alemanha e no Reino Unido, ampliaram a aversão ao risco nos mercados globais, enquanto nos EUA os dados de atividade vieram acima das previsões, sustentando a percepção de juros elevados por mais tempo”, afirma o economista sênior Vitor Kayo, da Nomad.

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Além do quadro externo adverso para divisas emergentes, a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, chama a atenção para a falta de fôlego dos preços do petróleo, que se mantêm abaixo da linha de US$ 80 o barril, inibindo o apetite pela moeda brasileira. “Como o Brasil é exportador líquido de petróleo, essa queda da commodity acaba por afetar um pouco o câmbio”, afirma Quartaroli.

Apesar de declarações desencontradas de autoridades dos EUA e do Irã sobre o andamento das negociações de paz, as cotações do petróleo encerraram em leve baixa, de olho na flexibilização de restrições americanas ao petróleo iraniano e no fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz. O contrato do Brent para setembro, referência de preços para a Petrobras, fechou em queda de 0,93%, a US$ 76,80 o barril, acumulando desvalorização de mais de 15% em junho.

Bolsa

O Ibovespa acentuou a alta à tarde, coincidindo com o ganho de fôlego das ações da Petrobras, além do apoio da maior parte dos grandes bancos e de papéis cíclicos. Em termos macro, a liquidação global de ações de tecnologia e Inteligência Artificial (IA) – com o índice Nasdaq em baixa de 2% – abriu espaço para o investidor olhar além dos Estados Unidos e retomar uma diversificação de recursos, enquanto a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) foi considerada mais dura do que o comunicado, mas ainda permite a interpretação de que a Selic pode cair mais. Com as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) em baixa, a renda variável conseguiu se fortalecer também pela perspectiva de lucros corporativos maiores.

O giro financeiro, contudo, seguiu limitado a R$ 21,3 bilhões. Após mínima aos 168.495,17 pontos (-1,1%) pela manhã, quando seguia a toada negativa do exterior, e máxima aos 171.720,29 pontos (+0,79%) à tarde, o Ibovespa, por fim, encerrou aos 171 258,87 pontos, com alta de 0,52%. Acumula valorização de 1,74% na semana e de 6,29% no ano, embora recue 1,46% em junho.

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Para o especialista em renda variável Patrick Buss, da Manchester Investimentos, não houve nenhum aspecto fundamentalista que tenha embasado a virada de sinal do Ibovespa no início da tarde.

“Nos últimos dois meses, a Bolsa caiu por conta da guerra, mas esse cenário deu uma melhorada e por isso consegue dar uma estabilizada no nível próximo de 170 e 171 mil pontos. Esse tipo de oscilação é bastante comum enquanto o mercado espera o que vai acontecer entre Estados Unidos e Irã: se o acordo vai vigorar ou não. Por ora é imprevisível”, comenta Buss, acrescentando que as oscilações na faixa entre 168 e 172 mil pontos parecem “naturais” por enquanto.

Ainda assim, a guinada do Ibovespa coincidiu com a virada das ações da Petrobras para o campo positivo, deixando a queda do petróleo Brent para setembro (-0,93%), a US$ 76,80 por barril, em segundo plano. Nesta terça, a presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou que a parceria com a Pemex deve estudar a exploração do subsal na parte mexicana do Golfo do México e ser vantajosa para ambas as companhias.

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Para o head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, “a Petrobras é um dos principais papéis de rota para o investidor estrangeiro e há, mesmo com petróleo em queda, uma perspectiva muito boa de resultados no segundo semestre, principalmente motivados por uma geração de caixa maior”.

Ajuda também a trazer fluxo para o Brasil o fato de que o investidor estrangeiro começa a ponderar um pouco mais o retorno sobre os investimentos bilionários no setor de tech e IA, acrescenta Bertotti. O cenário conta, ainda, com a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, após os sinais recentes do Federal Reserve (Fed) e os dados ainda resilientes da economia americana.

Ainda assim, o fluxo do investidor estrangeiro está negativo em R$ 4,3 bilhões em junho, o que reduz o saldo positivo do ano para R$ 37,26 bilhões. Na avaliação de Buss, da Manchester, um movimento mais consistente da Bolsa só acontecerá quando houver um entendimento firme sobre um acordo entre EUA e Irã e que contribua para uma perspectiva mais positiva para juros.

Na mesma linha, o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, menciona que “embora o petróleo esteja caindo neste momento, ainda existem dúvidas sobre o quão frágil é o acordo firmado e como deve afetar o fluxo no estreito de Ormuz”, avalia À tarde, o presidente americano, Donald Trump, reafirmou que o fluxo em Ormuz está a todo vapor e os EUA trabalham em um acordo justo com o Irã.

Em termos de política monetária no Brasil, a ata do Copom “introduziu explicitamente a possibilidade de diferentes momentos de pausa e retomada do processo de calibração dos juros, sugerindo uma função de reação mais flexível e dependente dos dados”, considera o diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira. Apesar de entender que a ata foi mais dura do que o comunicado, Oliveira menciona que mantém a projeção de corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic na reunião de agosto.

Bertotti, da Fami Capital, diz ainda que a queda das taxas de DI nesta terça favorece principalmente as ações de empresas cíclicas, consideradas mais sensíveis ao ciclo de juros.

Vivara, Azzas e Assaí, por exemplo, subiram mais de 3% e figuraram entre as maiores altas do Ibovespa. Entre as blue chips, Petrobras ON (+0,78%) e PN (+0,41%) e grandes bancos – com exceção de Santander Brasil Unit (-0,74%) – subiram entre Itaú PN (+0,27%) e BB ON (+1,43%), enquanto a Vale cedeu 1,89% com a pressão do recuo do minério de ferro.

Juros

Os juros futuros fecharam a terça-feira, 23, em queda, principalmente até o trecho intermediário, enquanto as longas cederam em menor magnitude, o que manteve a curva mais inclinada O documento dividiu opiniões no mercado, mas, nos preços dos ativos, parece ter prevalecido a ideia de que o Banco Central (BC) vê espaço para novas reduções da Selic, ainda que não necessariamente em cortes sequenciais.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caía de 14,217% no ajuste de segunda-feira, 23, para 14,185%, e a do DI para janeiro de 2028 estava em 14,530%, de 14,699%. O DI para janeiro de 2029 projetava taxa de 14,630% (de 14,773%). A taxa do DI para janeiro de 2031 caía de 14,714% para 14,580%.

O sinal de baixa foi preponderante ao longo da sessão, mas, no começo do dia, as taxas chegaram a subir enquanto o mercado tentava entender a mensagem do documento, que foi considerado até mais duro do que o comunicado, em especial por explicitar que o balanço de riscos para a inflação tem assimetria altista. Numa segunda leitura, a curva passou a devolver prêmios, sob a interpretação de que o BC mantém sobre a mesa a possibilidade de voltar a reduzir a Selic.

Ao explicar a reação da curva, a economista-chefe da B.Side Investimentos, Helena Veronese, diz que a ata conseguiu esclarecer pontos que haviam ficado confusos no comunicado, e isso trouxe certo alívio ao mercado, concorde-se ou não com os argumentos. “O mercado entendeu o recado que o Copom tentou passar no comunicado e não tinha sido bem sucedido. A ata foi clara no sentido de que dá para cortar, parar, cortar, parar, num ajuste mais gradual”, disse. “Claro que isso tudo depende dos dados. Evidentemente, se os dados não permitirem, eles não cortam mais”, complementou.

O Comitê reafirmou serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio.

Já para o economista da MAG Investimentos Rafael Rondinelli, a ata deixou espaço para interpretações divergentes. “A ata revela um Copom que ainda se apoia na tese do choque temporário de oferta, mas pavimenta retoricamente o caminho para uma interrupção. A barra para um novo corte em agosto se elevou”, afirma.

Nas opções digitais da B3, nesta tarde, a aposta de queda de 25 pontos-base da Selic em agosto era majoritária, com 63% de chance, enquanto a probabilidade de manutenção estava em 35%. Na pesquisa realizada pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), as expectativas estão divididas. Entre 33 casas consultadas, 16 esperam estabilidade; 16, queda; e uma prevê alta de 25 pontos-base.

A percepção de que o ciclo de calibragem pode ter novos capítulos afetou principalmente os vencimentos de curto e médio prazos, mas, ainda que em menor magnitude, o trecho longo também teve alívio em dia de nova queda nos preços do petróleo e de fechamento da curva de juros nos Estados Unidos.

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